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Seus
alunos foram se reunindo à sua volta. Passantes pararam.
Animais se aproximaram. Era mesmo o santo Buda que ali se deitara
e fazia um sermão aos que choravam: "Tudo o que principia
tem um fim. Sejam vocês uma luz. Façam dos ensinamentos
seus mestres. Assim eu viverei para sempre". Depois, pediu
silêncio e não se ouviu mais sua voz. Era Sidharta
Gautama, o Buda Xaquiamuni.
Seu
corpo foi perfumado, preparado adequadamente e queimado sobre uma
pira de madeira incensada. Os restos foram guardados em urnas especiais,
inicialmente colocados em oito locais. Essas urnas foram sendo subdivididas
e, hoje, ninguém sabe em quantos locais existem pequenos
fragmentos de seu corpo. Aproximar-se de um pedacinho de osso de
Buda traz méritos infinitos e faz com que o bem e a verdade
se manifestem. Buda é o desperto, o sábio, que faz
o bem a todos os seres.
Dia
19 de junho, será feita uma grande cerimônia para as
relíquias de Buda, que, pela primeira vez, chegam ao Brasil.
Elas vêm de três países da Ásia. Essas
relíquias viajam o mundo há três anos, desde
que a Organização das Nações Unidas
reconheceu o festival de Vesak. Sua caminhada é de alegria
e de paz. Comemora o grande sábio da Índia, que pregava
compaixão e sabedoria.
É
de bom auspício vê-las chegar a São Paulo. Estarão
no Sesc Pompéia, de 19 a 22 de junho, emitindo bondade e
compreensão. Todos poderão visitá-las. Haverá
uma grande recepção e preces de louvor. Preces pedindo
um favor. Haverá preces de amor e preces por destemor. Preces
de quem confia na possibilidade de transformar o mundo através
da simples verdade. Preces pelo bem-estar do país, das multidões,
sem discriminações. Preces contra a violência
das gentes e da natureza. Preces por uma cultura de paz, inclusão
e ternura. Preces pelo cuidado de cuidar, sem desviar verbas. Preces
para alcançar a fome zero no mundo. Preces para acalmar os
corações taciturnos, guerreiros e predadores. Preces
para amansar os furiosos destruidores de vidas, de lares, de esperança.
Preces para transformar mentes fechadas, corruptas, amargas, vingadoras
e egocentristas em mentes amplas, corretas, doces, cheias de compreensão
e prontas a se doar pelo bem da criação.
Criação
que é inventada a cada momento por gestos, sorrisos, palavras
de amigos e pensamentos de irmãos. Unidos na crença
que não separa. Na crença que integra os seres e a
natureza no respeito à vida em todas as suas formas. Crença
de que é possível mudar. Mudando sem cessar e sem
desistir da esperança. Esperança, não de esperar,
mas de "esperançar".
Vamos
juntos unir nossas vozes em preces profundas como pede o papa em
Roma. Vamos juntos unir nossas vidas em meditações
isentas de intenções pessoais como pede um Buda em
qualquer lugar. Que a Terra seja amada e respeitada. Que os seres
vivam a bondade. Que sejamos sabedoria e compaixão.
Que
possamos emitir raios luminosos de ternura, de respeito, de inclusão,
de direito, de deveres, de integridade, de vida com qualidade, de
equidade e de paz.
Seja bem-vindo Xaquiamuni Buda.
Suas
relíquias são as montanhas, as terras, o céu,
as águas e o ar. Suas relíquias estão em toda
a parte e em meu coração.
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Coluna
APENAS UM CÍRCULO
Nossa
vida é um círculo. Cada uma de nossas vidas é
apenas um de muitos círculos...
Nossa prática é realizar que todos os muitos círculos
são um círculo.
Recentemente
uma pessoa que começou a praticar Zen me perguntou: "Eu
não conseguia encontrar solução para alguns
de meus problemas fundamentais, então comecei a estudar Psicologia.
Agora que eu comecei a praticar Zen eu me questiono se serei capaz
de encontrar soluções. Talvez não haja soluções".
Eu
positivamente digo que há uma solução e que
você pode encontrá-la. O Buda histórico e muitos
outros encontraram tal solução. Mesmo no presente
há muitas pessoas que já encontraram ou que irão
encontrá-la. Então o que é isto? O que verdadeiramente
nos dá satisfação? Um de meus professores Yasutani
Roshi costumava dizer quando seu professor Harada, que foi um grande
mestre Zen e um preciso estudioso, falava sobre Budismo para qualquer
grupo, ele primeiro desenhava um grande círculo e dizia:
"Isto é Zen". Apenas um círculo.
Talvez
cada um de nós tenha alguma definição do que
é um círculo, dependendo se somos cientistas, psicólogos,
filósofos, artistas. Podemos dizer muitas coisas sobre o
círculo. Se interpretarmos abstratamente como perfeição,
compleição, não surgido, não extinto,
este círculo contém todas as coisas. Nossas vidas,
elas são um círculo. Nossa vida é um círculo.
Cada uma de nossas vidas é apenas um de muitos círculos,
cada círculo sendo perfeito, absoluto. Embora esses círculos
se mesclem, talvez nem mesmo dois círculos possam coincidir
exatamente. O círculo de nossa vida é um maravilhoso
mandala, que inclui todos os círculos, todos os mandalas.
Nossa prática é de apreciar verdadeiramente este único
círculo.
Da Revista
The Ten Directions - ZCLA Vol I nº 2 Maio 1980.
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Coluna
ODE A KIGEN OSHO
(Por: Monja Coen)
Ele
era um floricultor feliz. Tivera seus filhos e uma companheira amiga
e vivia cultivando a terra e as flores belas. Bebia em algumas noites,
com os amigos, levantando o copo de cerveja ou o de saquê
entre os dedos grossos e fortes, manchados pela terra, e cortados
pelo frio.
Nas
cerimônias anuais das danças de roda, subia as escadas
montadas, especialmente, para os tambores enormes. Lá, ele
tocava, revezava-se com amigos antigos. Tocava um som sereno e possante.
As mulheres dançavam, e as crianças, os idosos e muitos
dos homens também se alegravam entrando na roda.
Dizia-se,
então, que os ancestrais, todos, sem exceção,
vinham verificar como estavam seus descendentes vivos. Era preciso
dançar com alegria e mostrar que se mantinha a tradição
do Japão, mesmo em terras do interior do Brasil. Tudo isso
era feito no terreno compartilhado pelo templo budista e pela Associação
Cultural do Japão.
Ele
parecia feliz. Alto, encorpado, sempre disposto a ajudar nos arranjos
e na preparação. No final da festança, também
ajudava a por tudo de lado. Foi a ele que caiu a incumbência
de se tornar o monge do templo. Foi solicitado e disse não.
