| Não há melhor assunto para se comentar em uma edição de aniversário do que o Tempo, afinal o que comemoramos é a passagem do próprio. Porém, o tempo é composto por uma substância fluída, etérea e instável. Como falar de algo tão indefinível? Como é que este conjunto de momentos que a gente costuma chamar de tempo, e que é a representação máxima de tudo que é transitório, pode perceber a essência que habita cada um de nós e representa nossa própria eternidade?
Nossos sentidos não são treinados para ver o todo. Vemos a vida por etapas, partes, seqüências, episódios. Nossa memória é a fragmentação da experiência. Nosso olhar vê tudo de um ponto de vista, pois não consegue abarcar toda a realidade. Só podemos guardar a maciez daquilo que tocamos, pois o intocado não pode ser percebido. Ouvimos e falamos limitados pela linguagem e conceitos que somos capazes de decodificar.
Para ampliar nossos horizontes, rompendo as fronteiras internas que nos impusemos, precisamos percorrer de novo os caminhos conhecidos a partir de uma trajetória arquetípica, ou seja, temos que ir além do analítico racional e exercitarmos nossa percepção dentro da esfera do simbólico intuitivo.
Toda a sabedoria se expressa em um espaço além das palavras, além das idéias objetivas, além da experiência tangível. O sutil, o subjetivo e o intuído são algumas das facetas da consciência. Se não há um fundo de contraste não é possível compreender as letras da superfície. Ler a vida é ver o que está escrito, feito, experimentado, mas também perceber o todo que faz isso possível.
No nível simbólico podemos decifrar mensagens que nos permitem acessar aquilo que não pode ser explicado, mas deve ser compreendido. Há outros níveis de realidade não percebidos (microscópico, atômico, mental, imaginal, etc.) que coexistem com a realidade percebida e a afetam numa espiral de acontecimentos que nem sempre compreendemos. Como explicar as coincidências, as pequenas magias diárias, o sonho com sua linguagem tão subjetiva?
Se fizéssemos?? nossa viagem pelos dias através dos ambientes simbólicos com que profundidade experimentaríamos a vida? O que poderíamos acrescentar aos nossos sentidos para vivenciar com fluidez todos os acontecimentos? Se víssemos o que não está aparente e compreendêssemos o que não é claro, talvez não pudéssemos impedir nenhum dos fatos, contudo saberíamos lidar muito melhor com tudo o que acontece. Vamos aproveitar então e navegar um pouco pelos mares simbólicos dos dias. Por que será que a semana é formada por um ciclo de sete dias? O que representa cada um dos dias? Não sabemos da onde viemos, nem para onde vamos, mas ao menos devemos tentar compreender onde estamos.

O conhecimento compartilhado da filosofia, das artes, das ciências e das tradições gerou uma visão mais holística, mais ampla, permitindo a concepção de uma teoria geral de correlações, onde tudo está relacionado a tudo. Um dia, que equivale a um mito, que equivale a um astro celeste, que equivale a um signo, que equivale a uma cor, que equivale a um sentimento, que equivale a um aroma, que equivale ... e assim sucessivamente, numa correlação circular e de múltiplas variáveis.
Por vezes, a compreensão de episódios que se repetem em nossa vida pode se dar através do portal dos simbolismos, das correlações que formam as intrincadas teias onde bordamos nossa existência. Compreender o simbólico para superar o ilusório que nos cerca é um dos passos fundamentais que devemos trilhar no caminho extenso da consciência.
Compreender aquilo que fica de tudo que é transitório é mergulhar na própria essência da vida e beber do mais puro sabor da verdade. Acertar, errar, ganhar, perder, estar feliz ou infeliz são apenas partes do intrincado espelho da ilusão. Ora estamos numa condição, ora noutra. Tudo o que passa não pode ser o propósito da vida. A dor, a perda, o sofrimento, também são parte desta experiência de Maia (deusa da ilusão para os hindus).
