Monja Coen

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Coluna
AS RELÍQUIAS DE BUDA

(Por: Monja Coen)


F
oi há mais de 2.600 anos. O idoso monge deitou-se cansado. Sentia dores e mal-estar. Há três meses, vinha preparando todos para sua despedida final. Parecia ser esta a noite. Deitou-se usando o braço direito como suporte para sua cabeça raspada. Estava entre quatro grandes árvores de copas largas, na Índia.

   Seus alunos foram se reunindo à sua volta. Passantes pararam. Animais se aproximaram. Era mesmo o santo Buda que ali se deitara e fazia um sermão aos que choravam: "Tudo o que principia tem um fim. Sejam vocês uma luz. Façam dos ensinamentos seus mestres. Assim eu viverei para sempre". Depois, pediu silêncio e não se ouviu mais sua voz. Era Sidharta Gautama, o Buda Xaquiamuni.

   Seu corpo foi perfumado, preparado adequadamente e queimado sobre uma pira de madeira incensada. Os restos foram guardados em urnas especiais, inicialmente colocados em oito locais. Essas urnas foram sendo subdivididas e, hoje, ninguém sabe em quantos locais existem pequenos fragmentos de seu corpo. Aproximar-se de um pedacinho de osso de Buda traz méritos infinitos e faz com que o bem e a verdade se manifestem. Buda é o desperto, o sábio, que faz o bem a todos os seres.

   Dia 19 de junho, será feita uma grande cerimônia para as relíquias de Buda, que, pela primeira vez, chegam ao Brasil. Elas vêm de três países da Ásia. Essas relíquias viajam o mundo há três anos, desde que a Organização das Nações Unidas reconheceu o festival de Vesak. Sua caminhada é de alegria e de paz. Comemora o grande sábio da Índia, que pregava compaixão e sabedoria.

   É de bom auspício vê-las chegar a São Paulo. Estarão no Sesc Pompéia, de 19 a 22 de junho, emitindo bondade e compreensão. Todos poderão visitá-las. Haverá uma grande recepção e preces de louvor. Preces pedindo um favor. Haverá preces de amor e preces por destemor. Preces de quem confia na possibilidade de transformar o mundo através da simples verdade. Preces pelo bem-estar do país, das multidões, sem discriminações. Preces contra a violência das gentes e da natureza. Preces por uma cultura de paz, inclusão e ternura. Preces pelo cuidado de cuidar, sem desviar verbas. Preces para alcançar a fome zero no mundo. Preces para acalmar os corações taciturnos, guerreiros e predadores. Preces para amansar os furiosos destruidores de vidas, de lares, de esperança. Preces para transformar mentes fechadas, corruptas, amargas, vingadoras e egocentristas em mentes amplas, corretas, doces, cheias de compreensão e prontas a se doar pelo bem da criação.

   Criação que é inventada a cada momento por gestos, sorrisos, palavras de amigos e pensamentos de irmãos. Unidos na crença que não separa. Na crença que integra os seres e a natureza no respeito à vida em todas as suas formas. Crença de que é possível mudar. Mudando sem cessar e sem desistir da esperança. Esperança, não de esperar, mas de "esperançar".

   Vamos juntos unir nossas vozes em preces profundas como pede o papa em Roma. Vamos juntos unir nossas vidas em meditações isentas de intenções pessoais como pede um Buda em qualquer lugar. Que a Terra seja amada e respeitada. Que os seres vivam a bondade. Que sejamos sabedoria e compaixão.

   Que possamos emitir raios luminosos de ternura, de respeito, de inclusão, de direito, de deveres, de integridade, de vida com qualidade, de equidade e de paz.

Seja bem-vindo Xaquiamuni Buda.

   Suas relíquias são as montanhas, as terras, o céu, as águas e o ar. Suas relíquias estão em toda a parte e em meu coração.


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Coluna
APENAS UM CÍRCULO

   Nossa vida é um círculo. Cada uma de nossas vidas é apenas um de muitos círculos...
Nossa prática é realizar que todos os muitos círculos são um círculo.

   Recentemente uma pessoa que começou a praticar Zen me perguntou: "Eu não conseguia encontrar solução para alguns de meus problemas fundamentais, então comecei a estudar Psicologia. Agora que eu comecei a praticar Zen eu me questiono se serei capaz de encontrar soluções. Talvez não haja soluções".

   Eu positivamente digo que há uma solução e que você pode encontrá-la. O Buda histórico e muitos outros encontraram tal solução. Mesmo no presente há muitas pessoas que já encontraram ou que irão encontrá-la. Então o que é isto? O que verdadeiramente nos dá satisfação? Um de meus professores Yasutani Roshi costumava dizer quando seu professor Harada, que foi um grande mestre Zen e um preciso estudioso, falava sobre Budismo para qualquer grupo, ele primeiro desenhava um grande círculo e dizia: "Isto é Zen". Apenas um círculo.

   Talvez cada um de nós tenha alguma definição do que é um círculo, dependendo se somos cientistas, psicólogos, filósofos, artistas. Podemos dizer muitas coisas sobre o círculo. Se interpretarmos abstratamente como perfeição, compleição, não surgido, não extinto, este círculo contém todas as coisas. Nossas vidas, elas são um círculo. Nossa vida é um círculo. Cada uma de nossas vidas é apenas um de muitos círculos, cada círculo sendo perfeito, absoluto. Embora esses círculos se mesclem, talvez nem mesmo dois círculos possam coincidir exatamente. O círculo de nossa vida é um maravilhoso mandala, que inclui todos os círculos, todos os mandalas. Nossa prática é de apreciar verdadeiramente este único círculo.

Da Revista The Ten Directions - ZCLA Vol I nº 2 Maio 1980.

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Coluna
ODE A KIGEN OSHO

(Por: Monja Coen)

   Ele era um floricultor feliz. Tivera seus filhos e uma companheira amiga e vivia cultivando a terra e as flores belas. Bebia em algumas noites, com os amigos, levantando o copo de cerveja ou o de saquê entre os dedos grossos e fortes, manchados pela terra, e cortados pelo frio.