Afinal, era floricultor. Se seu pai fora monge no Japão,
isso fazia muito, muito tempo. Não. Mas o irmão mais
velho havia sido o fundador do templo na cidadezinha. As imagens
todas, os altares, tudo era feito no Brasil. Um templo bonito, limpo,
em um terreno amplo, mas o monge fundador, irmão dele, havia
voltado ao Japão. O templo não tinha monge responsável.
Fazia falta um monge local. Insistiram. Ele coçou a cabeça
e acabou aceitando. Já estava com mais de 60 anos, e o trabalho
no campo começava a pesar.
Mudou-se
para a casinha nos fundos do templo. Senhor e senhora. Ela iniciou
seus estudos com as outras senhoras dos cantos sagrados. Cozinhava,
varria, limpava, cozia e sorria. Era feliz. Ele aprendia a rezar,
a usar roupas antigas e sua memória voava para os tempos
de infância.
Ainda
era difícil ficar à vontade, sentado na frente de
todos os amigos e conhecidos, lendo rezas, encomendando espíritos.
Vinha pedir auxílio, orientação, em São
Paulo. Era um homem bom e simples, que estava sempre pronto a ajudar.
Fumava disfarçadamente. Trabalhava eficientemente.
Do
Japão vieram seus parentes ricos e importantes, representantes
de templos grandes. O fizeram monge em frente a todos da cidade.
Vestiu definitivamente os hábitos negros. Não sei
quanto tempo se passou e ele teve um derrame. Ficou paralítico.
Pensaram que iria morrer. A mulher se desdobrou em cuidados. Ele
era pesado, mas ela dava conta. Banhava, vestia, alimentava e rezava.
Ele foi melhorando, ela foi definhando, definhando e morreu.
Ficou
sozinho o monge, em uma cadeira de rodas. Um dos filhos veio cuidar
do pai. Ele já não ria, já não mexia
nas rosas. Seus dedos ficaram limpos de terra e não levantavam
copos. Nas cerimônias solenes, se sentava encolhido e magro.
Chorava feito menino, triste de seu destino.
Morreu
em 21 de julho, sozinho em seu quarto. Adormeceu e se foi, no silêncio
da madrugada. Que o venham receber todos os anjos e fadas. Que o
venham acolher os budas. Eu o conheci bem e, no seu olhar, notei
a pureza, a honra e a bondade. Ascende Kigen Osho, monge de hábito
negro. Sobe para a luz mais clara e mais radiante, para o céu
que adorava contemplar. Reencontra sua amada, seus pais e todos
aqueles companheiros que, antes de você, se foram, alguns
dos quais você encaminhou ao orar. Ascende para a luz mais
clara e encontra os budas iluminando para sempre e sempre a sua
estrada. Mãos em prece. Namu Xaquiamuni Buda.
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Coluna
"INTERSER"
(Por: Monja Coen)
Certo
dia, fui ao grande mosteiro da Paz Eterna, em Fukui, no Japão.
O mosteiro tem cerca de 70 edificações, é um
dos mosteiros sede da tradição soto-zen budista e
pode abrigar mais de 500 monges. Eu fui para uma visita formal e
me colocaram em um grande aposento. Lembrei-me da primeira vez em
que subi essa montanha, há muitos anos, cheia de expectativas,
sonhos e alegria para participar de um retiro especial.
Eu fazia parte de um grupo de monjas do mosteiro feminino, onde
morava há mais de dois anos. Tinham nos colocado nesse mesmo
aposento. Éramos seis monjas esperando pacientemente para
que nos conduzissem ao refeitório e às salas de estudos,
meditação e preces. Em um mosteiro sede, tudo é
muito certinho. Ainda mais sendo um mosteiro masculino, no qual
nós, monjas, só éramos admitidas em raras ocasiões.
Minhas companheiras, todas japonesas, sentaram-se alegremente para
bebericar chá e conversar. Algumas costuravam uns paninhos.
Não acreditei.
Há anos sonhava chegar a esse mosteiro. Há anos queria
conhecer de perto o templo do mestre que tanto me inspiraria me
tornar monja zen budista. Elas não pareciam interessadas
em sair de lá. Não agüentei. Sem dizer nada,
como quem vai ao banheiro, saí sozinha e comecei a percorrer
os longos corredores, as imensas escadarias de madeira. Jovens monges
ensaiavam cerimônias, correndo, andando, entoando sutras em
voz alta. Outros faziam faxina. A cozinha era enorme, e eles estavam
de avental branco e com toalhas brancas na cabeça. Nenhum
leigo, apenas monges:
Quando
cheguei ao salão memorial do fundador, meu coração
bateu mais forte. Queria entrar, fazer reverências, oferecer
incenso. Nisso, fui interpelada por uma jovem, com microfone na
mão. Era de uma rádio local e queria saber minhas
impressões sobre o mosteiro. Surpreendeu-me. Respondi a algumas
de suas questões até que ela me perguntou qual era
a essência do budismo. Naquele momento, um sino badalou e
ecoou por todo o mosteiro. Sem pensar duas vezes, disse: "O
som do sino".
Zen
não é nada especial. Budismo é estar desperto
e completo no instante em que estamos. Passando por essas memórias,
entrei no aposento, conduzida por um noviço de cerca de 20
anos, que me pediu para aguardar até que viessem me chamar
para os cumprimentos formais. Assim o fiz. Anos haviam se passado
e, entre outras coisas, eu também aprendera a esperar.
Era
o entardecer. Tudo estava silencioso, a não ser por alguns
pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso
de sândalo que trouxera, fiz um pouco de chá e, enquanto
o bebia lentamente, me pus a olhar para a palha de arroz que forrava
o chão de todo o aposento. De repente, percebi o chão
vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava
as longas hastes douradas. Foi_ tudo muito rápido, mas muito
vívido. Pouco depois, o chão voltou a ser a palha
de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso,
mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles
tatames suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande
reverência pelos campos de arroz.
A
interdependência; ensinada nos textos sagrados, está
em toda parte. O arroz só é possível se houver
água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à
sua volta; senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante
plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo,
varais de roupas coloridas, minhocas e até nossos pensamentos
e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz
é feito de coisas "não-arroz". Cada um de
nós existe graças a todos os "não-nós".
Palha de arroz. Tatame. Vislumbre breve do milagre de "interser".
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Coluna
DECISÃO TOMADA
(Por: Monja Coen)
A
decisão é sua. Temos de decidir sobre o emprego, a
festa, o casamento, os filhos, o almoço e o jantar. Temos
de decidir o castigo, a pena, a punição e a absolvição.
