Nem tudo que é bom dura pouco


  JONI ANDERSON E LAVÍNIA FÁVERO
     
 

Com a ajuda de exercícios de respiração, concentração e controle da ejaculação, o sexo tântrico pode durar horas.

     Homens segurando a ejaculação por horas, até deixar qualquer mulher absolutamente satisfeita. Orgasmos de mais de 15 minutos. Posições sexuais em que a parceira fica por cima ou à frente e cabe sempre a ela impor o ritmo.
     Essa utopia feminista tomou conta dos EUA - e está chegando ao Brasil - sob o nome de "sexo tântrico" - uma versão "modernizada" ou "deturpada" (segundo os puristas) de uma prática inventada pelos hindus há cerca de 9.000 anos.
     Os norte-americanos estão enchendo suas prateleiras de livros como "The art of tantric sex" e "The art of sexual magic", que vendem como água; lotam "workshops" em finais de semana ao preço de US$ 800 e já têm ídolos propagandeando as maravilhas dessa prática - entre eles, o cantor Sting e o ator Woody Harrelson ("O povo contra Larry Flint"). Na Internet, há 9.490 links com "tantra" no índice de busca AltaVista.
     Quem já praticou descreve a experiência assim: "Meu corpo ficou elétrico, e eu senti como se estivesse em outra dimensão da existência" (Vicki Lang, 34, Lincoln, EUA) ou "A energia erótica tomou conta do meu corpo, e eu só queria dançar, dividir-me com alguém" (Sara Feinstein, 19, Fort Lauderdale, EUA). "Há uma melhoía de 100% na sua vida sexual. A prática da retenção da ejaculação dá mais energia, o desejo aumenta, você fica mais sensual e bonita", garante a designer Adriana Araújo Panella, 25, que namora há um ano um professor de ioga.
     Mas tanto prazer requer muito esforço. É preciso reaprender a respirar, aumentar a capacidade de concentração e fazer exercícios musculares e de postura. Os "verdadeiros" adeptos do tantra seguem uma alimentação vegetariana rígida, não bebem, nem fumam.
     Tudo isso para fazer a "cobra" subir. Cobra, no caso, é a "kundalini", a força de energia sexual, representada por uma serpente que estaria adormecida na base da espinha dorsal. O tantra prega que o "orgasmo cósmico" será atingido quando a kundalini subir até o alto da cabeça, passando por todos os "chacras" - sete pontos de energia espiritual no corpo.
     A preparação teria o objetivo de liberar os chacras e dar maior controle da ereção. Há técnicas de respiração, atividades a dois e exercícios localizados como o “mûlabandha": contrair e distender a região perineal até dissociar o movimento dos músculos do pênis e do ânus para que eles não reajam mais em bloco. Contrair os músculos do ânus tornaria mais fácil para o homem responder às contrações involuntárias dos músculos vaginais durante o ato sexual.


A energia vital, chamada de kundalini, é representada por uma cobra,
que fica enrolada na base da espinha.

     Há também dicas mais simples como: "próximo ao orgasmo, pare e abrace a parceira por cinco minutos e só depois recomece".
     Os tântricos recomendam ainda cinco posições sexuais básicas , escolhidas pelo conforto (uma relação tântrica pode durar horas) e facilidade controle da ejaculação, algumas são deliberadamente pouco excitantes (veja no final do texto). O "papai-e--mamãe” é condenado porque a mulher fica à mercê dos movimentos masculinos. Além disso, nessa posição, é mais difícil homem controlar a sua ejaculação.
     Mas por que reter o esperma? O objetivo é alcançar o que os gurus chamam de satisfação máxima e evitar o desperdício de "energia vital", que a ejaculação representaria. O professor de ioga De Rose, 52, explica: "O que interessa aos tântricos não é o líquido seminal, considerado um resíduo. O importante é a energia nervosa.”
     O tantra ensina, portanto, a separar orgasmo e ejaculação - algo defendido pelos sexólogos, mas dificilmente aceito pelos "ocidentais". Moacir Costa, psiquiatra do Instituto Kaplan e autor do livro "Sexo: minutos que valem ouro", explica: "Ao contrário do que muita gente imagina, ejacular não significa obrigatoriamente ter orgasmo. A ejaculação pode ocorrer quando se está dormindo, sem nenhuma estimulação erótica, ou em situações de pânico".
     Mas Costa não acredita nas técnicas tântricas. "O controle da ejaculação tem validade quando serve para o casal explorar melhor sua sexualidade, mas tomar a retenção do sêmen como obrigação ou objetivo faz com que se perca muito da espontaneidade do ato sexual, podendo, inclusive levar à perda da ereção. A ejaculação é uma reação fisiológica, própria do organismo masculino. Inibi-la leva sempre, na minha opinião, a uma redução do prazer", diz.
     Para o urologista Afiz Sadi, professor aposentado da Universidade Federal de São Paulo, não há problemas fisiológicos em reter a ejaculação. "Alguns homens, depois de ter uma relação sexual prolongada sem ejacular, podem sentir um pouco de dor no epidídimo (órgão localizado perto dos testículos), devido a um refluxo do sêmen, mas isso não causa danos". De acordo com o médico, o sêmen não eliminado volta para a vesícula seminal, onde fica armazenado até a próxima ejaculação.
     Os tântricos dizem que essa dor é "um preço a pagar" e que dura apenas alguns dias. Recomendam uma ducha de água morna nas bolsas escrutais para aliviar o incômodo.
     Praticando tantra-ioga há dois anos, o antropólogo Pedro Bambini Vasconcelos, 2_5, diz que conseguiu melhorar sua vida sexual. Na intensidade e na qualidade. "Fiquei mais ativo e com mais vontade de fazer sexo", afirma.
     Com os ensinamentos, aprendeu a reter a ejaculação, prolongar o ato sexual e descobrir mais prazer físico e mental. Evitar a ejaculação, entretanto, não é uma regra para ele. "Tem horas em que você quer, outras não. O importante é passar longos períodos retendo a ejaculação. Assim você pode direcionar a energia acumulada para a área que quiser", diz.
     Com a namorada, que também pratica o tantra, Vasconcelos alterna períodos de intensa atividade sexual com outros de completa abstinência. O tantra é o responsável por algumas "noites de amor mais prolongadas", que chegam a demorar cinco horas.
     "Com o tantra, passei a dominar o ato sexual e os desejos. Você sente o gozo como uma limitação, um pequeno espasmo muscular onde você perde energia, perde a ereção. Quando você consegue controlá-lo, leva o nível de prazer para um patamar mais elevado. Fica no limite entre o orgasmo e o não orgasmo", diz Vasconcelos.