   Nas cerimônias anuais das danças de roda, subia as escadas montadas, especialmente, para os tambores enormes. Lá, ele tocava, revezava-se com amigos antigos. Tocava um som sereno e possante. As mulheres dançavam, e as crianças, os idosos e muitos dos homens também se alegravam entrando na roda.

   Dizia-se, então, que os ancestrais, todos, sem exceção, vinham verificar como estavam seus descendentes vivos. Era preciso dançar com alegria e mostrar que se mantinha a tradição do Japão, mesmo em terras do interior do Brasil. Tudo isso era feito no terreno compartilhado pelo templo budista e pela Associação Cultural do Japão.

   Ele parecia feliz. Alto, encorpado, sempre disposto a ajudar nos arranjos e na preparação. No final da festança, também ajudava a por tudo de lado. Foi a ele que caiu a incumbência de se tornar o monge do templo. Foi solicitado e disse não. Afinal, era floricultor. Se seu pai fora monge no Japão, isso fazia muito, muito tempo. Não. Mas o irmão mais velho havia sido o fundador do templo na cidadezinha. As imagens todas, os altares, tudo era feito no Brasil. Um templo bonito, limpo, em um terreno amplo, mas o monge fundador, irmão dele, havia voltado ao Japão. O templo não tinha monge responsável. Fazia falta um monge local. Insistiram. Ele coçou a cabeça e acabou aceitando. Já estava com mais de 60 anos, e o trabalho no campo começava a pesar.

   Mudou-se para a casinha nos fundos do templo. Senhor e senhora. Ela iniciou seus estudos com as outras senhoras dos cantos sagrados. Cozinhava, varria, limpava, cozia e sorria. Era feliz. Ele aprendia a rezar, a usar roupas antigas e sua memória voava para os tempos de infância.

   Ainda era difícil ficar à vontade, sentado na frente de todos os amigos e conhecidos, lendo rezas, encomendando espíritos. Vinha pedir auxílio, orientação, em São Paulo. Era um homem bom e simples, que estava sempre pronto a ajudar. Fumava disfarçadamente. Trabalhava eficientemente.

   Do Japão vieram seus parentes ricos e importantes, representantes de templos grandes. O fizeram monge em frente a todos da cidade. Vestiu definitivamente os hábitos negros. Não sei quanto tempo se passou e ele teve um derrame. Ficou paralítico. Pensaram que iria morrer. A mulher se desdobrou em cuidados. Ele era pesado, mas ela dava conta. Banhava, vestia, alimentava e rezava. Ele foi melhorando, ela foi definhando, definhando e morreu.

   Ficou sozinho o monge, em uma cadeira de rodas. Um dos filhos veio cuidar do pai. Ele já não ria, já não mexia nas rosas. Seus dedos ficaram limpos de terra e não levantavam copos. Nas cerimônias solenes, se sentava encolhido e magro. Chorava feito menino, triste de seu destino.

   Morreu em 21 de julho, sozinho em seu quarto. Adormeceu e se foi, no silêncio da madrugada. Que o venham receber todos os anjos e fadas. Que o venham acolher os budas. Eu o conheci bem e, no seu olhar, notei a pureza, a honra e a bondade. Ascende Kigen Osho, monge de hábito negro. Sobe para a luz mais clara e mais radiante, para o céu que adorava contemplar. Reencontra sua amada, seus pais e todos aqueles companheiros que, antes de você, se foram, alguns dos quais você encaminhou ao orar. Ascende para a luz mais clara e encontra os budas iluminando para sempre e sempre a sua estrada. Mãos em prece. Namu Xaquiamuni Buda.

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Coluna
"INTERSER"

(Por: Monja Coen)

   Certo dia, fui ao grande mosteiro da Paz Eterna, em Fukui, no Japão. O mosteiro tem cerca de 70 edificações, é um dos mosteiros sede da tradição soto-zen budista e pode abrigar mais de 500 monges. Eu fui para uma visita formal e me colocaram em um grande aposento. Lembrei-me da primeira vez em que subi essa montanha, há muitos anos, cheia de expectativas, sonhos e alegria para participar de um retiro especial.

    Eu fazia parte de um grupo de monjas do mosteiro feminino, onde morava há mais de dois anos. Tinham nos colocado nesse mesmo aposento. Éramos seis monjas esperando pacientemente para que nos conduzissem ao refeitório e às salas de estudos, meditação e preces. Em um mosteiro sede, tudo é muito certinho. Ainda mais sendo um mosteiro masculino, no qual nós, monjas, só éramos admitidas em raras ocasiões. Minhas companheiras, todas japonesas, sentaram-se alegremente para bebericar chá e conversar. Algumas costuravam uns paninhos. Não acreditei.

    Há anos sonhava chegar a esse mosteiro. Há anos queria conhecer de perto o templo do mestre que tanto me inspiraria me tornar monja zen budista. Elas não pareciam interessadas em sair de lá. Não agüentei. Sem dizer nada, como quem vai ao banheiro, saí sozinha e comecei a percorrer os longos corredores, as imensas escadarias de madeira. Jovens monges ensaiavam cerimônias, correndo, andando, entoando sutras em voz alta. Outros faziam faxina. A cozinha era enorme, e eles estavam de avental branco e com toalhas brancas na cabeça. Nenhum leigo, apenas monges:

   Quando cheguei ao salão memorial do fundador, meu coração bateu mais forte. Queria entrar, fazer reverências, oferecer incenso. Nisso, fui interpelada por uma jovem, com microfone na mão. Era de uma rádio local e queria saber minhas impressões sobre o mosteiro. Surpreendeu-me. Respondi a algumas de suas questões até que ela me perguntou qual era a essência do budismo. Naquele momento, um sino badalou e ecoou por todo o mosteiro. Sem pensar duas vezes, disse: "O som do sino".

   Zen não é nada especial. Budismo é estar desperto e completo no instante em que estamos. Passando por essas memórias, entrei no aposento, conduzida por um noviço de cerca de 20 anos, que me pediu para aguardar até que viessem me chamar para os cumprimentos formais. Assim o fiz. Anos haviam se passado e, entre outras coisas, eu também aprendera a esperar.