Reflita se é uma decisão boa para você e para
o mundo. A decisão é sua.
"Filho
causa problema", explica a mãe, chorando. "Faz
bobagem, e é a mãe quem sofre." Tem filho que
corta gente. Tem filho que faz gente antes da hora.
A
decisão é sua. Começa com a escolha do nome,
que pode ter tantos sentidos. Cuidado! Não se aperreie. Isso
é comum entre as pessoas. Há como sair da confusão?
Qual o caminho certo? Primeiro, respire. Solte todo o ar dos pulmões,
esvazie o peito e o coração. Deixe o ar entrar. Há
um ritmo natural. Perceba o seu próprio ritmo.
Tendo
aquietado o corpo e a mente, sentado ou de pé, sinta a vida
pulsar em cada artéria, em cada veia. Nas teias da memória,
procure o princípio do princípio, lá se encontra
o vazio. E essa vastidão é repleta de vida, palpitação,
pensamentos, silêncios, amores, desafetos, carinhos, repulsão,
tristezas, aflições, ansiedades e certezas.
O
maior presente é não ter medo. Se nada pertence ao
ser, se somos um punhado de ossos, carnes, nervos, tendões,
sangue, pleura, corações, sentidos, percepções,
memórias, construções mentais, consciência
e tudo o mais, somos a ligação disso tudo. Um organismo
é feito de partes. Se uma parte falhar, todo o resto sofre.
Como
saber o certo? Um dia, foram indagar exatamente isso a Xaquiamuni
Buda. Cobrindo ambos os ombros com seu mato, ele disse: "Levar
o maior número de pessoas ao verdadeiro (a verdade que está
dentro de cada um de nós) é o bem".
Somos
a verdade do universo, alguém pode duvidar? Buda também
recomendava a prática das seis perfeições.
Quem as pratica atravessa do lado da dor, da tristeza, do desconforto
e dos medos para a margem da sabedoria.
A
primeira é a doação. Doar não apenas
as sobras, o que não se quer mais. Doar coisas materiais,
como alimentos, mas também educação, capacitação
e saúde. Doar os ensinamentos que nos levam à verdade,
doar o não medo de saber que estamos a todo o tempo nas mãos
do maior bem-querer.
A
segunda é manter os preceitos. Não matar, não
roubar, não mentir, não negociar tóxicos, não
abusar da sexualidade, não se elevar e rebaixar os outros,
não falar dos erros alheios, não ser movido pela ganância,
não ser movido pela raiva, não falar mal dos seres
iluminados ou de suas comunidades.
A
terceira perfeição é a paciência. Paciência
de fazer, ser, pensar, planejar, esperar o momento e recomeçar
tantas vezes quantas sejam necessárias. Sem pressa, com precisão.
Pacientemente amando, cuidando, compartilhando a vida de todos nós.
A
quarta é a assiduidade, o esforço contínuo.
Não deixe a peteca cair. Quem quer fazer fogo com pedras
esfrega sem parar até a faísca surgir. É a
constância da macia e pequena gota de água que faz
a rocha se abrir.
A
quinta perfeição é a meditação.
Com o coração tranqüilo e a respiração
adequada, perceba tudo o que somos nessa estrada.
A
sexta e última perfeição é obter a sabedoria
suprema. Ela permite perceber a verdade em tudo, em todos e em qualquer
lugar, sem que reste uma situação de enganação
ou falsidade.
Aqueles que são capazes de viver dessa maneira, encontram
na vida a bondade e a justiça. Abrindo portais para infinitos
outros seres. Para que todos possam se beneficiar.
Revista
da hora, 5 de outubro de 2003.
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Coluna
"CACHORRINHOS"
(Por: Monja Coen)
Certo
dia, um monge noviço entrou na sala do mestre Abade. Fez
as reverências de praxe, dobrando joelhos e encostando a cabeça
no chão por três vezes. Ofereceu incenso suave. Ajoelhou-se
e, com as mãos unidas, palma com palma, dirigiu-se a seu
superior:
-
Venerável mestre, o cão possui a natureza Buda?
- Mu!, respondeu o Abade, que nada mais disse.
Isso
aconteceu no século 8, na China. Desde então, tem
sido usado por mestras e mestres zen para levar seus alunos a penetrar
o portal dos sábios iluminados. É um portal sem portas.
Não há cercas, não há grades, não
há soldados armados, não há terroristas ou
bombas. Não há passaportes, documentos, livros, paramentos
ou passe especial que permita a entrada. Só entram os que
conseguem transpor essa barreira sem forma, sem eira nem beira.
E é um cãozinho que abre esse portal sagrado?
Alguns levam anos para entrar nesse recinto de
sábios. Outros, em pouco tempo, percebem, com toda a clareza,
muito além de ter e não ter. Natureza Buda quer dizer
natureza iluminada. O cachorro tem o sagrado? Seria a pergunta de
outra forma formulada. O mestre, sábio e bondoso, vendo o
noviço confuso, solta uma só silaba e com ela enche
o mundo: "Mu!"
Mu não é um mugido, é um
rugido de leão. Rei dos animais da selva, ele cala todos
os outros. Naquele silêncio que impera, sem concordar ou discordar,
a natureza iluminada reluz sem parar.
Houve outra ocasião em que esse mesmo mestre famoso, de nome
Joshu, respondeu a outro noviço nervoso: "Yu!"
Se mu é uma negativa, yu é a afirmação.
Estaria louco o mestre, teria perdido a razão? Não
é ter nem possuir. O sagrado, a natureza iluminada, não
se tem ou deixa de ter. É em tudo o que existe, sem diferenciação.
É na vida e é na morte. É no ser, em todo ele,
sem se esconder, sem escolher, sem diferenciar. Não fica
só em um cantinho, em um coração ou ninho.
Não é privilégio dos ricos nem dos pobres,
dos gays ou dos travestis, das crianças ou dos idosos, dos
religiosos ou dos ateus, dos seres humanos ou dos planetas, estrelas,
galáxias, cometas. O velho monge sábio, sem muitas
explicações, leva à compreensão suprema,
gritando alto e em bom som: "Mu!".
Há algumas semanas, uma cadela enorme que
eu conheço, daquelas que parecem bezerros, de raça
do gue alemão, cruzou com um cão japonês da
raça aláta, de porte médio, que há anos
com ela convivia e que, por mais que tentasse, não conseguia
montar na bezerrona. Pois, um dia, eis o milagre. Ela ficou prenha.
Nasceram à noite. Embrulhadinhos, um a um, saíam já
se mexendo. Depois de três bem paridos, um congelado, morto,
duro, parado. De nada adiantaram as preces e as massagens. Pobre
criaturinha. E nós, seres humanos, que esperamos por muitos
meses, um só filhinho? Como deve ser doloroso um natimorto,
pensei. Mal sabia que, em alguns dias, teria de fazer o enterro
de um bebê morto antes de nascer.
