O Yoga: Para que?


Georg Feuerstein
     
 

     PODEMOS PRATICAR YOGA pelas mais diversas razões: para manter a boa forma física; para conservar ou recuperar a saúde; para equilibrar o sistema nervoso; para acalmar nossa mente excessivamente ativa; e para levar uma vida mais significativa. Todos esses objetivos merecem a nossa atenção e o nosso esforço.

     Mas, tradicionalmente, o Yoga foi empregado por vários milênios como um caminho para se sair do sofrimento (duhkha) e chegar-se à libertação (moksha, nirvana) ou à iluminação (bodhi). Há muito tempo, os mestres de Yoga reconheceram que só poderemos es­tar plenamente satisfeitos com a vida quando tiver­mos encontrado a própria fonte da felicidade, que es­tá além do prazer e da dor. Mesmo quando estamos perfeitamente saudáveis e em forma, quando temos um sistema nervoso relativamente equilibrado e leva­mos uma vida aparentemente significativa, lá no fun­do ainda nos sentimos intranqüilos. Só temos de cavar fundo o suficiente, transpondo todas as cama­das de limitada satisfação - do tipo de satisfação que depende das circunstâncias externas. É fácil descobrir se estamos realmente contentes e felizes quando per­demos o emprego, quando nos separamos da pessoa com quem estávamos casados ou quando um bom amigo de repente se volta contra nós. Se acontece­rem com um grande mestre de Yoga, essas coisas não causarão nem mesmo a menor perturbação em sua mente.

      Depois da iluminação, estando a mente livre de todo obscurecimento, nem o prazer nem a dor podem diminuir nossa liberdade interior. Somos a pura Consciência e permanecemos unidos à Origem de todas as coisas. É isso que as tradições do Yoga hindu cha­mam de "realização do Si Mesmo". O Si Mesmo, ou Espírito, é supraconsciente, imortal, eternamente livre e inefavelmente feliz. Do ponto de vista yogue, não existe nenhuma realização mais elevada do que essa; nem existe algo a que valha mais a pena se de­dicar. Isso porque, quando realizarmos nossa verda­deira natureza, a natureza da pura Consciência, tudo o que fizermos será preenchido com a liberdade e a bem-aventurança dessa realização. Em todas as cir­cunstâncias estaremos à vontade; em todas as circuns­tâncias poderemos contribuir com sabedoria e com­paixão para o bem dos outros seres.

      Quaisquer que sejam os nossos motivos particula­res para praticá-lo, é bom ter sempre em mente o objetivo tradicional do Yoga. Isso nos impedirá de estacionar numa realização específica e limitada. O Yoga busca trazer à tona todo o nosso potencial.

Yoga pra quem?

     MUITO EMBORA O YOGA TENHA SE ORIGINADO em solo indiano e por muitos milênios tenha nele se desenvolvido, é concebido e concebe a si mesmo co­mo uma tradição de libertação para toda a humanida­de. Seus fundamentos morais são considerados uni­versalmente válidos; suas práticas físicas e mentais foram criadas para ser executadas pelo corpo e a mente humanos comuns; seu objetivo - a Realidade transcendente - é a base de toda a existência. Se existem ensinamentos yogues especificamente liga­dos à cultura indiana, eles só representam uma pequena fração da herança total do Yoga. Portanto, o Yoga é, em princípio, tão pertinente para o homem contemporâneo quanto era para os nossos mais remo­tos antepassados.

     Não há prova alguma de que a mente ou psique humana tenha mudado significativamente no decor­rer dos últimos cinco mil anos! Já ficou claro que o conceito de "progresso" é bastante frágil. Não ficamos mais inteligentes nem mais observantes da moral; em definitivo, não nos tornamos mais sábios. E certo que nosso conhecimento do universo atingiu proporções inauditas mediante os esforços da ciência, mas isso não fez mudar a qualidade do nosso pensamento. Os melhores pensadores do mundo antigo levam a me­lhor quando comparados com os melhores do mundo moderno. O máximo que podemos alegar em nosso fa­vor é que, hoje em dia, um número maior de pessoas participa do conhecimento científico e das maravi­lhas da tecnologia. Porém, esse conhecimento não nos deu uma vida mais livre e mais feliz. Infelizmente, apesar da ciência e da tecnologia, a maior parte dos espécimes da espécie humana não vive como deveria viver. Isso se evidencia facilmente nas estatísticas de doenças mentais, crimes e guerras.

      Sabemos muito mais sobre muito mais coisas do que os nossos antepassados, mas são pouquíssimas as pessoas que têm hoje uma idéia clara do que é a vida. Ao que parece, todo esse conhecimento nos deixou mais confusos. Perdemos de vista tudo o que é essen­cial, tudo o que pode nos dar uma vida mais significa­tiva e mais feliz. Nossa vida tornou-se inacreditavel­mente complicada e o stress é uma ameaça constante à nossa saúde física e mental.

      Em outras palavras, o trabalho yogue de auto­transformação enfrenta hoje desafios semelhantes aos que enfrentou em outras épocas, que tinham as suas próprias patologias. O Yoga é um caminho, já muitas vezes trilhado, de liberdade, paz e felicidade interiores. Põe-nos em contato com o que Abra­ham Maslow chamou de "valores do ser", sem os quais nossa vida é superficial e, em última análise, insatisfatória. O Yoga oferece respostas às pergun­tas fundamentais da existência humana: Quem sou? Por que estou aqui? Para onde vou? O que devo fa­zer? Sempre que, no meio da nossa vida frenética, fazemos uma pausa suficientemente longa, essas perguntas saem do esquecimento. Quando isso acontece, são poucas as pessoas que têm respostas plausíveis para apresentar a si mesmas. Sem essas respostas, porém, somos como folhas secas levadas pelo vento.

      O Yoga é capaz de nos dar, hoje, uma orientação tão firme quanto a que dava há cinco milênios ou mais. O Yoga é para todos. Seus vários caminhos não só opõem uns aos outros como também, sem dúvida alguma, se complementam. Constituem, em seu con­junto, um panorama global dos meios possíveis pelos quais pode ser trilhado o caminho vogue para a liber­tação.

 
 
 

Autor:
Georg Feuerstein
Fonte:
Livro – Tradição do Yoga
Editora:
Cultrix