   Era o entardecer. Tudo estava silencioso, a não ser por alguns pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso de sândalo que trouxera, fiz um pouco de chá e, enquanto o bebia lentamente, me pus a olhar para a palha de arroz que forrava o chão de todo o aposento. De repente, percebi o chão vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava as longas hastes douradas. Foi_ tudo muito rápido, mas muito vívido. Pouco depois, o chão voltou a ser a palha de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso, mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles tatames suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande reverência pelos campos de arroz.

   A interdependência; ensinada nos textos sagrados, está em toda parte. O arroz só é possível se houver água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à sua volta; senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo, varais de roupas coloridas, minhocas e até nossos pensamentos e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz é feito de coisas "não-arroz". Cada um de nós existe graças a todos os "não-nós".
Palha de arroz. Tatame. Vislumbre breve do milagre de "interser".

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Coluna
DECISÃO TOMADA

(Por: Monja Coen)

   A decisão é sua. Temos de decidir sobre o emprego, a festa, o casamento, os filhos, o almoço e o jantar. Temos de decidir o castigo, a pena, a punição e a absolvição. Reflita se é uma decisão boa para você e para o mundo. A decisão é sua.

   "Filho causa problema", explica a mãe, chorando. "Faz bobagem, e é a mãe quem sofre." Tem filho que corta gente. Tem filho que faz gente antes da hora.

   A decisão é sua. Começa com a escolha do nome, que pode ter tantos sentidos. Cuidado! Não se aperreie. Isso é comum entre as pessoas. Há como sair da confusão? Qual o caminho certo? Primeiro, respire. Solte todo o ar dos pulmões, esvazie o peito e o coração. Deixe o ar entrar. Há um ritmo natural. Perceba o seu próprio ritmo.

   Tendo aquietado o corpo e a mente, sentado ou de pé, sinta a vida pulsar em cada artéria, em cada veia. Nas teias da memória, procure o princípio do princípio, lá se encontra o vazio. E essa vastidão é repleta de vida, palpitação, pensamentos, silêncios, amores, desafetos, carinhos, repulsão, tristezas, aflições, ansiedades e certezas.

   O maior presente é não ter medo. Se nada pertence ao ser, se somos um punhado de ossos, carnes, nervos, tendões, sangue, pleura, corações, sentidos, percepções, memórias, construções mentais, consciência e tudo o mais, somos a ligação disso tudo. Um organismo é feito de partes. Se uma parte falhar, todo o resto sofre.

   Como saber o certo? Um dia, foram indagar exatamente isso a Xaquiamuni Buda. Cobrindo ambos os ombros com seu mato, ele disse: "Levar o maior número de pessoas ao verdadeiro (a verdade que está dentro de cada um de nós) é o bem".

   Somos a verdade do universo, alguém pode duvidar? Buda também recomendava a prática das seis perfeições. Quem as pratica atravessa do lado da dor, da tristeza, do desconforto e dos medos para a margem da sabedoria.

   A primeira é a doação. Doar não apenas as sobras, o que não se quer mais. Doar coisas materiais, como alimentos, mas também educação, capacitação e saúde. Doar os ensinamentos que nos levam à verdade, doar o não medo de saber que estamos a todo o tempo nas mãos do maior bem-querer.

   A segunda é manter os preceitos. Não matar, não roubar, não mentir, não negociar tóxicos, não abusar da sexualidade, não se elevar e rebaixar os outros, não falar dos erros alheios, não ser movido pela ganância, não ser movido pela raiva, não falar mal dos seres iluminados ou de suas comunidades.

   A terceira perfeição é a paciência. Paciência de fazer, ser, pensar, planejar, esperar o momento e recomeçar tantas vezes quantas sejam necessárias. Sem pressa, com precisão. Pacientemente amando, cuidando, compartilhando a vida de todos nós.

   A quarta é a assiduidade, o esforço contínuo. Não deixe a peteca cair. Quem quer fazer fogo com pedras esfrega sem parar até a faísca surgir. É a constância da macia e pequena gota de água que faz a rocha se abrir.

   A quinta perfeição é a meditação. Com o coração tranqüilo e a respiração adequada, perceba tudo o que somos nessa estrada.

   A sexta e última perfeição é obter a sabedoria suprema. Ela permite perceber a verdade em tudo, em todos e em qualquer lugar, sem que reste uma situação de enganação ou falsidade.
Aqueles que são capazes de viver dessa maneira, encontram na vida a bondade e a justiça. Abrindo portais para infinitos outros seres. Para que todos possam se beneficiar.

Revista da hora, 5 de outubro de 2003.

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Coluna
"CACHORRINHOS"

(Por: Monja Coen)

   Certo dia, um monge noviço entrou na sala do mestre Abade. Fez as reverências de praxe, dobrando joelhos e encostando a cabeça no chão por três vezes. Ofereceu incenso suave. Ajoelhou-se e, com as mãos unidas, palma com palma, dirigiu-se a seu superior:

- Venerável mestre, o cão possui a natureza Buda?
- Mu!, respondeu o Abade, que nada mais disse.

   Isso aconteceu no século 8, na China. Desde então, tem sido usado por mestras e mestres zen para levar seus alunos a penetrar o portal dos sábios iluminados. É um portal sem portas. Não há cercas, não há grades, não há soldados armados, não há terroristas ou bombas. Não há passaportes, documentos, livros, paramentos ou passe especial que permita a entrada. Só entram os que conseguem transpor essa barreira sem forma, sem eira nem beira. E é um cãozinho que abre esse portal sagrado?

   Alguns levam anos para entrar nesse recinto de sábios. Outros, em pouco tempo, percebem, com toda a clareza, muito além de ter e não ter. Natureza Buda quer dizer natureza iluminada. O cachorro tem o sagrado? Seria a pergunta de outra forma formulada. O mestre, sábio e bondoso, vendo o noviço confuso, solta uma só silaba e com ela enche o mundo: "Mu!"

   Mu não é um mugido, é um rugido de leão. Rei dos animais da selva, ele cala todos os outros. Naquele silêncio que impera, sem concordar ou discordar, a natureza iluminada reluz sem parar.

Houve outra ocasião em que esse mesmo mestre famoso, de nome Joshu, respondeu a outro noviço nervoso: "Yu!"

