|
Tudo está Fluindo
Monja Coen
Eu
não a chamava de tia, embora ela fosse irmã de meu pai.
Para mim, era Lina. Aposentada, católica, fazia palavras cruzadas.
Tinha sempre um dicionário. Não só pelas palavras
cruzadas, mas pela curiosidade. Tinha olhos claros, pele branca e cabelo
liso, mais branco do que o branco anunciado no sabão em pó.
Sempre me recebia sorrindo, e nos olhava. Olhava-nos e nos via. Sem intrusão.
Queria saber como estávamos, passava a mão na minha cabeça.
Havia ternura. Procurava traços de família.
Conversávamos
na sala do seu apartamento. Foi nessa mesma sala, onde uma vez comi com
prazer figado com cebola e eu detestava bife de figado, que ela morreu.
Não acordou. Ou talvez tenha acordado. Seria a morte um despertar?
O
que é a vida?
"A
morte é um período em si mesma, e a vida um período
em si mesma." O velho mestre zen, Eihei Dogen (lê-se Dooguen),
falava assim a seus alunos há cerca de 800 anos. Antes de o Brasil
ter sido invadido, de os nativos serem explorados. Antes de os negros
virem em barcos. Uns 300 anos antes, no Japão, Dogen ensinava os
outros monges, os leigos, aristocratas e plebeus a meditar. Sentar sem
dizer, antes de pensar.
Quando perguntavam a ele como não pensar, ele respondia: "Sem
pensar". Tão simples. Seria a morte o "não pensar"?
Será a morte um pensamento? Ondas e partículas, diz a física
quântica. Coisa difícil e fácil ao mesmo tempo.
Tudo
está fluindo
Imagine
dizer ao ser humano que tudo está fluindo: paredes, chão,
montanhas, estrelas, pensamentos, emoções, cimento e corrimões,
acredita? Pois que flui, flui. Fluindo se foi a vida de tia Lina.
Lina,
que foi criança (teria nascido na santa Terrinha?), que brincou
e cuidou dos irmãos mais novos. Lina, que se casou e foi feliz
como podem ser felizes aqueles que se amam e se respeitam.
Ele
morreu primeiro. Dois meses depois, foi o filho mais novo. Que tristeza
profunda e silenciosa. A dor da perda que não se reverte em ganho
jamais. Quem sabia sorrir também sabia chorar.
Uma
vida, duas vidas, todas contidas em um suspiro. Suspiro que expira e se
deixa levar no fluir de tudo o que flui.
No
cemitério, o frio, as raízes das árvores que levantam
o calçamento. Orando, nós a acompanhamos. Não retoma
à terra o pó, mas ao concreto, ao cimento, ao tijolo que
fecha o caixão, onde o corpo de mais de 90 anos é deixado.
Tia
Lina não era apenas corpo. Era vida, amor e sentimento. Isso não
morre.
Nessas
reflexões, e vendo seus filhos fortes e corretos, fico pensando
na educação, na fibra de formar sabedoria.
Pessoas
capazes de não sucumbir às tentações. Essa
capacidade de educar e ensinar a aprender, de descobrir o novo em si e
em todos, eu queria saber usar.
Que
a gente se inspire nessas pessoas boas. Que elas nos façam viver
melhor, nos façam acreditar que "nem tudo está perdido
quando resta uma esperança".
Há
gente boa no mundo. Mesmo que os jornais anunciem tantos ladrões,
eles ainda são poucos. A maioria é correta e não
dá manchete. Não vamos cair na bobagem de pensar que nada
presta. Chega de reclamar. Se há espaço reservado ao fracasso,
há outro aberto ao sucesso. Abra o coração. Ajude
os outros. Confie, pois é amando que se é amado.
|