Outros nasceram vivos, mas a mãe desajeitada
me recebeu de manhã assustada. Um pequeno se via no canto
de boquinha escancarada. No dia seguinte, mais um que ela sem querer
havia esmagado. Quatro sobreviveram, cresceram, cada um com o seu
jeito. A gordinha comilona, a dengosa derretida, o machinho saltador,
a alegre levadinha. Será que o cão possui a natureza
Buda?
Em minha sala entra um jovem praticante, que há semanas vem
pensando e meditando sobre mu, Buda, cão, e diz:
-
Entendi o mu agora. É tudo. Está em todos e em todo
o lugar.
- Isso é uma parte, respondi.
Ainda
falta completar. Não se entende só com a mente. Seja
mu ao respirar.
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Coluna
"EM DEFESA DAS DIFERENÇAS"
(Por: Monja Coen)
Luz
e sombra. Noite e dia. Positivo e negativo. Feminino e masculino.
Como delinear a diferença? O que separa é o que une.
O Sol é a deusa da luz. A Lua é
o lua refletindo a luz dela, tão bela, que dá vida
à sua vida. Separamos, diferenciamos, discriminamos e criamos
situações em que não sabemos como agir. Ela
é mulher, mas provoca, inflama a ira, atreve-se a querer
ser como os homens. Quem deu o padrão? Ele é o macho
sem sensibilidade, que não houve nada, só esmurra
e grita. Será que é assim? Será que somos assim
de verdade? Veja lá dentro como tudo se funde no homem que
chora e na mulher que combate.
Homens maquiados, roupas de grife, cabelos pintados, gestos delicados,
suaves, mãos bem tratadas. Bigodes, barbas, anéis
e correntes já não são seus enfeites. Também
usam brincos. Alguns delicados, brilhantes ou dourados. Outros,
como os nativos índios amados, colocam madeira para abrir
buracos nos lobos da orelha de um lado ou dos dois.
Os piercings nas bocas, nas sombrancelhas, nas
mamas, pelo corpo espalhados. Sinais de autocontrole, de suporte
à dor, como as tatuagens em locais delicados.
As mulheres igualmente se vestem com calças,
sapatos enormes de solas bem altas. Nem mais pintam os lábios
do antigo carmesim. E tudo se confunde para quem não consegue
ver além da superfície.
Na sua macheza, ensinada e aprendida, precisa controlar e dominar
a fêmea. Mas a jovem de hoje é incontrolável.
É mais homem. Relacionamentos quebrados. Surgem atritos,
enfrentamentos, confrontos e deslocamentos.
No jornal, os meninos de mãos na cabeça.
Estariam todos se alongando ao sol de verão? Ou eram as armas
de seus outros irmãos que estavam apontadas em sua direção?
Prisioneiros de celas fugindo por túneis.
Prisioneiros de guerra sofrendo torturas. Prisioneiros nas casas
de muros cada dia mais altos. Até onde subirão os
muros que nos protegerão? Há proteção
contra nós? Policiais em blitz, com armas na mãos.
Tanto perigo, tanta aflição.
Uma simples mudança de orientação.
Mais feminilidade em nossa canção, em nossa caminhada
compartilhada. Mais linhas arredondadas nos prédios, nas
casas, nas mentes e no coração. Valor à vida,
com responsabilidade e dignidade. Uma corda muito esticada se parte.
Uma corda frouxa não cumpre sua função. Não
a corda que enforca, nas penas de morte, que causam mais penas em
toda a nação.
Nos E.U.A, foi feita uma enquête em que
perguntavam se a vítima se satisfazia assistindo à
morte do agressor. Morte julgada e condenada por corte suprema.
Não adiantava. A dor continuava. “Queria ver de novo
e de novo ele (ela) morrer.” Só se morre uma vez.
Na estrada, a caminho do aeroporto, há
ainda alguns pássaros que migraram. Lagos refletem luzes
e galhos. Outono dourado nos arredores de Nova York. Quando nos
lembramos de 11 de setembro, por causa de um carro todo pintado
com a bandeira, ficamos em silêncio. Um silêncio triste
e pasmado, de uma dor profunda que trascende a vingança,
o ódio e o rancor. Silêncio que se compromete em um
gesto de dor a jamais responder à violência. Tarefa
difícil. É fácil gritar, é fácil
brigar, é fácil morrer e, até mesmo, matar.
Difícil e forte é quem age com acerto. Não
apenas reage, boneco manipulado. Força e coragem precisam
aquelas pessoas sinceras que fazem a opção de negar
tudo que contrarie o bem da verdade, da vida.
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Coluna
O RETIRO E A VERDADE
(Por: Monja Coen)
Acordávamos antes dos pássaros.
Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos em meditação.
No silêncio de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar
anunciando a manhã. Assim passávamos os dias. De meditação
em meditação, silêncio e orações.
Plena atenção aos gestos, passos, olhos baixos. Havia
dor. A dor do corpo não acostumado a tantas horas na mesma
posição e a dor da tristeza, da saudade, da incerteza,
da culpa.
Havia a dúvida. Havia o medo de perder
á razão. Como se perde a razão? Primeiro, seria
de bom senso encontrá-la. O que é a razão?
Eu tenho razão? Ele tem razão? Estaria ela com a razão?
Que arrazoado é esse?
Em um vitral da sala em que meditávamos,
estava escrito: "Não há religião superior
à verdade". Era o que nós tentávamos encontrar,
a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Será que nos
enganamos, nos iludimos e logo nos desiludimos? Será que
esquecemos a verdade em um baú trancado em um sótão
antigo, cujas escadas rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela
deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância,
a raiva, o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais
procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível
a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos
verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século
13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles
dizia que o universo é uma jóia arredondada e que
não há nada fora dele.
É impossível jogar qualquer coisa
fora, pois o fora não existe. Tudo está incluído
e se transformando a cada instante.
Esperando o momento de me levantar, com as pernas
doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de
meu propósito e de minha busca. Parece tão simples
e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos
se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento.
Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura.
Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores,
afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
Outro dia, alguém me disse que ciúme
e inveja são diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento
é egoísta, mas ama e protege. O invejoso quer destruir,
não quer que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa
para apagar o invejado da cena. Perigoso.
Perceba suas emoções, seus pensamentos,
sensações. Discernimento é uma palavra que
os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.
À noite, antes de ir dormir, antes do último
e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta
e dramática foi declamado: "Vida e morte são
de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade
se perde. Cada um de nós deve se esforçar para acordar,
para despertar. Não desperdice a sua vida".