   Se mu é uma negativa, yu é a afirmação. Estaria louco o mestre, teria perdido a razão? Não é ter nem possuir. O sagrado, a natureza iluminada, não se tem ou deixa de ter. É em tudo o que existe, sem diferenciação. É na vida e é na morte. É no ser, em todo ele, sem se esconder, sem escolher, sem diferenciar. Não fica só em um cantinho, em um coração ou ninho. Não é privilégio dos ricos nem dos pobres, dos gays ou dos travestis, das crianças ou dos idosos, dos religiosos ou dos ateus, dos seres humanos ou dos planetas, estrelas, galáxias, cometas. O velho monge sábio, sem muitas explicações, leva à compreensão suprema, gritando alto e em bom som: "Mu!".

   Há algumas semanas, uma cadela enorme que eu conheço, daquelas que parecem bezerros, de raça do gue alemão, cruzou com um cão japonês da raça aláta, de porte médio, que há anos com ela convivia e que, por mais que tentasse, não conseguia montar na bezerrona. Pois, um dia, eis o milagre. Ela ficou prenha. Nasceram à noite. Embrulhadinhos, um a um, saíam já se mexendo. Depois de três bem paridos, um congelado, morto, duro, parado. De nada adiantaram as preces e as massagens. Pobre criaturinha. E nós, seres humanos, que esperamos por muitos meses, um só filhinho? Como deve ser doloroso um natimorto, pensei. Mal sabia que, em alguns dias, teria de fazer o enterro de um bebê morto antes de nascer.

   Outros nasceram vivos, mas a mãe desajeitada me recebeu de manhã assustada. Um pequeno se via no canto de boquinha escancarada. No dia seguinte, mais um que ela sem querer havia esmagado. Quatro sobreviveram, cresceram, cada um com o seu jeito. A gordinha comilona, a dengosa derretida, o machinho saltador, a alegre levadinha. Será que o cão possui a natureza Buda?
Em minha sala entra um jovem praticante, que há semanas vem pensando e meditando sobre mu, Buda, cão, e diz:

- Entendi o mu agora. É tudo. Está em todos e em todo o lugar.
- Isso é uma parte, respondi.

   Ainda falta completar. Não se entende só com a mente. Seja mu ao respirar.

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Coluna
"EM DEFESA DAS DIFERENÇAS"

(Por: Monja Coen)

   Luz e sombra. Noite e dia. Positivo e negativo. Feminino e masculino. Como delinear a diferença? O que separa é o que une.

   O Sol é a deusa da luz. A Lua é o lua refletindo a luz dela, tão bela, que dá vida à sua vida. Separamos, diferenciamos, discriminamos e criamos situações em que não sabemos como agir. Ela é mulher, mas provoca, inflama a ira, atreve-se a querer ser como os homens. Quem deu o padrão? Ele é o macho sem sensibilidade, que não houve nada, só esmurra e grita. Será que é assim? Será que somos assim de verdade? Veja lá dentro como tudo se funde no homem que chora e na mulher que combate.
Homens maquiados, roupas de grife, cabelos pintados, gestos delicados, suaves, mãos bem tratadas. Bigodes, barbas, anéis e correntes já não são seus enfeites. Também usam brincos. Alguns delicados, brilhantes ou dourados. Outros, como os nativos índios amados, colocam madeira para abrir buracos nos lobos da orelha de um lado ou dos dois.

   Os piercings nas bocas, nas sombrancelhas, nas mamas, pelo corpo espalhados. Sinais de autocontrole, de suporte à dor, como as tatuagens em locais delicados.

   As mulheres igualmente se vestem com calças, sapatos enormes de solas bem altas. Nem mais pintam os lábios do antigo carmesim. E tudo se confunde para quem não consegue ver além da superfície.
Na sua macheza, ensinada e aprendida, precisa controlar e dominar a fêmea. Mas a jovem de hoje é incontrolável. É mais homem. Relacionamentos quebrados. Surgem atritos, enfrentamentos, confrontos e deslocamentos.

   No jornal, os meninos de mãos na cabeça. Estariam todos se alongando ao sol de verão? Ou eram as armas de seus outros irmãos que estavam apontadas em sua direção?

   Prisioneiros de celas fugindo por túneis. Prisioneiros de guerra sofrendo torturas. Prisioneiros nas casas de muros cada dia mais altos. Até onde subirão os muros que nos protegerão? Há proteção contra nós? Policiais em blitz, com armas na mãos. Tanto perigo, tanta aflição.

   Uma simples mudança de orientação. Mais feminilidade em nossa canção, em nossa caminhada compartilhada. Mais linhas arredondadas nos prédios, nas casas, nas mentes e no coração. Valor à vida, com responsabilidade e dignidade. Uma corda muito esticada se parte. Uma corda frouxa não cumpre sua função. Não a corda que enforca, nas penas de morte, que causam mais penas em toda a nação.

   Nos E.U.A, foi feita uma enquête em que perguntavam se a vítima se satisfazia assistindo à morte do agressor. Morte julgada e condenada por corte suprema. Não adiantava. A dor continuava. “Queria ver de novo e de novo ele (ela) morrer.” Só se morre uma vez.

   Na estrada, a caminho do aeroporto, há ainda alguns pássaros que migraram. Lagos refletem luzes e galhos. Outono dourado nos arredores de Nova York. Quando nos lembramos de 11 de setembro, por causa de um carro todo pintado com a bandeira, ficamos em silêncio. Um silêncio triste e pasmado, de uma dor profunda que trascende a vingança, o ódio e o rancor. Silêncio que se compromete em um gesto de dor a jamais responder à violência. Tarefa difícil. É fácil gritar, é fácil brigar, é fácil morrer e, até mesmo, matar. Difícil e forte é quem age com acerto. Não apenas reage, boneco manipulado. Força e coragem precisam aquelas pessoas sinceras que fazem a opção de negar tudo que contrarie o bem da verdade, da vida.