     Pernas enroladas
     Para além dos chacras e meditações, o tantra é esclarecedor - e até revolucionário - para casais que gostariam de melhorar sua vida sexual. Ele ensina, em primeiro lugar, a perceber melhor o parceiro. "O objetivo final da prática do tantra é você se conhecer melhor por meio do outro", diz De Rose.
     No exercício de "encontro das almas", por exemplo, homem e mulher sentam-se, de pernas cruzadas, um de frente para o outro, se possível com ela no colo dele. As pernas da mulher se enrolam nas costas do homem, e os dois ficam assim por alguns minutos, apenas se olhando.

     A segunda lição do tantrismo é não ver a ejaculação como um fim. O importante é a "viagem", a relação sexual, e não o "destino", o gozo. O monge budista Otávio Leal, 33, praticante de tantra-ioga da linha do meio (mais tolerante à bebida, alimentação e à ejaculação), exemplifica a intensidade do orgasmo no tantra com um gráfico desenhado no ar. "Enquanto uma relação normal chega ao ápice em 15 minutos em média, no tantra você pode demorar de duas horas a 21 dias para chegar ao orgasmo, apenas praticando carícias ou observando o outro", diz Leal, que é casado com uma acupunturista.
     O terceiro ensinamento útil dos iogues é a importância de se ter uma melhor consciência corporal. Mesmo sem acreditar em chacras, pelos exercícios de respiração, aprende-se a perceber os diferentes músculos do corpo e a sentir o ar entrando e saindo.
     Além disso, o tantra implica ter tempo para o sexo. Não há “rapidinhas”. É preciso preparar antes o ambiente - prefira cores em tom de laranja, luz acesa ou de velas, incenso, travesseiros confortáveis, música relaxante etc.- e o próprio corpo - higiene, unhas aparadas, barba feita.
     Para Adriana, o tantra ajuda também a mulher a trabalhar melhor a sua sexualidade. "Por ter sido criado em uma sociedade matriarcal, o tantrismo liberta a educação repressora que toda mulher recebe. Desprezei muitos conceitos antigos e bobos depois que ganhei uma visão mais natural das coisas. Sinto que o amor cresce junto com a prática tântrica, talvez por causa do aumento do desejo", diz a designer, que conta já ter ficado seis horas seguidas fazendo sexo.
     Seu namorado, Charles da Silveira Maciel, 28, explica que o tantra não está ligado somente à sexualidade. "É uma forma de vida, de extrair mais prazer em tudo", afirma.
     Charles, como a maioria dos iogues, tem horror à exploração do tantra apenas como terapia sexual. "Resumir o tantra à busca do prazer é uma simplificação grosseira. O verdadeiro tantra é uma busca da integração em que mulher é considerada uma deusa. Você experimenta a completude e, em seguida, o vazio", diz Márua Roseny Pacce, 42, psicóloga e professora de ioga, que pratica a arte desde os 16 anos.
     Segundo Pacce, existem apenas cinco pessoas autorizadas no mundo a ensinar tantra. Mestre de todas elas, o Yogi Bhajan, estará em março no Brasil, dando um curso de dois dias. "Podemos dizer apenas que damos aulas de kundalini-ioga, como preparação para o tantra. Isso não impede, contudo, que você leia um livro para saber mais sobre essa prática", diz.