Saíamos da sala em silêncio. Alguns
ouvindo tudo, outros, nada. Mas a verdade incessante não
deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e,
no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos. "Somos
a vida do Universo em constante transformação",
outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós
sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores
e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
Quem sou eu? Quem é você? Sou o nada,
sou o tudo, sou o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão.
Sou a borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão
da mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana,
sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as
luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O
retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo
que pôde apanhar ou o que soube largar.
(Homenagem
à Semana da Iluminação de Buda)
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Coluna
ENVELHECEMOS JUNTOS E
MORREMOS JUNTOS
(Por: Monja Coen)
Eu tinha 7 anos e estava com o meu avô.
Ele me ensinou a não mentir e a sorrir.
Vovô, seu Dê. Foi com ele que parei em um viaduto no
centro da cidade. Era fim de tarde e aviões da FAB jogavam
papéis prateados pelos 400 anos de São Paulo.
Nossa São Paulo já percorreu mais meio século.
E eu com ela. Meu avô não está mais aqui, mas
eu ainda estou lá com ele, apanhando os papéis ao
vento.
O tempo somos nós. Nós somos o tempo.
A Terra gira em torno do Sol e todos nós giramos junto. Envelhecemos
junto e morremos junto. Nascemos, renascemos e tornamos a morrer.
São Paulo envelhece e nós envelhecemos com ela.
Há muita gente indo embora. Muita gente
procurando Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, pois dizem que
São Paulo está violenta, suja, feia, maltratada. Dizem
que São Paulo está malvada, gelada, endurecida. Não
dá mais empregos nem moradias. Está superlotada,
estressada.
Só que ela não fica deitada, dormindo
e comendo. São Paulo fica acordada. Dia e noite, noite e
dia, como a vida, como nós. Minha neta vem dizendo que anda
com medo. Gosta tanto da vida, que tem medo de morrer. Se tudo
o que nasce morre, por que o medo? Em parte, por causa dos filmes
de horror que o irmão de sua amiguinha aluga. Somos o que
vemos, o que ouvimos, o que falamos e o que sentimos. Neta, veja
filmes que alimentam a verdade, a sabedoria e a ternura.
De filmes que alimentam o pensamento, morreu o
diretor de cinema Rogério Sganzerla, cuja mulher, Helena
Ignez, monja budista entre tantos outros papéis, acompanhou
a sua passagem. O personagem de ontem tornou-se real. Ficou calma,
tranqüila, rezando baixinho do livro que ele lhe dera há
30 anos. Budismo tibetano, o livro dos mortos, contando o que atravessamos
depois de morrer. Dizendo que tudo o que você pode encontrar
ali foi e está sendo criado por sua mente. Então,
não se ausente. Não se assuste nem fuja. Não
se apegue nem queira. Deixe que tudo passe como o sonho que somos,
indo para a luz mais forte, mais bela. Teria sorrido, Rogério,
que ria de suas próprias irreverências? Expirou e não
inspirou mais. Um mestre zen costumava ensinar que o segredo da
mente tranqüila é expirar lenta e suavemente e desaparecer
no vazio. Depois, inspirar lentamente e ir ressurgindo em cor e
em forma. Novamente expirar como se fosse a última vez. Sem
querer nada, sem precisar se mostrar, sem esperar nenhum troco,
retorno, agradecimento. Sem desejar o sucesso, a riqueza, o amor,
a sabedoria, o caminho, a nobreza. Como será expirar pela
última vez, sabendo que é a última vez? Diz
o mestre que nesse momento a mente está naturalmente tranqüila,
e que isso é o zen.
Você pode, eu posso, todos podemos, pois
todos sabemos respirar. Não há necessidade de drogas,
de formas secretas, palavras sagradas, textos imortais. Basta
saber respirar, suave e macio, no ritmo natural, sem forçar
nada, apenas observando o que acontece depois de expirar, sem nada
esperar.
Poesia é como manto de monge, feita da pureza, daquilo que
as pessoas jogam fora, pois acham que não serve para nada.
O poeta e o monge vão pegando esses retalhos e juntando de
forma que fiquem como um campo semeado. Por isso, São Paulo
tem tantas possibilidades. Há tanto lixo, tanta coisa jogada
fora. Coisas que servem, na sua pureza de não serem desejadas,
para que poetas e monges construam suas moradas.
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Coluna
CARNAVAL (E AS MORTES NO ZÔO)
(Por: Monja Coen)
A
fantasia nos faz. Deixamos de ser filhos, pais, amantes, irmãos
e sobrinhos. Por breves instantes, somos sem-teto, sem-terra. Somos
a escola de samba. Essa realidade nos comove e nos move em passos
cadenciados, peitos inflados, corações acelerados.
Homens e mulheres nus exibindo músculos
e cores. Habilidade de pernas e macios movimentos de cintura. Sempre
tão necessários os movimentos de cintura. Nesta vida,
em qualquer vida, no trabalho, em casa e nas bocas, quer na fantasia
quer na realidade fantasiosa de cada um de nós.
Outro dia, uma jovem me encontrou na rua e me
contou uma história de desencontros amorosos e familiares.
Fiquei pensando que as versões de seus familiares e de seu
amor talvez fossem diferentes da dela.
Assisti a "Cidade de Deus" antes de
dormir e, ao acordar, revi os personagens na tela da mente. Eles
também se fantasiaram de bandidos. Alguns deles se tornaram
suas fantasias, algumas escolhidas, outras forçadas pela
vida. Alguns eram a fantasia de outros.
Não apenas de roupas, de armas, de cruzes,
de enganos. Fantasias de sonhos, de quimeras, de esperas.
O que seria da vida sem a fantasia? Acabaria?
Será que tudo não é apenas uma fantasia? Fantasiados
estamos de gente.
No Carnaval, não deveria haver drogas,
bebidas ou brigas. Apenas alegria. Entretanto, a droga rola, e a
bebida enrola a língua e a carne. O corpo humano é
feito de veias, de sangue, de músculos, de órgãos.
Agregados de pedaços físicos e de pensamentos. Sentimentos,
emoções, percepções, consciência.
Causas e condições. Efeitos de sermos corpos e mentes.
Fantasias vivas, que se transformam a cada instante.
Buda ensinou isso há mais de 2.600 anos.
Ele havia trocado a fantasia de príncipe pela de monge. Trocou
as roupas de ouro pelas de algodão. Trocou o coração,
a mente, os gestos, os gostos. Não foi só a roupa
de fora que mudou.
No Carnaval, é permitido fingir ser o
que não se é, mas o que é que nós somos?