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Coluna
O RETIRO E A VERDADE

(Por: Monja Coen)


   Acordávamos antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos os dias. De meditação em meditação, silêncio e orações. Plena atenção aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.
   Havia a dúvida. Havia o medo de perder á razão. Como se perde a razão? Primeiro, seria de bom senso encontrá-la. O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem razão? Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?
   Em um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: "Não há religião superior à verdade". Era o que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e logo nos desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um baú trancado em um sótão antigo, cujas escadas rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva, o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século 13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles dizia que o universo é uma jóia arredondada e que não há nada fora dele.
   É impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora não existe. Tudo está incluído e se transformando a cada instante.
   Esperando o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece tão simples e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
   Outro dia, alguém me disse que ciúme e inveja são diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta, mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para apagar o invejado da cena. Perigoso.
   Perceba suas emoções, seus pensamentos, sensações. Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.
   À noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática foi declamado: "Vida e morte são de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida".
   Saíamos da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros, nada. Mas a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos. "Somos a vida do Universo em constante transformação", outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
   Quem sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana, sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo que pôde apanhar ou o que soube largar.

(Homenagem à Semana da Iluminação de Buda)

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Coluna
ENVELHECEMOS JUNTOS E
MORREMOS JUNTOS

(Por: Monja Coen)


   Eu tinha 7 anos e estava com o meu avô.
   Ele me ensinou a não mentir e a sorrir. Vovô, seu Dê. Foi com ele que parei em um viaduto no centro da cidade. Era fim de tarde e aviões da FAB jogavam papéis prateados pelos 400 anos de São Paulo.
Nossa São Paulo já percorreu mais meio século. E eu com ela. Meu avô não está mais aqui, mas eu ainda estou lá com ele, apanhando os papéis ao vento.
   O tempo somos nós. Nós somos o tempo. A Terra gira em torno do Sol e todos nós giramos junto. Envelhecemos junto e morre­mos junto. Nascemos, renascemos e tornamos a morrer. São Paulo envelhece e nós envelhecemos com ela.
   Há muita gente indo embora. Muita gente procurando Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, pois dizem que São Paulo está violenta, suja, feia, maltratada. Dizem que São Paulo está malvada, gelada, endurecida. Não dá mais empregos nem moradias. Está super­lotada, estressada.
   Só que ela não fica deitada, dormindo e comendo. São Paulo fica acordada. Dia e noite, noite e dia, como a vida, como nós. Minha neta vem dizendo que anda com me­do. Gosta tanto da vida, que tem medo de morrer. Se tudo o que nasce morre, por que o medo? Em parte, por causa dos filmes de horror que o irmão de sua amiguinha aluga. Somos o que vemos, o que ouvimos, o que falamos e o que sentimos. Neta, veja filmes que alimentam a verdade, a sabedoria e a ternura.
   De filmes que alimentam o pensamento, morreu o diretor de cinema Rogério Sganzerla, cuja mulher, Helena Ignez, monja budista entre tantos outros papéis, acompanhou a sua passagem. O personagem de ontem tornou-se real. Ficou calma, tranqüila, rezando baixinho do livro que ele lhe dera há 30 anos. Budismo tibetano, o livro dos mortos, contando o que atravessa­mos depois de morrer. Dizendo que tudo o que você pode encontrar ali foi e está sendo criado por sua mente. Então, não se ausente. Não se assuste nem fuja. Não se apegue nem queira. Deixe que tudo passe como o sonho que somos, indo para a luz mais forte, mais bela. Teria sorrido, Rogério, que ria de suas próprias irreverências? Expirou e não inspirou mais. Um mestre zen costumava ensinar que o segredo da mente tranqüila é expirar lenta e suavemente e desaparecer no vazio. Depois, inspirar lentamente e ir ressurgindo em cor e em forma. Novamente expirar como se fosse a última vez. Sem querer nada, sem precisar se mostrar, sem esperar nenhum troco, retorno, agradecimento. Sem desejar o sucesso, a riqueza, o amor, a sabedoria, o caminho, a nobreza. Como será expirar pela última vez, sabendo que é a última vez? Diz o mestre que nesse momento a mente está naturalmente tranqüila, e que isso é o zen.
   Você pode, eu posso, todos podemos, pois todos sabemos respirar. Não há necessidade de drogas, de formas secretas, palavras sa­gradas, textos imortais. Basta saber respirar, suave e macio, no ritmo natural, sem forçar nada, apenas observando o que acontece depois de expirar, sem nada esperar.
Poesia é como manto de monge, feita da pureza, daquilo que as pessoas jogam fora, pois acham que não serve para nada. O poeta e o monge vão pegando esses retalhos e juntando de forma que fiquem como um campo semeado. Por isso, São Paulo tem tantas possibilidades. Há tanto lixo, tanta coisa jogada fora. Coisas que servem, na sua pureza de não serem desejadas, para que poetas e monges construam suas moradas.

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CARNAVAL (E AS MORTES NO ZÔO)

(Por: Monja Coen)