     De Rose diz que não aceita em seus cursos pessoas interessadas apenas na parte sexual do tantra. Ele dá algumas dicas para escolher a bibliografia certa: prefira autores orientais, livros escritos antes da década de 60 (antes de virar moda), desconfie especialmente dos californianos e não compre manuais de autores que usam nomes místicos (ele pode ter motivos para se esconder atrás de um nome falso).

TANTRA

     ORIGEM - Surgiu com os drádivas, povo que viveu no norte da índia há cerca de 9.000 anos. Era uma sociedade matriarcal, com poliandria (mulheres podiam ter vários maridos).

     O QUE É - Ritual para alcançar o autoconhecimento por meio da prática sexual, entre outras técnicas. Tantra, do sânscrito tantori, significa tecer (hoje é sinônimo de êxtase).

     PRINCÍPIO - Encontro e equilíbrio das energias espiritual e sexual. A kundalini (princípio energético feminino representado por uma cobra que fica enrolada na base da espinha) deve se encontrar com a energia masculina, que se encontra no alto da cabeça. Para isso, tem de passar pelos chacras, pontos de canalização da energia, que devem ser abertos por meio da conscientização.

     PRINCIPAIS PONTOS
     1) a mulher tem o lugar central na relação sexual.
     2) controle ferrenho da ejaculação para prolongar o sexo pelo máximo de tempo.
     3) aperfeiçoar a concentração, respiração e postura por meio de exercícios.

     VOCABULÁRIO
     Lingam: o pênis
     Yoni: vagina
     Kundalini: energia vital feminina

     EXERCÍCIOS DE RESPIRAÇÃO
     1- Sente-se em um ambiente tranqüilo, com uma roupa confortável por meia hora. Tente relaxar.
     2- Deite de costas, coloque a mão esquerda sobre o pênis e a direita sobre a esquerda. Feche os olhos.
     3- Contraia os lábios e inspire gentilmente pela boca, de modo que o ar passe até o abdômen. Expire com os lábios relaxados e solte a voz. Repita até que fique natural respirar assim.
     4- Enquanto inspira, imagine que está sugando o ar para dentro do corpo pelos genitais. Imagine o ar movimentando-se dentro do corpo
     5- quando expirar, contraia os músculos que você usa quando quer reter a urina. Expire e inspire assim por cinco minutos.
     6- Ao inspirar, mexa sua mão direita vagarosamente pelo corpo, dos genitais à testa. Pare e prenda a respiração por 10 segundos. Expire.
     7- Enquanto inspira de novo, imagine que a sua respiração é como um elevador, os "músculos da urina" são o motor e a espinha dorsal são os cabos.
     8- Enquanto inspira, deixe o "elevador" subir dos genitais, parando em diferentes pontos do seu corpo. Pare no "segundo andar", sua barriga, e sinta o calor interno. Vá parando em cada chacra. Expire, movendo sua mão para baixo até os genitais.
     9- Na próxima vez que fizer sexo, imagine sua energia sexual subindo pela espinha em vez de saindo do seu pênis.

     DICAS PRÁTICAS
     1) Decore o ambiente com cores quentes, que estimular os chacras.
     2) Prefira luz acesa ou velas.
     3) Faça uma refeição leve, com alguns afrodisíacos (tomilho, gengibre, aspargos, champignons frescos etc.)
     4) Use óleos aromáticos
     5) Não fume, nem beba, nem use drogas
     6) Prefira posições que permitam movimentação da mulher (ela deve ficar por cima ou à frente do homem) e não a cansem.

Posições sexuais básicas

Uttana-Bandha

     Recomendada porque, dessa maneira, é mais fácil controlar a ejaculação. É uma variação da tradicional posição "papai-e-mamãe", só que, desta vez, ele fica agachado no chão (e não estendido sobre a mulher), permitindo que a parceira se movimente.

Upavishta

     Há muitas variações dessa posição. Em todas elas, a mulher deve sentar-se sobre o homem. A variante mais simples é a Sukhâsana, que significa "posição feliz": o homem fica sentado, com as pernas cruzadas. A mulher se coloca por cima, de frente para ele, abraça-o e põe suas mãos sobre os ombros do parceiro ou ao redor de seu pescoço.

Janujugmâsana

     Essa posição, essencialmente tântrica, possibilita um contato prolongado e totalmente relaxado. Os parceiros ficam deitados frente a frente, formando um "x" com os corpos.

Tiryakâsana

     A mulher se deita, com a perna direita dobrada e a esquerda, estendida. O homem, à direita da parceira, fica mais ou menos perpendicular a ela. Ele se coloca sob a perna direita da parceira, que está brada, e prende a coxa da mulher entre as suas.

Purushâyita

     A mulher fica por cima do homem e comanda os movimentos. Ele não consegue se mexer muito, mas pode relaxar e se abandonar ao ato sexual. Essa posição possibilita uma "troca de sexo", já que o homem toma o lugar normalmente reservado à mulher.

Os bonecos azuis representam os homens, e os brancos, as mulheres.

 
 
 

Autor:
JONI ANDERSON E LAVÍNIA FÁVERO
Fonte: Revista da Folha, 21 de setembro, 1997