O VAZIO


Monja Coen
     
 

     O vazio não teme o vazio. O vazio se enche de tudo e não se enche de nada.

      O nada se enche de nada. Ou será o tudo, o cheio que se expande de tal forma que se arrebenta e explode no buraco negro? Das mil mortes, dos mil nascimentos. Encarnações, renascimentos, ressurgimentos? Restaura-se o ar no vento e o seu sopro diz "Nunca mais?".

      Por nada se torna vazio e sem saber de nada se esvazia de si mesma. A mente, a vida, a consciência.

      Tudo fluindo, sem entidade fixa.

      O que sou eu? Uma árvore de outono, cujas folhas caíram uma a uma.

      No chão, os passos me partem em pedaços. A chuva molha e desfaz aquilo que eu fui. Húmus da Terra, solo fértil. E me alimento de mim mesma.

      Não há dentro nem fora. Somos a vida em transformação. Vazio é o vaso e também a água, que toma a forma do que a contém.

      Disforme, imensa, onda traga cidades, pessoas, carinhos, amizades, ofensas, intrigas, mortes, nascimentos, guerras, preguiças, fome.

      Vazio. Esvazia minha memória, esvazia minha saudade de seus olhos, que se foram brilhando até a aurora boreal.

      Mas tudo me lembra você. Tudo é forma e é vazio. Tudo transforma. Muda, não é fixo.

      Na boca, o sabor. De alimentos e sofrimentos, alegrias e tormentos. Sai o ar, entra o vapor. Vazio de permanência.

      Movimentos peristálticos. Bolo alimentar. Tudo mistura. Enzimas. Uma coisa só, feita de muitas que deixaram de ser o que eram e se transmutaram no que é o agora. Impossível de pegar.

      Sempre agora, Sempre aqui.

      Será o futuro ou o passado? Será o presente o futuro manifestado? Será o presente que se foi?

      Onde começa e onde termina a roda, o círculo, a vida? Até os cientistas dizem que, no centro, bem no centro da menor de todas as partículas, ha um nada, um vazio.

      Mas não é esse o único vazio.

      Há o vazio das camas vazias, dos leitos solitários, dos hospitais e asilos.
      Há o vazio das perdas, das mortes, das separações.
      Há o vazio de idéias, de pensamentos, ações.
      Há o vazio das mentes vazias, que perderam o sentido, das demências encontrando espaços intercalados nos hospícios desusados, abusados, atrasados.
      Há o vazio do nada. Há o vazio do tudo.

      No meio e em todas as partículas, no meio de todas as coisas, entre elas e nelas, nesta folha, nesta letra, neste instante o seu olhar é vazio. Vazio de intenção. Vazio de inconstância, de transmutação.

      Tudo apenas vazio. Vazio apenas tudo que há.

      Carnaval e fantasias, carros, alegorias. Festival de cinema. Festa e matinê. Turnês e sonhos sem valsas. Minueto, de mãos dadas, com meu avô eu dançava. As músicas eram notas, eram letras, eram sons. Onde estão agora? Gravadas em que memória?

      Procurando acessar o inacessível. Palavras chegam e voltam. Vêm de lá e vão para cá. Onde fica o seu lugar? Há lugar certo ou incerto?

      Repete. Repete. Repete. De novo?

      Corpete vermelho. Sapatilhas manchadas. Suor e sangue. A dançarina se encosta com Degas num bar de calçada.

      Paris, Londres, Nova York, São Paulo, Tóquio, Pequim.

      Teria sido na África, na Eurasia, na Patagônia? Onde foi que o vazio se escondeu?

      Levou tudo com ele. E agora quem sou eu?


 
 
 

Autor:
Monja Coen
Fonte:
Livro - Sempre Zen