   A fantasia nos faz. Deixamos de ser filhos, pais, amantes, irmãos e sobrinhos. Por breves instantes, somos sem-teto, sem-terra. Somos a escola de samba. Essa realidade nos comove e nos move em passos cadenciados, peitos inflados, corações acelerados.
    Homens e mulheres nus exibindo músculos e cores. Habilidade de pernas e macios movimentos de cintura. Sempre tão necessários os movimentos de cintura. Nesta vi­da, em qualquer vida, no trabalho, em casa e nas bocas, quer na fantasia quer na realidade fantasiosa de cada um de nós.
    Outro dia, uma jovem me encontrou na rua e me contou uma história de desencontros amorosos e familiares. Fiquei pensando que as versões de seus familiares e de seu amor talvez fossem diferentes da dela.
    Assisti a "Cidade de Deus" antes de dormir e, ao acordar, revi os personagens na tela da mente. Eles também se fantasiaram de bandidos. Alguns deles se tornaram suas fantasias, algumas escolhidas, outras forçadas pela vida. Alguns eram a fantasia de outros.
    Não apenas de roupas, de armas, de cruzes, de enganos. Fantasias de sonhos, de quimeras, de esperas.
    O que seria da vida sem a fantasia? Acabaria? Será que tudo não é apenas uma fantasia? Fantasiados estamos de gente.
    No Carnaval, não deveria haver drogas, bebidas ou brigas. Apenas alegria. Entretanto, a droga rola, e a bebida enrola a língua e a carne. O corpo humano é feito de veias, de sangue, de músculos, de órgãos. Agregados de pedaços físicos e de pensamentos. Sentimentos, emoções, percepções, consciência. Causas e condições. Efeitos de sermos corpos e mentes. Fantasias vivas, que se transformam a cada instante.
    Buda ensinou isso há mais de 2.600 anos. Ele havia trocado a fantasia de príncipe pela de monge. Trocou as roupas de ouro pelas de algodão. Trocou o coração, a mente, os gestos, os gostos. Não foi só a roupa de fora que mudou.
    No Carnaval, é permitido fingir ser o que não se é, mas o que é que nós somos? Sem se preocupar, há quem vista camisa listrada e saia por aí. Outros vivem um Carnaval eterno. Já nem sabem se fingem ou se são.
    Há os que viram caçadores de feras selvagens e matam os nossos animais, nas selvas ou no zoológico, presos em jaulas fechadas, envenenados. Que fantasia é essa? Quem os estará "libertando" para a vida eterna?
    Oro pelos animais, leões, gorilas, elefantes e todos os outros. Os que morreram sofreram as dores da intoxicação. Os vivos estão apavorados com o cheiro da morte rondando as jaulas fechadas, os espaços pequenos.
    Eu não gosto de estar presa em um espaço pequeno. Já não preciso correr, matar ou morrer. Fico comendo e dormindo, sem objetivo. Que vida danada. Mas matar não é a solução. Você gostaria de estar em uma jaula, sendo olhado, apontado, virando um estranho objeto de risos e gritos?
    Quando eu era criança, fui ao zoológico com o meu pai. Era tão lindo ver todos os animais. Só os conhecia dos livros, dos desenhos, das telas de terras distantes. Como era bom vê-los em movimento, sentir o seu cheiro, olhar o seu olhar. Em cada jaula, eu parava e admirava.
    Depois, contaram-me que eles estavam tristes, aprisionados, que o melhor seria ter safáris abertos, com áreas maiores para os animais. Poderíamos visitá-los em carros blindados, todos cercados e bem protegidos - somos os alimentos favoritos de muitas espécies.
    A gente se esquece. Fantasia de bicho, fantasia de gente. Queria fantasiar o mundo todo de paz, de respeito e de ternura, até não poder mais. E, quando o Carnaval terminasse e tudo ficasse quieto, silencioso, eu juntaria as mãos e agradeceria.

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EQUINÓCIO

(Por: Monja Coen)

    O dia e a noite são iguais. Hoje, 21 de março, o dia terá a mesma duração da noite. Equinócio. Muitos povos festejam a data. Há quem acredite que este é o primeiro dia do ano. Há quem diga que é em dias como este que a "Terra pura", o "paraíso do oeste" está mais próximo.
    Farei uma prece especial, por volta do meio-dia, rezando para que todos os espíritos alcancem a paz. Vivos e mortos. Todos temos o mesmo direito e a mesma capacidade de alcançar a grande tranqüilidade.
Por que alguns são bons, e outros, maus? Por que alguns procuram a paz, e outros, a guerra? Por que alguns são bandidos, e outros são mocinhos?
    Na tarde em que houve o atentado em Madri, eu não sabia de nada. Fui ao supermercado, e o meu amigo que sempre me ajuda a levar as compras até o carro lamentou o que acontecera na Espanha. O que seria?
    Não quero ser eu, senhora, a lhe dar tão má notícia.
    Diga logo, por favor, o que foi que aconteceu?
    Coisa feia. Terrorismo, morte, horror.
    Que barbaridade! Que pena!
    Dizem que as penas são dos penados e que penar é danado de ruim. Ficar penando, sofrendo. Sofremos todos.
    Milhões marchando unidos contra a violência, pela paz. Que lindo, não fossem as mortes, as dores, os horrores.
    Precisamos nos unir, sim. Precisamos reacender a chama da vida como prioridade. A vida vale mais do que dinheiro, do que juros, do que emendas constitucionais. A vida vale mais do que a fome que nos mostra as costelas magrinhas das crianças desnutridas. A vida vale mais do que uma posição política, religiosa ou filosófica. A vida vale mais. Proteja a vida. A vida se protege com a própria vida, sem perder a vida.
As pessoas gostam muito de me perguntar se Jesus era um Buda, Quem sabe? Não posso misturar as coisas.     Dizem que Jesus era o filho de Deus. Filho único. Buda é um ser iluminado, é aquele que acordou, aquele que vê a realidade como ela é e interfere, age, atua para o bem de todos. É aquele que renuncia ao seu próprio bem-estar para salvar os outros.
    Mas não dê a sua vida. Não se atire como bomba sobre pessoas e casas. Não é isso. Não se mate. Não matem e não morram por causas. Fiquem vivos.
    Que absurdo matar. Seja lá por qual razão. Planejar ataques com bombas em lugares públicos é arte do malvado que nos quer ver brigados. Podemos ser todos amigos, viver no mesmo local. Mas existem a ganância, a raiva e a ignorância, três venenos terríveis, que nos deixam abobados. Perdemos a "Terra pura", perdemos os nossos amigos. O mundo todo se torna uma guerra de improviso.
    Médicos e policiais resgatando vítimas. Como estariam os seus corações? Gelados dedos de geladas mãos. E a multidão em passeata pela paz. Eleições na Espanha, difícil de acreditar.
    Há outra palavra parecida com equinócio: eqüidade. Eqüidade é diferente de igualdade. É a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um. É o respeito igual aos diferentes. Respeito aos que pensam de maneira diferente.
    Respeito aos que se vestem com roupas diferentes, aos que falam idiomas diferentes, aos que mantêm costumes diferentes. Respeito à diversidade da vida.
    Que as nossas preces possam ser ouvidas! Que a nossa meditação possa ser sentida! Que se encontrem soluções pacíficas para os conflitos! Que haja hoje, neste dia de equinócio, a eqüidade necessária para levar para o outro lado - o lado da sabedoria toda a espécie humana e tudo aquilo que nos mantêm vivos.