Sem se preocupar, há quem vista camisa listrada e saia por
aí. Outros vivem um Carnaval eterno. Já nem sabem
se fingem ou se são.
Há os que viram caçadores de feras
selvagens e matam os nossos animais, nas selvas ou no zoológico,
presos em jaulas fechadas, envenenados. Que fantasia é essa?
Quem os estará "libertando" para a vida eterna?
Oro pelos animais, leões, gorilas, elefantes
e todos os outros. Os que morreram sofreram as dores da intoxicação.
Os vivos estão apavorados com o cheiro da morte rondando
as jaulas fechadas, os espaços pequenos.
Eu não gosto de estar presa em um espaço
pequeno. Já não preciso correr, matar ou morrer. Fico
comendo e dormindo, sem objetivo. Que vida danada. Mas matar não
é a solução. Você gostaria de estar em
uma jaula, sendo olhado, apontado, virando um estranho objeto de
risos e gritos?
Quando eu era criança, fui ao zoológico
com o meu pai. Era tão lindo ver todos os animais. Só
os conhecia dos livros, dos desenhos, das telas de terras distantes.
Como era bom vê-los em movimento, sentir o seu cheiro, olhar
o seu olhar. Em cada jaula, eu parava e admirava.
Depois, contaram-me que eles estavam tristes,
aprisionados, que o melhor seria ter safáris abertos, com
áreas maiores para os animais. Poderíamos visitá-los
em carros blindados, todos cercados e bem protegidos - somos os
alimentos favoritos de muitas espécies.
A gente se esquece. Fantasia de bicho, fantasia
de gente. Queria fantasiar o mundo todo de paz, de respeito e de
ternura, até não poder mais. E, quando o Carnaval
terminasse e tudo ficasse quieto, silencioso, eu juntaria as mãos
e agradeceria.
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Coluna
EQUINÓCIO
(Por: Monja Coen)
O dia e a noite são iguais. Hoje, 21 de março, o dia
terá a mesma duração da noite. Equinócio.
Muitos povos festejam a data. Há quem acredite que este é
o primeiro dia do ano. Há quem diga que é em dias
como este que a "Terra pura", o "paraíso do
oeste" está mais próximo.
Farei uma prece especial, por volta do meio-dia,
rezando para que todos os espíritos alcancem a paz. Vivos
e mortos. Todos temos o mesmo direito e a mesma capacidade de alcançar
a grande tranqüilidade.
Por que alguns são bons, e outros, maus? Por que alguns procuram
a paz, e outros, a guerra? Por que alguns são bandidos, e
outros são mocinhos?
Na tarde em que houve o atentado em Madri, eu
não sabia de nada. Fui ao supermercado, e o meu amigo que
sempre me ajuda a levar as compras até o carro lamentou o
que acontecera na Espanha. O que seria?
Não quero ser eu, senhora, a lhe dar tão
má notícia.
Diga logo, por favor, o que foi que aconteceu?
Coisa feia. Terrorismo, morte, horror.
Que barbaridade! Que pena!
Dizem que as penas são dos penados e que
penar é danado de ruim. Ficar penando, sofrendo. Sofremos
todos.
Milhões marchando unidos contra a violência,
pela paz. Que lindo, não fossem as mortes, as dores, os horrores.
Precisamos nos unir, sim. Precisamos reacender
a chama da vida como prioridade. A vida vale mais do que dinheiro,
do que juros, do que emendas constitucionais. A vida vale mais do
que a fome que nos mostra as costelas magrinhas das crianças
desnutridas. A vida vale mais do que uma posição política,
religiosa ou filosófica. A vida vale mais. Proteja a vida.
A vida se protege com a própria vida, sem perder a vida.
As pessoas gostam muito de me perguntar se Jesus era um Buda, Quem
sabe? Não posso misturar as coisas. Dizem
que Jesus era o filho de Deus. Filho único. Buda é
um ser iluminado, é aquele que acordou, aquele que vê
a realidade como ela é e interfere, age, atua para o bem
de todos. É aquele que renuncia ao seu próprio bem-estar
para salvar os outros.
Mas não dê a sua vida. Não
se atire como bomba sobre pessoas e casas. Não é isso.
Não se mate. Não matem e não morram por causas.
Fiquem vivos.
Que absurdo matar. Seja lá por qual razão.
Planejar ataques com bombas em lugares públicos é
arte do malvado que nos quer ver brigados. Podemos ser todos amigos,
viver no mesmo local. Mas existem a ganância, a raiva e a
ignorância, três venenos terríveis, que nos deixam
abobados. Perdemos a "Terra pura", perdemos os nossos
amigos. O mundo todo se torna uma guerra de improviso.
Médicos e policiais resgatando vítimas.
Como estariam os seus corações? Gelados dedos de geladas
mãos. E a multidão em passeata pela paz. Eleições
na Espanha, difícil de acreditar.
Há outra palavra parecida com equinócio:
eqüidade. Eqüidade é diferente de igualdade. É
a disposição de reconhecer igualmente o direito de
cada um. É o respeito igual aos diferentes. Respeito aos
que pensam de maneira diferente.
Respeito aos que se vestem com roupas diferentes,
aos que falam idiomas diferentes, aos que mantêm costumes
diferentes. Respeito à diversidade da vida.
Que as nossas preces possam ser ouvidas! Que
a nossa meditação possa ser sentida! Que se encontrem
soluções pacíficas para os conflitos! Que haja
hoje, neste dia de equinócio, a eqüidade necessária
para levar para o outro lado - o lado da sabedoria toda a espécie
humana e tudo aquilo que nos mantêm vivos.
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Coluna
OITO
(Por: Monja Coen)
"Cair sete vezes, levantar-se oito." Teria sido do monge
Bodhidharma essa frase? Ele, aquele sisudo hindu, alto e forte,
antigo mestre de artes marciais indianas, barbudo, com uma argola
de ouro pendurada na orelha, foi considerado o fundador do zen.
Se bem que não é possível
dizer quem fundou o zen. É até meio tolo pensar que
alguém pudesse ter fundado o zen.
Ninguém funda meditação.
Zen é meditação. É um estado da mente
humana, da mente e do corpo, do coração e do espírito,
da respiração e dos não-pensamentos. Pensando,
pensando, sem pensar, sem pensar. Além de pensar e não
pensar. Além do corpo e da mente. Pés no chão.
Na terra, mãe que acolhe e repele, aconchega e fere.
Fui ao teatro. Uma peça de cinco horas.
Nunca havia visto uma peça de cinco horas antes. No Japão,
há peças que duram dias inteiros. Um teatro diferente.
A peça é "Os Sete Afluentes
do Rio Ota". Sete afluentes mais o rio Ota são oito.
A sala estava lotada e de pé, aplaudindo no final. Lindo.