O que é perene, então? Tudo aquilo que não desaparece, mesmo com a morte. A existência passa, só a vida é pere??ne. E o que representa cada dia desta vida é o que vamos ver na seqüência.
DOMINGO
“A consciência é uma fenda pela qual espiamos a realidade”.
Os dias ressoam em uma determinada freqüência, assim como cada música tem sua própria vibração. A nomeação dos dias e as correlações que daí resultam não podem ser atribuídas a um mero acaso, pois nomear é criar a realidade. O simbolismo do domingo é curiosamente representado ao longo da história humana de uma forma repetitiva em diferentes culturas.
Domingo é o dia do Senhor (dies Domini) na tradição judaico-cristã. O dia em que o sol rege a consciência. O astro brilhante é também a representação da alegria. Quando estamos desconectados do momento o domingo pode se transformar no mais melancólico dos dias, pois seu simbolismo exige atividade, clareza, percepção, presença.
Outros povos também definiram seu dia solar com a representação da alegria, da expansão, da celebração da vida. Se o domingo ressoa mesmo essa vibração é um desperdício tremendo passarmos o dia sem planos, sem aventuras, sem encontros. Mais que isso, pode conduzir a um sentimento de tristeza e desânimo, pois o que não vibra em sintonia, fica fora de ritmo, desafina.
A melhor forma de aproveitar a energia subjacente do domingo, que foi feito sob medida para recarregar nossas baterias, é programar um dia sem preocupações, com amigos, em atividades lúdicas que podem envolver contatos com a natureza, artes e troca de histórias divertidas.
SEGUNDA – FEIRA
“Não tenhas pressa, aonde tens que ir é só a ti mesmo”.
O dia da lua (lunes em espanhol, lunedi em italiano e somvar em sânscrito) aparece como primeiro na semana de trabalho porque é o dia do planejamento por excelência. Em contraposição à expansividade do sol, a lua é um convite à interioridade. Estar em sintonia com nossa própria intimidade, sem aceleração, sem agitação. A freqüência lunar é semelhante às ondas alfa do cérebro, onde há um nível maior de percepção e genialidade, porém essa sensibilidade precisa de proteção.
Evitar lugares movimentados e sobrecarga de atividades é a recomendação para o planejador, que compõe o arquétipo da segunda feira. Intimidade é a palavra chave. Isso significa voltar-se para dentro, ir à busca de si mesmo. Planejar é decidir, ou seja, escolher por que caminhos se vai seguir. Isso não quer dizer que podemos definir tudo que ocorrerá pelo caminho, contudo essa definição já, por si só, coloca em movimento uma nova roda da vida.
É por isso que a segunda feira é um excelente dia para o cultivo da meditação, da contemplação, para escrever um diário, para refletir sobre o que se deseja e como fazer para se transmutar a realidade do que está para o que se busca. Se dedicássemos pelo menos a segunda feira para revisar e repensar nossa jornada, que outros percursos, ainda não percebidos, poderíamos trilhar? Como diz o poeta, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.

TERÇA – FEIRA
“A morte é só outro estágio de ausência”.
Chegamos ao dia do confronto. Terça feira (martes em espanhol, mardi em francês, martedi em italiano e mangalwar para os hindus) é o dia de Martes, o deus romano da guerra. A ressonância desse dia é para acabar com as pendências, desde arrumar as gavetas até ter a conversa franca que se estava adiando.
Permanecer estagnado em situações não resolvidas é fenecer. Tudo que está ausente já está morto, somente quando colocamos nossa consciência na presença do momento é que podermos desfrutar da brisa saudável da vida. A guerra ou o confronto não são os opostos da paz, a estagnação é que é. Não é possível estar em paz sem dissolver os nós angustiantes daquilo que está pendente, não resolvido.
O conflito não explorado, a pendência não solucionada, a ansiedade não desvelada se transformam em emaranhados internos, que atrapalham o pensar, o agir e o mudar. Para ser livre é preciso resolver-se. Compreender que todo pensamento é vestígio do passado e que para seguir adiante é preciso ir além do pensamento. É preciso vivenciar o que dói para curar.