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OITO

(Por: Monja Coen)

    "Cair sete vezes, levantar-se oito." Teria sido do monge Bodhidharma essa frase? Ele, aquele sisudo hindu, alto e forte, antigo mestre de artes marciais indianas, barbudo, com uma argola de ouro pendurada na orelha, foi considerado o fundador do zen.
    Se bem que não é possível dizer quem fundou o zen. É até meio tolo pensar que alguém pudesse ter fundado o zen.
    Ninguém funda meditação. Zen é meditação. É um estado da mente humana, da mente e do corpo, do coração e do espírito, da respiração e dos não-pensamentos. Pensando, pensando, sem pensar, sem pensar. Além de pensar e não pensar. Além do corpo e da mente. Pés no chão. Na terra, mãe que acolhe e repele, aconchega e fere.
    Fui ao teatro. Uma peça de cinco horas. Nunca havia visto uma peça de cinco horas antes. No Japão, há peças que duram dias inteiros. Um teatro diferente.
    A peça é "Os Sete Afluentes do Rio Ota". Sete afluentes mais o rio Ota são oito. A sala estava lotada e de pé, aplaudindo no final. Lindo. No intervalo, encontrei a diretora, que me perguntou: "O que está achando?". "Lindo", respondi. "Linda é você". Diálogo zen. Tudo sempre depende de nosso coração. Pode-se achar beleza até na amargura. Podemos rir até do horror.
    Fiquei pensando que talvez ela não houvesse gostado de meu lindo comentário. O que esperar da monja zen? Ou não esperava? Naquele momento, apenas a espectadora maravilhada com a arte cênica, os atores, o conteúdo profundo e sutil. Lindo. Pensei comigo que talvez fosse melhor procurar outra palavra. Seria correto dizer "lindo" para uma peça de arte educativa como aquela? Ri e chorei. Percebi a delicadeza das artes tradicionais japonesas como o teatro noh e a dança buto, o caminho da espada e a monja zen budista. Bombas atômicas foram três. Claridade que desfigurou. Por que tanta luz? Vocês querem mais luz? Reflexão sofrida sobre os erros da humanidade, nossos ancestrais. Judeus e nazistas. Crianças e artistas. Choveu e fez sol. Foi noite e dia. O tempo correu, o espelho escondeu o passado no presente retratado. Sorri, gargalhei, silenciei, chorei. Entendi e me emocionei. Escola antiga essa da arte dramática. Mostra caminhos de retorno aos ninhos da verdade, inclusão, amizade, liberdade.
    É preciso não perder a esperança. Pode demorar. Que importa o tempo? A esperança exige ação, pensamento, palavra, criação. Não, nós budistas não ficamos apenas sentados meditando. Na Ásia, monges e monjas abrem creches e escolas, hospitais e centros de atendimento. Trabalham com os pobres, os excluídos. Trabalham com os ricos, os instruídos. Há todos os tipos de monges, todos os tipos de ramificações que se possa imaginar. Desde o mais recluso na montanha, passando por aqueles que jamais tocam dinheiro, pelos que não tocam nada que alguém tenha tocado, até os que vivem em templos de ouro, carros importados. Quem é melhor? Quem é pior? Não ter nada. Absolutamente nada. Buda ensinou o caminho de oito aspectos: memória correta, pensamento correto, fala correta, meio de vida correto, ponto de vista correto, atenção correta, meditação correta, sabedoria correta. Buda dizia que esse caminho é o nirvana.
    Quase 200 países concordaram, desde o ano 2000, a mostrar resultados em 15 anos sobre oito objetivos: acabar com a fome e a miséria; dar educação básica de qualidade para todos; promover a igualdade entre os sexos e a valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde das gestantes; combater a Aids, a malária e outras doenças; promover a qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente; e trabalhar pelo desenvolvimento.
    O que temos feito? O que vamos fazer hoje? Qual desses oito caminhos de Buda, qual desses oito rios vamos navegar?

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CONTENTAMENTO

(Por: Monja Coen)

    Há muitos e muitos anos, o rei de um país distante andava triste. Um de seus conselheiros sugeriu que ele usasse a camisa de uma pessoa feliz para se tornar feliz também. A procura começou, mas parecia difícil encontrar alguém capaz de estar sempre alegre e contente.
    Finalmente, os emissários reais ouviram falar de um homem simples, que morava do outro lado da montanha, e foram encontrá-lo. Ficaram surpresos ao vê-lo, trabalhando sem reclamar, sorrindo ao recebê-los. Conversaram, e ele concordou em ver o rei.
    Na sala do trono, o rei tristonho aguardava, já sem esperanças. Talvez não existisse um ser verdadeiramente feliz. Entrevistara tanta gente. Sempre havia um pedido, uma reclamação, uma tristeza secreta embutida em alguma prega da memória ou da ambição. Será que não haveria na Terra uma criatura que sorrisse sem malícia, que falasse sem nenhuma intenção?
    Os arautos reais anunciaram a chegada da comitiva. O rei se aprumou no trono, andava cabisbaixo. Os ministros estavam cansados de convidar artistas e já tinham trocado mais de 15 "bobos da corte".
    De bobos eram chamados os que deveriam fazer a corte rir. Palhaços. Geralmente, pessoas muito sábias, cuja intenção era alegrar e até mesmo aconselhar, de maneira sutil e risonha, nas decisões finais. Conhecedores dos corações e das mentes de seus senhores, sabiam segredos íntimos. Entretanto, suas cabeças sempre dependiam das risadas que tiravam dos soberanos. Os bobos daquela corte não conseguiam do rei mais do que um sorriso.
    O rei sentou-se e viu com surpresa o homem entrar. Era grande, truculento e estava suado. Sorria ao reverenciar o monarca ali assentado. "Aproxime- se! Você é uma pessoa feliz?", perguntou o rei. O homem respondeu que sim. "Você veio ao meu castelo, pode falar comigo. Há alguma coisa que o incomode, alguma tristeza ou problema, alguma reivindicação, alguma reclamação, algum ódio do passado, algum rancor guardado?", continuou o monarca. O homem disse: "Não, majestade! Respiro a cada instante e isso me basta. É verdade".
    "Você não gostaria de comer coisas raras e deliciosas, banhar-se em leite, ser acariciado pelas mulheres mais belas do reino? Não gostaria de possuir terras, casas, gado, plantações? Não seria bom ter poder de controlar e de matar? Algo falta, com certeza, diga o que é", insistiu o soberano.
    O homem mais uma vez disse que nada lhe faltava. Seu olhar era límpido e sereno, parecia verdadeiro. Finalmente, haviam encontrado um homem feliz.
    Conta essa história antiga, do tempo de minha infância, que o rei pediu ao homem que entregasse sua camisa. Porém, ele não possuía uma.
    Há quem pense que alegria, felicidade e contentamento dependem de roupas, objetos, lugares, conhecimentos. Alguns acreditam que podem encontrá-los nos cargos, no status. Outros depositam suas esperanças de felicidade em amores, relacionamentos.
    Entretanto, a capacidade de ficar satisfeito é interna e profunda. É estar contente pela existência em si. Tudo o que pode acontecer faz parte de nossa vida. Nada temos a excluir, nada temos a desejar.
    Buda, em seu último sermão, pouco antes de morrer, disse a seus discípulos que quem conhece a satisfação penetra a grande sabedoria suprema.
    Estar contente e satisfeito não é apenas ficar rindo à toa. É uma sensação profunda que vem do encontro com si mesmo. Sofrimentos e alegrias, dores e prazeres, falta e abundância, reconhecimento e injustiças, tudo isso existe em dualidade.
    Ao encontrar a unidade, o sábio sente piedade por quem ainda se encontra fragmentado e partido, triste e desenxabido.