No intervalo, encontrei a diretora, que me perguntou: "O que
está achando?". "Lindo", respondi. "Linda
é você". Diálogo zen. Tudo sempre depende
de nosso coração. Pode-se achar beleza até
na amargura. Podemos rir até do horror.
Fiquei pensando que talvez ela não houvesse
gostado de meu lindo comentário. O que esperar da monja zen?
Ou não esperava? Naquele momento, apenas a espectadora maravilhada
com a arte cênica, os atores, o conteúdo profundo e
sutil. Lindo. Pensei comigo que talvez fosse melhor procurar outra
palavra. Seria correto dizer "lindo" para uma peça
de arte educativa como aquela? Ri e chorei. Percebi a delicadeza
das artes tradicionais japonesas como o teatro noh e a dança
buto, o caminho da espada e a monja zen budista. Bombas atômicas
foram três. Claridade que desfigurou. Por que tanta luz? Vocês
querem mais luz? Reflexão sofrida sobre os erros da humanidade,
nossos ancestrais. Judeus e nazistas. Crianças e artistas.
Choveu e fez sol. Foi noite e dia. O tempo correu, o espelho escondeu
o passado no presente retratado. Sorri, gargalhei, silenciei, chorei.
Entendi e me emocionei. Escola antiga essa da arte dramática.
Mostra caminhos de retorno aos ninhos da verdade, inclusão,
amizade, liberdade.
É preciso não perder a esperança.
Pode demorar. Que importa o tempo? A esperança exige ação,
pensamento, palavra, criação. Não, nós
budistas não ficamos apenas sentados meditando. Na Ásia,
monges e monjas abrem creches e escolas, hospitais e centros de
atendimento. Trabalham com os pobres, os excluídos. Trabalham
com os ricos, os instruídos. Há todos os tipos de
monges, todos os tipos de ramificações que se possa
imaginar. Desde o mais recluso na montanha, passando por aqueles
que jamais tocam dinheiro, pelos que não tocam nada que alguém
tenha tocado, até os que vivem em templos de ouro, carros
importados. Quem é melhor? Quem é pior? Não
ter nada. Absolutamente nada. Buda ensinou o caminho de oito aspectos:
memória correta, pensamento correto, fala correta, meio de
vida correto, ponto de vista correto, atenção correta,
meditação correta, sabedoria correta. Buda dizia que
esse caminho é o nirvana.
Quase 200 países concordaram, desde o
ano 2000, a mostrar resultados em 15 anos sobre oito objetivos:
acabar com a fome e a miséria; dar educação
básica de qualidade para todos; promover a igualdade entre
os sexos e a valorização da mulher; reduzir a mortalidade
infantil; melhorar a saúde das gestantes; combater a Aids,
a malária e outras doenças; promover a qualidade de
vida e o respeito ao meio ambiente; e trabalhar pelo desenvolvimento.
O que temos feito? O que vamos fazer hoje? Qual
desses oito caminhos de Buda, qual desses oito rios vamos navegar?
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Coluna
CONTENTAMENTO
(Por: Monja Coen)
Há muitos e muitos anos, o rei de um país distante
andava triste. Um de seus conselheiros sugeriu que ele usasse a
camisa de uma pessoa feliz para se tornar feliz também. A
procura começou, mas parecia difícil encontrar alguém
capaz de estar sempre alegre e contente.
Finalmente, os emissários reais ouviram
falar de um homem simples, que morava do outro lado da montanha,
e foram encontrá-lo. Ficaram surpresos ao vê-lo, trabalhando
sem reclamar, sorrindo ao recebê-los. Conversaram, e ele concordou
em ver o rei.
Na sala do trono, o rei tristonho aguardava,
já sem esperanças. Talvez não existisse um
ser verdadeiramente feliz. Entrevistara tanta gente. Sempre havia
um pedido, uma reclamação, uma tristeza secreta embutida
em alguma prega da memória ou da ambição. Será
que não haveria na Terra uma criatura que sorrisse sem malícia,
que falasse sem nenhuma intenção?
Os arautos reais anunciaram a chegada da comitiva.
O rei se aprumou no trono, andava cabisbaixo. Os ministros estavam
cansados de convidar artistas e já tinham trocado mais de
15 "bobos da corte".
De bobos eram chamados os que deveriam fazer
a corte rir. Palhaços. Geralmente, pessoas muito sábias,
cuja intenção era alegrar e até mesmo aconselhar,
de maneira sutil e risonha, nas decisões finais. Conhecedores
dos corações e das mentes de seus senhores, sabiam
segredos íntimos. Entretanto, suas cabeças sempre
dependiam das risadas que tiravam dos soberanos. Os bobos daquela
corte não conseguiam do rei mais do que um sorriso.
O rei sentou-se e viu com surpresa o homem entrar.
Era grande, truculento e estava suado. Sorria ao reverenciar o monarca
ali assentado. "Aproxime- se! Você é uma pessoa
feliz?", perguntou o rei. O homem respondeu que sim. "Você
veio ao meu castelo, pode falar comigo. Há alguma coisa que
o incomode, alguma tristeza ou problema, alguma reivindicação,
alguma reclamação, algum ódio do passado, algum
rancor guardado?", continuou o monarca. O homem disse: "Não,
majestade! Respiro a cada instante e isso me basta. É verdade".
"Você não gostaria de comer
coisas raras e deliciosas, banhar-se em leite, ser acariciado pelas
mulheres mais belas do reino? Não gostaria de possuir terras,
casas, gado, plantações? Não seria bom ter
poder de controlar e de matar? Algo falta, com certeza, diga o que
é", insistiu o soberano.
O homem mais uma vez disse que nada lhe faltava.
Seu olhar era límpido e sereno, parecia verdadeiro. Finalmente,
haviam encontrado um homem feliz.
Conta essa história antiga, do tempo de
minha infância, que o rei pediu ao homem que entregasse sua
camisa. Porém, ele não possuía uma.
Há quem pense que alegria, felicidade
e contentamento dependem de roupas, objetos, lugares, conhecimentos.
Alguns acreditam que podem encontrá-los nos cargos, no status.
Outros depositam suas esperanças de felicidade em amores,
relacionamentos.
Entretanto, a capacidade de ficar satisfeito
é interna e profunda. É estar contente pela existência
em si. Tudo o que pode acontecer faz parte de nossa vida. Nada temos
a excluir, nada temos a desejar.
Buda, em seu último sermão, pouco
antes de morrer, disse a seus discípulos que quem conhece
a satisfação penetra a grande sabedoria suprema.
