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O que é... É reconhecer e explorar
suas qualidades, Virtude não tem sexo. Mas já teve. No velho latim, vir era "homem" (e daí veio "virilidade"). Virtudis, em latim, era o nome que se dava ao conjunto de boas características que - naqueles idos de antanho - eram atributos exclusivos do macho da espécie humana: a força, a coragem, o destemor e a energia. A palavrinha vir gerou algumas outras, bem interessantes, que hoje em dia só conservam resíduos arqueológicos de sua origem masculina. É o caso de "virilha" ("partes sexuais do homem"), de "triunvirato" ("três homens") e de "virtual" ("força corporal masculina"). Os séculos foram passando e a palavra virtude, além de ficar assexuada, engordou uma barbaridade. Hoje, virtude é o bom uso de qualquer qualidade individual, mesmo que isso, às vezes, possa parecer contraditório: o silêncio é uma virtude, assim como é a oratória. Portanto, o que faz com que os outros percebam em nós uma determinada virtude não é a definição da palavra. É o seu resultado prático. A persistência, por exemplo, é o maior defeito do teimoso e a maior qualidade do visionário., Já a mulher virtuosa foi um dia definida como casta, prendada e pudica. Se uma mulher ouvisse isso de um homem hoje, provavelmente pensaria que ele acabou de desembarcar do túnel do tempo. Bem a propósito, meu amigo Reinaldo Polito me mandou um livro delicioso, Hontem e Hoje, publicado em 1920.0 livro traça um retrato das mulheres "appreciadas pela virtuosidade" há mais de 80 anos e adverte para os riscos que correm ao trilhar caminhos diferentes dos que a sociedade (tradução: os homens) entende como salutares. Um dos capítulos do livro é "As Mulheres Que Trabalham". E os diálogos - entre um casal conservador, vizinho de duas jovens mulheres que haviam começado a trabalhar (como "dactylographas") - são uma delícia: - Sabes, João, são duas cabeças-de-vento, aquelas meninas! -A mulher nunca precisou ganhar dinheiro para viver, e não me consta que alguma morresse de fome... - Essas mulheres "futuristas", se não tomarem cuidado, terão de agüentar sozinhas todo o repuxo da vida... Parece
cômico, e é mesmo. Mas, se a opinião dos vizinhos
já não importa tanto, a "cultura interna" das
empresas ganhou força ao definir as "virtudes esperadas"
de um bom funcionário. Você também tem um chefe
que vive chamando de "defeito" o que você sabe que é
"virtude"? Então, console-se pensando que, daqui a
80 anos, a VOCÊ S/A (que, provavelmente, se chamará "You,
Inc.") publicará um artigo intitulado "Ontem e Hoje",
lembrando como as normas de conduta eram ridículas em 2004. E
mostrando que o nosso mundo se dividia, como sempre se dividiu, em dois
tipos de pessoas: as que acreditavam nas próprias virtudes, e
lutavam por elas, e as que se submetiam à ditadura das virtudes
impostas. E a decisão que cada um de nós precisou tomar
foi simples: tranqüilidade hoje ou reconhecimento amanhã?
Porque as virtudes até mudam com o tempo, mas a história
não: o presente sempre premiará os obedientes e o futuro
sempre será grato aos rebeldes.
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