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TODAS
AS FORMAS DE VIDA SAO LIGADAS entre si e dependem
umas das outras. É esse o tema da ecologia.
Em palavras simples, a ecologia é o estudo
dos relacionamentos vitais entre os vegetais
e animais (ou seres humanos) e o ambiente em
que vivem. Muitas vezes, a palavra é
usada para designar o próprio nexo que
liga o ser vivo ao ambiente, embora a ecologia
seja, a rigor, o estudo desse nexo.
Nosso
planeta já foi comparado a uma espaçonave
gigantesca cujos recursos são limitados.
É verdade que os recursos da Terra não
são inexauríveis, mas há
um outro fato muito importante: nosso planeta
natal é muito mais complexo do que poderia
ser qualquer implemento tecnológico.
Ele é, como lembrou à nossa geração
o biólogo James Gordon Lovelock, um organismo
vivo, que ele chamou de "Gaia". Sendo
um organismo vivo, a Terra é um sistema
de forças cuidadosamente equilibradas.
No decorrer
das décadas passadas, esse equilíbrio
foi gravemente perturbado por padrões
de vida antiecológicos, característicos
sobretudo dos chamados países "civilizados",
que geraram a chamada "crise ecológica".
Muitos fatores contribuem para essa crise, e
entre eles podemos destacar a superpopulação,
a má distribuição da população
(ou seja, o gigantismo das áreas metropolitanas),
o consumo excessivo, o desperdício, o
mau uso da tecnologia e, sendo este um dos principais
problemas, uni pensamento egoísta e imediatista.
O que tudo isso tem a ver com o Yoga? Tudo.
O Yoga é intrinsecamente ecológico.
Todo Yoga é aquilo que já se chamou
de "Eco-Yoga". Nas palavras do Bhagavad-Gitâ
(11.48), Yoga é equilíbrio (samatva).
Essa palavra não precisa ser compreendida
somente no âmbito psicológico.
Quando temos o equilíbrio interior, temos
também o equilíbrio em relação
ao ambiente. Isso se confirma pelo código
moral do Yoga, abrangente e rigoroso, que abarca
todos os aspectos das relações
do praticante com seu ambiente e com os outros
seres vivos.
Esse
código se consubstancia nas cinco disciplinas
morais (yama): não cometer violência,
praticar a veracidade, não roubar, respeitar
a castidade e não cobiçar. Assim,
a não-violência (ahimsâ)
consiste numa reverência por todas as
formas de vida. Isso implica, por exemplo, a
escolha de um estilo de vida que não
prejudique o hábitat de outras espécies
animais. Além disso, quando levamos a
sério essa regra, temos de adotar uma
dieta vegetariana. Caso isso não seja
possível, temos ao menos de garantir
que nosso consumo de produtos derivados de animais
(carne, ovos e laticínios) não
colabore de modo algum com a cruel prática
da criação animal industrializada.
A regra yogue do não-roubar (asteya)
implica, por exemplo, que não peguemos
para nós mais do que o necessário
para atender as necessidades do nosso complexo
psicossomático. São poucos, porém,
os que se dispõem a adotar o modo de
vida espartano com o qual os verdadeiros yogins
estão acostumados. Por outro lado, existem
muitas coisas que podemos fazer para nos adaptar
a essa obrigação moral. Assim,
podemos evitar o que se chama de "consumismo"
e que inclui o abominável desperdício
de alimentos. Podemos aprender a usar aquilo
que temos de sobra (e cujo destino é
na maioria das vezes a lata de lixo) para melhorar
as condições de vida de nossos
semelhantes menos afortunados.
Do mesmo modo,
a regra moral do não-cobiçar (aparigraha)
é compreendida como uma exigência
abrangente de que o homem se relacione com a
vida de maneira equilibrada, sem querer tudo
para si, respeitando o direito dos outros de
partilhar dos recursos do nosso planeta. O viver
consciente é um equilíbrio entre
o dar e o receber. Assim, por exemplo, quando
cortamos uma árvore num terreno nosso,
ternos o dever de plantar pelo menos mais uma
árvore. O pensamento eco-yogue exige
de nós que colaboremos para repor os
recursos utilizados.
A exigência
yogue de pureza (shauca), que é uma das
regras de autodomínio (niyama), também
pode ser compreendida num sentido ecológico
mais amplo. Temos de fazer todo o possível
para eliminar a poluição em nossa
própria vida e para apoiar os esforços
em prol da limpeza do ambiente em geral.
O "Eco-Yoga"
é um conceito que hoje designa a necessária
convergência entre a espiritualidade yogue
tradicional e o ativismo social que gira em
torno das preocupações ecológicas.