Estar contente e satisfeito não é
apenas ficar rindo à toa. É uma sensação
profunda que vem do encontro com si mesmo. Sofrimentos e alegrias,
dores e prazeres, falta e abundância, reconhecimento e injustiças,
tudo isso existe em dualidade.
Ao encontrar a unidade, o sábio sente
piedade por quem ainda se encontra fragmentado e partido, triste
e desenxabido.
Revista
da Hora
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Coluna
O RETIRO E A VERDADE
(Por: Monja Coen)
Acordávamos antes dos pássaros. Os insetos chilreavam
enquanto nos sentávamos em meditação. No silêncio
de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã.
Assim passávamos os dias. De meditação em meditação,
silêncio e orações. Plena atenção
aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não
acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor
da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.
Havia a dúvida. Havia o medo de perder
a razão. Como se perde a razão? Primeiro, seria de
bom senso encontrá-la. O que é a razão? Eu
tenho razão? Ele tem razão? Estaria ela com a razão?
Que arrazoado é esse?
Em um vitral da sala em que meditávamos,
estava escrito: "Não há religião superior
à verdade". Era o que nós tentávamos encontrar,
a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Será que nos
enganamos, nos iludimos e logo nos desiludimos? Será que
esquecemos a verdade em um baú trancado em um sótão
antigo, cujas escadas rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela
deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância,
a raiva, o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais
procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível
a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos
verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século
13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles
dizia que o universo é uma jóia arredondada e que
não há nada fora dele.
É impossível jogar qualquer coisa
fora, pois o fora não existe. Tudo está incluído
e se transformando a cada instante.
Esperando o momento de me levantar, com as pernas
doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de
meu propósito e de minha busca. Parece tão simples
e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos
se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento.
Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura.
Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores,
afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
Outro dia, alguém me disse que ciúme
e inveja são diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento
é egoísta, mas ama e protege. O invejoso quer destruir,
não quer que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa
para apagar o invejado da cena. Perigoso.
Perceba suas emoções, seus pensamentos,
sensações. Discernimento é uma palavra que
os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.
À noite, antes de ir dormir, antes do
último e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar,
com voz lenta e dramática foi declamado: "Vida e morte
são de suprema importância. O tempo rapidamente se
esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar
para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida".
Saíamos da sala em silêncio. Alguns
ouvindo tudo, outros, nada. Mas a verdade incessante não
deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e,
no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos. "Somos
a vida do Universo em constante transformação",
outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós
sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores
e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
Quem sou eu? Quem é você? Sou o
nada, sou o tudo, sou o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão.
Sou a borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão
da mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana,
sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as
luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O
retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo
que pôde apanhar ou o que soube largar. (Homenagem à
Semana da Iluminação de Buda)
Fonte:
Revista da Hora, 14 de dezembro de 2003
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Coluna
ANO NOVO
(Por: Monja Coen)
Ela era a irmã do ano e jamais envelhecia. Parada no tempo
e no espaço, a tudo assistia. Revestida de estrelas, as camadas
mais profundas do universo percorria. Em cometas viajava, em estrelas
se esquentava, nos buracos negros se banhava e dormia na Via Láctea.
Ela não tinha nome. Fazia e refazia a vida. Era a irmã
do ano, que era sempre o mesmo, embora as pessoas na Terra dissessem
que novo e velho havia. Para ela, ele era o eterno presente. O que
você ganhou de presente? Eu ganhei a vida. Renascida, revivida
em cada inspiração.
Não medito para me acalmar ou para ficar
mais tranquila. Zazen é sentar em zen. Zazen é encontrar
Deus face a face e se perder nessa face. É a salvação
e a glória. É a libertação e a paz.
Requer esforço, paciência. Requer confiança
e coragem. Requer entrega, doação. Requer morrer para
o velho modo de ser. Requer renascer na iluminação.
Em uma certa tarde, eu a encontrei. Espreguiçava
suas asas em nuvens brancas e suaves. Abria o seu olho sol e o seu
olho lua. Sorria nos raios de sol e no brilho das folhas verdes.
Bela e poderosa, caminhava solene e, ao mesmo tempo, airosa.
Parei por um momento no portão de uma
casa. Uma senhora idosa se lamentava. Saudades do companheiro, amado
marido morto, que deixara um vazio imenso. Ele foi bom e sábio.
A vida daquele homem fizera a vida de sua mulher ter sentido. Havia
função estabelecida, havia identidade, hábitos
antigos de mais de 60 anos juntos. A senhora chorava. Meu coração
se compadeceu. Como salvá-la da dor em todo o seu corpo,
das pernas inchadas, do cansaço sem fim, da vontade de nada?
Como ajudá-la a se libertar da tristeza profunda que, como
fogo, queimava de lágrimas o seu peito magro e o seu rosto?
Lembrei-me de Buda, que, por causa de alguém
como ela, de alguém assim, que idoso e sofria, deixou suas
roupas de luxo, suas comidas especiais e sua família e saiu
à procura da verdadeira paz.
Continuei pensando nela. Na sua dor, no seu amor. Se a mente entendia
as razões da vida, o coração tremia pela falta
do olhar, do gesto, da voz, do corpo e da energia.
Sofrimento existe. Por toda a parte. Como aliviar,
salvar, redimir? Seria apenas um carma sofrer assim? Se aí
nos detivermos, estaremos fechando todas as portas da transformação.
E as coisas não param.
Tudo ligado, causas, efeitos e condição.
Mas há o nirvana, estado tranquilo de grande paz sábia
e perfeita. A cada instante uma nova vida se manifesta. Mas ela
dizia que só o que sentia era dor. No corpo, na alma. Na
dor arraigada, nenhuma palavra vinda de outras pessoas servia.
Deitava e chorava, já não mais
sorria. O ano passou. Outro ano chegou. Será diferente? Continuará
igual? Tudo dependerá de quem compreender a verdade suprema.
Minha prece ofereço a todos os que sofrem.
Que a minha vida sirva para criar condições apropriadas
para tudo se transformar. Que as pessoas percebam que juntos podemos
ajudar uns aos outros.
O Ano Novo se vestiu de fraldas brancas. Seria
Gandhi, o Mahatma, renascendo pela paz? A irmã o viu saindo
daquele lugar de onde ninguém entra e ninguém sai.
Sorriu. A Terra sentiu um frio arrepio de um lado. De outro, um
calor de suar. O ano girava, crescia, mutava e, com ele, toda a
vida em todo lugar.
Assim vamos nós, girando ao redor do Sol,
girando ao redor do nosso próprio eixo, numa elipse, acendendo
a chama de nunca mais fazer nenhum mal.
Que o bem prevaleça na Terra! Feliz Ano
Novo!
Fonte:
Revista da Hora, 28 de dezembro de 2003
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