Perigos do Yoga Vira-Latas
Por Pedro Kupfer
Voltei
recentemente de uma temporada de estudos na Índia, onde
o yoga é uma prática baseada em princípios
filosóficos milenares. Diferentemente dos ocidentais, os
yogues daquele país estão mais preocupados em saber
o que você faz para melhorar o mundo que em conhecer suas
idéias. As comunidades yogues estão tradicionalmente
empenhadas em melhorar as condições de vida das
populações carentes, mantendo hospitais e escolas,
distribuindo alimentos e gerando emprego através do karma
yoga, o yoga da ação social.
Essa
experiência no berço do yoga contrasta de manei¬ra
chocante com o que percebemos chegando de volta ao Brasil. Lá,
é absolutamente normal deparar-se com yogues que dedicaram
suas vidas à prática e ao estudo da filosofa. Aqui,
além de esse primeiro tipo ser raro, existem "profissionais"
que envergonhariam os sábios yogues de outrora, que só
não se reviram de indignação nos túmulos
porque foram cremados. Em nosso país, o yoga virou uma
mercadoria usada por charlatões para enriquecer, seduzir
e extorquir.
Desde
novatos psicografando currículos anabolizados para impressionar
potenciais clientes a temerários que ensinam o que ignoram
e mestres facínoras, impera em algumas áreas do
yoga um certo clima de impunidade, de "liberou geral",
no qual os oportunistas fazem a festa. Es¬sas pessoas têm
uma visão tão mequetrefe do yoga que a prática
acaba virando uma espécie de ginástica com incenso.
É o que chamo de viralatização do yoga.
Na
verdade, a presença de pessoas despreparadas ou mal intencionadas
no yoga não é nova. O Dattatreya Yogashastra, um
antigo tratado sobre essa nobre filosofia, adverte: "Há
algumas pessoas que dão discursos sobre yoga ou ostentam
os sinais do yogue, mas não praticam o que pregam. Estão
enganando os demais, somente para obter benefícios e satisfazer
seus desejos".
Nesse panorama de "vale tudo" destacam-se, pela periculosidade,
algumas seitas intolerantes, disfarçadas de redes franqueadoras
autodenominadas "universidades", que tratam essa antiga
filosofia como se fosse fast-food e enxergam os praticantes como
se fossem notas de dinheiro com pernas. Essas seitas com fins
lucrativos oferecem um vasto leque de produtos, que vão
desde formação profissional (para o bom entendedor,
lavagem cerebral pura e simples) a sexo tântrico (leia-se
lascívia desenfreada), sob a supervisão totalitária
do mestre.
Espertamente,
especializam-se no público jovem, mais fácil de
manipular. Os adeptos são orientados a não misturar-se
com pessoas de "nível energético inferior",
não ler livros ou fazer práticas de outras formas
de yoga que a preconizada pelo líder e outras instruções
que têm como objetivo alienar o indivíduo, enfraquecê-lo
e torná-lo mais manipulável. Quando há algum
questionamento em relação ao autoritarismo ou a
pessoa se afasta da faixa etária ideal, ela é impedida
de continuar freqüentando o curso, descartada como bagaço
da laranja.
É
lamentável, mas compreensível, ver a nossa juventude
seduzida por esse tipo de ideologia reacionária. Essas
seitas se apresentam sempre sob uma forma light e criam uma identidade
com a linguagem, as atividades e as inquietudes dos jovens. No
entanto, por trás do marketing enganoso, escondem-se a
exigência de obediência cega, o doutrina¬mento
e a devoção ao mestre, estabelecida através
de juramentos e outros rituais patéticos.
As
palavras yoga e seita são, por princípio, contraditórias.
É impossível haver uma seita formada por yogues
de verdade. Se ela existir, estará formada por um embusteiro
e seus asseclas, sejam enganadores, sejam enganados. Pode um patife
ditatorial e sedento de poder, que impõe o culto patológico
a sua personalidade, ser um yogue? A resposta é não.
Cabe
lembrar que o yoga é uma ciência complexa e pro¬funda
que busca a realização do potencial humano. Essa
realização é chamada nirvana, uma palavra
sânscrita que significa literalmente "sem desejos",
exatamente o contrário do que se preconiza nesse tipo de
instituição. Praticar yoga é levar uma vida
que exige transformações pro¬fundas: desde o
esforço por superar-se na prática e no cotidiano,
aplicando a consciência a cada ação, até
o cultivo das virtudes nos relacionamentos.
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