No começo do terceiro milênio d.C.,
estamos diante de uma crise ambiental cada vez
mais grave que afeta profundamente a vida de
todos. Já não podemos nos dar
ao luxo de adotar o quietismo como postura de
vida. Temos também de assumir a responsabilidade
pelo ambiente em que vivemos, e isso significa
reavivar em nós a idéia de que
este planeta é sagrado e participar ativamente
do seu processo de recuperação
ecológica.
Do ponto de vista metafísico, o desafio
com que deparamos é o de aprender a respeitar
tanto a transcendência quanto a imanência.
Para dar um exemplo concreto, não podemos
ter a menor esperança de conhecer a nós
mesmos e muito menos a Divindade, enquanto deixarmos
que as pilhas de detritos e os poluentes tóxicos
que infestam o ar bloqueiem nossa visão.
Temos, antes, de aprender a cooperar com a Natureza,
a qual é a própria base do esforço
espiritual que temos a pretensão de fazer.
Temos de estar dispostos a mostrar fidelidade
não só ao caminho espiritual que
escolhemos, mas também ao mundo em que
vivemos.

Segundo
a tradição do Tantra-Yoga, o corpo
é um instrumento precioso para a realização
da Divindade ou da Realidade. Temos de reconhecer,
da mesma maneira, o imenso valor do nosso planeta.
A Terra é o nosso corpo e é o
único que temos. Destruindo-o, é
como se nos suicidássemos. Vou apresentar
agora algumas diretrizes para o cultivo do processo
eco-yogue.
Ter
a determinação de compreender
a época em que vivemos e as forças
internas que a moldam. Uma vez que vivemos numa
complexa civilização pluralista,
estamos inevitavelmente expostos a todos os
tipos de correntes socioculturais, as quais
precisamos compreender para cultivar nossa própria
autenticidade. Leitura recomendada (em ordem
alfabética): Morris Berman, The Re-enchantment
of the World (1981); Marilyn Ferguson, The Aquarian
Conspiracy (1980); Jean Gebser, The Ever-Present
Origin (1985); Carl Gustav Jung, Modern Man
in Search of a Soul (1963); Gordon Rattray Taylor,
Rethink (1972); Theodore Roszak, Person/Planet
(1978); Alvin Toffler, Future Shock (1970) e
The Third Wave (1980); Ken Wilber, Up From Eden
(1981) e Sex, Consciousness, Spirituality (1995).
Tomar
plena consciência do problema e informar-se
ao máximo sobre ele. Leitura recomendada:
Thomas Berry, The Dream of the Earth (1988);
Lester Brown, relatórios State of the
World; Paul e Anne Ehrlich, The Population Bomb
(1968) e The Population Explosion (1990); Duane
Elgin, Voluntary Simplicity (1981); Francesca
Lyman et al., orgs., The Greenhouse Trap (1990);
Mihajlo Mesarovic e Eduard Pestel, Mankind at
the Turning Point (1974); John G. Mitchell e
Constance L. Stalling, orgs., Ecotactics (1970);
Jonathan Porritt, Seeing Green (1984); Barbara
Ward, The Home of Man (1976). Todas essas publicações,
ao lado de muitos outros bons livros, contêm
um tesouro de informações de aplicabilidade
imediata. Existem, porém, alguns livros
que podem ser particularmente recomendados como
manuais práticos: The Global Ecology
Handbook: What You Can Do about the Environmental
Crisis (1990), organizado pot Walter H. Corson;
50 Simple Things You Can Do to Save the Earth
(1989), 50 Simple Things Kids Can Do to Save
the Earth(1990) e The Recycler's Handbook (1990),
do Earth Works Group de Berkeley, Califórnia;
The Simple Act of Planting a Tree (1990), do
Treepeople com Andy e Katie Lipkis, publicado
por J. P Tarcher. Não temos de nos tornar
especialistas, mas temos de saber o que está
acontecendo ao nosso redor, conhecer as coisas
que podem nos afetar e afetar a vida de nossos
filhos e netos.
Levar uma vida mais simples, mais sensível
a ecologia.
Temos
de avaliar nossos hábitos de consumo
e ver o que podemos fazer para diminuir o consumo
de energia e a poluição no nosso
ambiente imediato. Podemos, por exemplo, nos
perguntar: preciso deixar tantas luzes acesas?