QUARTA – FEIRA
“Nosso legado s ão raízes e asas”.
Mercúrio tinha asas nos pés e era o mensageiro divino na mitologia romana. E é Mercúrio que nomeia a quarta feira (miércoles em espanhol, mercredi em francês, mercoledí em italiano). É por isso que a ressonância da quarta é a da comunicação. É um excelente dia para ler, estudar, escrever, pesquisar, enfim tudo que está ligado à intelectualidade.
Também é o dia da expressão, do agito, da rapidez, da objetividade. Depois do planejamento da segunda e das resoluções da terça é hora de colocar o bonde na rua e fazer tudo acontecer. Porém, é bom não perder de vista os cuidados consigo mesmo, com o corpo e com a mente. Cuidar da terra e do céu.

QUINTA – FEIRA
“A sabedoria é um estranho caminho que busca conhecer a própria ignorância”.
Quem sabe o único grande propósito em percorrer tantas experiências seja aprender sobre quem somos e o que representamos. Diferenciar o ilusório do real é como desvelar um véu de enganos e deter o fluxo narcótico que nos lança à sensação de uma felicidade sem fim ou de um sofrimento que não acaba mais. A existência é o exercício de ser feliz ou sofrer alternadamente, porém a vida, que á a face perene da transitoriedade da existência, é a compreensão que não há sentido em desejar o elogio ou repudiar a crítica.
Quinta (jueves em espanhol, jeudi em francês) está no arquétipo de Júpiter na tradição greco-romana, o deus supremo, onde repousa toda a sabedoria, a justiça e a força. Para os nórdicos também representa esses valores através do deus do trovão, Thor, que deu origem à thursday em inglês. É momento de recorrer aos princípios da própria espiritualidade e elevar a consciência. As ações de quarta devem ser vistas sob a luz dos propósitos inspiradores de quinta.
SEXTA – FEIRA
“A beleza é o divino habitando a vida”.
Para os nórdicos a sexta é a representação de Freya, deusa da sensualidade (Friday em inglês), assim como está dentro do arquétipo da Vênus romana (viernes em espanhol e vendredi em francês), que inspira tudo que está ligado ao amor, à ??beleza e às artes.
A sexta é o momento de se preparar para o final de semana. Contemplar a beleza, apreciar a arte, afinar o espírito. Mirar-se através de olhos amorosos e perceber o que há de melhor em nós. Os confrontos e conflitos já foram resolvidos na terça. Sexta é o dia da entrega, de saborear a graça divina da vida.
SÁBADO
“A essência transparece na existência”.
Os povos antigos consideravam Saturno o guardião dos limites do universo. É a compreensão do fim de ciclos, como a semana que termina. É o momento do balanço das realizações. É também momento de recolher-se. É o dia do Shabbath judaico, dia do repouso, que gerou o sabbatum romano, que finalmente nomeou o sábado.
É o dia da apreciação meditativa, da ligação com o espiritual que permeia a vida. Temos que nos lembrar que nos tornamos tudo aquilo que evocamos. Sábado é o dia da evocação do mais sublime, do mais justo, da qualidade da tolerância para passar pelos percalços e da aceitação para superar as intempéries.
Daquilo que não pode ser mudado devemos tirar a lição que deve ser aprendida. Nenhuma semente é perdida. Nenhuma primavera jamais deixou de favorecer as flores. Há ciclos que se repetem para os inconscientes, reproduzindo vezes sem fim a mesma seqüência de fatos, até que a gente acorda e salta para um novo ciclo mais amplo na espiral da existência. Pensar é mudar e quem muda cura a si mesmo.
Se prestarmos atenção, cada dia vai representando um movimento especial de ciclos de vida. Se seguíssemos o fluxo da sabedoria dos dias levaríamos nossa existência bem mais alertas, desfrutando cada passo, reconhecendo cada encontro, permitindo que o melhor de nós aflore nas trilhas iluminadas de cada santo dia.
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