Revista da Hora

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O RETIRO E A VERDADE

(Por: Monja Coen)

    Acordávamos antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos os dias. De meditação em meditação, silêncio e orações. Plena atenção aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.
    Havia a dúvida. Havia o medo de perder a razão. Como se perde a razão? Primeiro, seria de bom senso encontrá-la. O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem razão? Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?
    Em um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: "Não há religião superior à verdade". Era o que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e logo nos desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um baú trancado em um sótão antigo, cujas escadas rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva, o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século 13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles dizia que o universo é uma jóia arredondada e que não há nada fora dele.
    É impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora não existe. Tudo está incluído e se transformando a cada instante.
    Esperando o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece tão simples e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
    Outro dia, alguém me disse que ciúme e inveja são diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta, mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para apagar o invejado da cena. Perigoso.
    Perceba suas emoções, seus pensamentos, sensações. Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.
    À noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática foi declamado: "Vida e morte são de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida".
    Saíamos da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros, nada. Mas a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos. "Somos a vida do Universo em constante transformação", outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
    Quem sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana, sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo que pôde apanhar ou o que soube largar. (Homenagem à Semana da Iluminação de Buda)

Fonte: Revista da Hora, 14 de dezembro de 2003

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ANO NOVO

(Por: Monja Coen)

    Ela era a irmã do ano e jamais envelhecia. Parada no tempo e no espaço, a tudo assistia. Revestida de estrelas, as camadas mais profundas do universo percorria. Em cometas viajava, em estrelas se esquentava, nos buracos negros se banhava e dormia na Via Láctea. Ela não tinha nome. Fazia e refazia a vida. Era a irmã do ano, que era sempre o mesmo, embora as pessoas na Terra dissessem que novo e velho havia. Para ela, ele era o eterno presente. O que você ganhou de presente? Eu ganhei a vida. Renascida, revivida em cada inspiração.
    Não medito para me acalmar ou para ficar mais tranquila. Zazen é sentar em zen. Zazen é encontrar Deus face a face e se perder nessa face. É a salvação e a glória. É a libertação e a paz. Requer esforço, paciência. Requer confiança e coragem. Requer entrega, doação. Requer morrer para o velho modo de ser. Requer renascer na iluminação.
    Em uma certa tarde, eu a encontrei. Espreguiçava suas asas em nuvens brancas e suaves. Abria o seu olho sol e o seu olho lua. Sorria nos raios de sol e no brilho das folhas verdes. Bela e poderosa, caminhava solene e, ao mesmo tempo, airosa.
    Parei por um momento no portão de uma casa. Uma senhora idosa se lamentava. Saudades do companheiro, amado marido morto, que deixara um vazio imenso. Ele foi bom e sábio. A vida daquele homem fizera a vida de sua mulher ter sentido. Havia função estabelecida, havia identidade, hábitos antigos de mais de 60 anos juntos. A senhora chorava. Meu coração se compadeceu. Como salvá-la da dor em todo o seu corpo, das pernas inchadas, do cansaço sem fim, da vontade de nada? Como ajudá-la a se libertar da tristeza profunda que, como fogo, queimava de lágrimas o seu peito magro e o seu rosto?
    Lembrei-me de Buda, que, por causa de alguém como ela, de alguém assim, que idoso e sofria, deixou suas roupas de luxo, suas comidas especiais e sua família e saiu à procura da verdadeira paz.
Continuei pensando nela. Na sua dor, no seu amor. Se a mente entendia as razões da vida, o coração tremia pela falta do olhar, do gesto, da voz, do corpo e da energia.
    Sofrimento existe. Por toda a parte. Como aliviar, salvar, redimir? Seria apenas um carma sofrer assim? Se aí nos detivermos, estaremos fechando todas as portas da transformação. E as coisas não param.
    Tudo ligado, causas, efeitos e condição. Mas há o nirvana, estado tranquilo de grande paz sábia e perfeita. A cada instante uma nova vida se manifesta. Mas ela dizia que só o que sentia era dor. No corpo, na alma. Na dor arraigada, nenhuma palavra vinda de outras pessoas servia.
    Deitava e chorava, já não mais sorria. O ano passou. Outro ano chegou. Será diferente? Continuará igual? Tudo dependerá de quem compreender a verdade suprema.
    Minha prece ofereço a todos os que sofrem. Que a minha vida sirva para criar condições apropriadas para tudo se transformar. Que as pessoas percebam que juntos podemos ajudar uns aos outros.
    O Ano Novo se vestiu de fraldas brancas. Seria Gandhi, o Mahatma, renascendo pela paz? A irmã o viu saindo daquele lugar de onde ninguém entra e ninguém sai. Sorriu. A Terra sentiu um frio arrepio de um lado. De outro, um calor de suar. O ano girava, crescia, mutava e, com ele, toda a vida em todo lugar.
    Assim vamos nós, girando ao redor do Sol, girando ao redor do nosso próprio eixo, numa elipse, acendendo a chama de nunca mais fazer nenhum mal.
    Que o bem prevaleça na Terra! Feliz Ano Novo!

Fonte: Revista da Hora, 28 de dezembro de 2003

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