Realmente preciso ligar o ar-condicionado ou
o aquecedor, ou posso isolar melhor a minha
casa e assim diminuir o desperdício de
energia? Preciso usar o automóvel com
tanta freqüência ou posso planejar
com mais cuidado minhas saídas, ou mesmo
combinar um rodízio de carros com os
amigos? Preciso dar a descarga toda vez que
uso o banheiro e tomar um banho de quinze minutos
todos os dias? Não poderia reciclar latas
e garrafas? Será que realmente não
tenho dinheiro para comprar alimentos orgânicos
e mais saudáveis? A preguiça realmente
me impede de usar os resíduos vegetais
para fazer adubo composto no jardim? E por aí
afora. As grandes mudanças começam
quando fazemos as coisas "pequenas"
- agora.
Unir forças com um grupo ecológico
local e passar a ter alguma atividade política.
O Yoga não é mera interioridade.
Tampouco é incompatível com a
atividade política. Com excessiva freqüência,
os praticantes de Yoga preocupam-se apenas com
a própria salvação e ignoram
o contexto maior em que vivem. Em última
análise, essa atitude é egoísta
e contrária ao espírito do Yoga,
além de ser contraproducente. Isso porque
o ambiente se impõe a nós. Como,
por exemplo, cultivar o controle da respiração
numa cidade onde o ar é poluído?
Como conservar sadios o corpo e a mente quando
o solo onde cresce o nosso alimento é
envenenado por substâncias químicas
nocivas? Como alcançar a imobilidade
interior necessária à meditação
e à oração quando nossos
tímpanos são constantemente bombardeados
pelo ruído dos carros e dos aviões?
No mínimo, temos o dever de dar apoio
a grupos de ativistas como o Greenpeace, o Amigos
da Terra, o Sierra Club, a National Wildlife
Federation ou o Elmwood Institute.
Cultivar
o autoconhecimento, lançando luz sobre
os motivos que nos levaram a tomar o caminho
espiritual; e ter disposição para
reconhecer e trabalhar as tendências neuróticas
que se disfarçam de ideais espirituais.
Não podemos confiar irrefletidamente
na idéia que temos de nós mesmos;
temos de consultar pessoas sábias e benignas
que possam servir de espelhos fiéis do
nosso caráter. A falta de autoconhecimento
freqüentemente nos leva a agir erroneamente.
Estudar
as tradições espirituais do mundo
inteiro a fim de aprofundar a compreensão
do caminho que adotamos.
Isso
nos ajuda a apreciar a complementaridade das
tradições religiosas e espirituais
deste nosso mundo. Faz diminuir também
a tendência à parcialidade, ao
sectarismo, ao elitismo espiritual e a outras
formas de exclusivismo. Pode, enfim, nos ajudar
a cultivar as virtudes admiráveis - e,
na verdade, essenciais - da compaixão
e da tolerância, que facilitam a cooperação
e o viver ecológico.
Ficar em contato com o ambiente natural. A vida
na cidade seduz as pessoas e as leva a ter uma
relação abstrata com a Terra.
E importante encostar no solo, cuidar de flores
ou de árvores, provar a água pura
das vertentes de montanha, ver de perto a exuberância
da vida selvagem e assim por diante. Sem esse
"aterramento", a interioridade muitas
vezes não passa de uma fuga neurótica.
Para sermos completos, precisamos não
só da bênção do Céu
no interior, mas do toque da Terra no exterior,
que nos transforma.
Recordarmo-nos todos os dias de que a vida é
um dom precioso que não pode ser desperdiçado,
dissipado ou mal utilizado. Se o nosso coração
está aberto, a gratidão e o louvor
fluem naturalmente dos nossos lábios.
De maneira geral, a educação ocidental
não nos predispõe a expressar
nossa gratidão (nem as demais emoções)
e nos ensina antes a criticar do que a louvar.
E claro que não há necessidade
de omitir as críticas que precisam ser
feitas, mas essas críticas, muitas vezes,
são melhor recebidas quando são
temperadas com a compaixão e o louvor
(o qual pode ser visto como uma forma ativa
da compaixão).
A
vida no mundo pós-moderno nos feriu a
todos de uma maneira ou de outra, e a necessidade
de cura é intensa. O louvor e as expressões
de gratidão são meios excelentes
para aliviar o sofrimento (duhkha) e promover
a esperança. Quando vemos a vida como
uma oportunidade espiritual pela qual somos
gratos, o mundo deixa de ser nosso inimigo.
Não deixamos de colher a nossa parte
do karma coletivo nem de sofrer com a exploração
da Terra, mas começamos por outro lado
a sentir uma afinidade mais profunda com todas
as pessoas, seres e coisas - afinidade essa
que é em si mesma uma cura. Tornamo-nos
verdadeiros cidadãos do ecossistema cósmico;
nosso voto, que decidirá o futuro desse
ecossistema, é dado a cada momento pela
maneira como vivemos.
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