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Algumas
pessoas têm me procurado através
deste site solicitando informações
sobre ‘aulas de Tantra’. Como não
sei exatamente o que elas entendem por Tantra,
fico me perguntando como poderia ajudá-las
a encontrar o que buscam, ou a evitar as armadilhas
em que se arriscam a cair.
Para
começar, vamos dizer o que o Tantra não
é. Tantra não é um guru
mequetrefe prometendo orgasmos múltiplos
e iluminação e cobrando mundos
e fundos por isso. Tantra não é
uma prostituta com nome de deusa oferecendo
seus serviços na internet. Tantra não
é um grupo de alienados carentes se excitando
e alisando em nome da hiperconsciência.
Tantra não é sacanagem, nem infidelidade
institucionalizada. Tantra não tem nada
a ver com "soltar a franga". Tantra
não é tara.
Aquilo
que os clones tupiniquins de Osho chamam de
Tantra, não é o Tantra. Os cursos
de Tantra associados à sensualidade,
técnicas sexuais e promessas de iluminação
através da excitação sexual
têm como objetivo sustentar a forma de
vida de certos autodenominados ‘mestres’,
que buscam satisfazer seus próprios desvios
sexuais e desejos de manipular pessoas, ganhando
um dinheirinho de quebra.
Então,
o que significa essa palavrinha de seis letras?
Tantra é o nome de um vasto leque de
ensinamentos práticos que têm como
objetivo expandir a consciência e libertar
a energia primal do ser humano, chamada kundalini.
O princípio comum a todos os caminhos
práticos de Tantra é que as experiências
do mundo material podem usar-se como alavanca
para conquistar a iluminação,
já que este é a manifestação
de uma outra realidade, sutil e superior, que
está conectada com a nossa própria
natureza.
Nesse
contexto, a visão do Tantra associada
ao êxtase sexual é pateticamente
superficial e parcial, se comparada com a verdadeira
tradição. O Tantra não
é hedonista nem orgiástico. O
objetivo do Tantra é o despertar da força
potencial no homem.
Alguém
comentou recentemente que apenas 10% dos textos
tântricos tratariam sobre sexo. Pessoalmente,
acho esse número demasiado elevado. Dos
muitos shastras que consegui garimpar na Índia,
em sânscrito e em inglês, não
têm sequer um que trate em detalhe da
sexualidade. Algumas técnicas sexuais,
como a reabsorção seminal após
a ejaculação (vajroli), se descrevem,
por exemplo, na Hatha Yoga Pradípika.
A
única obra hindu que conheço que
trata sobre sexualidade e como aumentar a performance
é o Kama Sutra, que não é
um shastra tântrico e que, por sinal,
fala muito mais sobre ética do que você
poderia pensar sem ter a obra em mãos
(1).
Embora
existam diversas vertentes dessa tradição,
todas têm o mesmo objetivo e usam as mesmas
ferramentas para atingi-lo: mantras (sons de
poder), yantras e mandalas (diagramas sagrados
sobre os quais se exerce a concentração),
chakras (centros da força vital), práticas
de iniciação e purificação
e um sistema ético que une e protege
o grupo de praticantes. Essa lista de práticas
é necessariamente incompleta, pois os
métodos dessa tradição
incluem um espectro muito amplo de crenças
e técnicas.
Tantra
significa literalmente tecido, urdidura; pode
ser traduzido como ‘espargir o conhecimento’
ou ‘a maneira certa de se fazer qualquer
coisa’, tratado, autoridade, estender,
multiplicar, continuar.
Também
designa o encordoamento do sitar ou outro instrumento
musical. É o nome de um movimento filosófico,
matriarcal e sensorial que toma emprestado suas
principais premissas do Yoga e do Samkhya, herança
e patrimônio da cultura dos rios Indus
e Saraswatí. O culto da Grande Mãe
está presente na Índia desde o
neolítico (8000 a.C.), mas os mesmos
símbolos que o tantrismo utiliza hoje
remontam ao paleolítico (20000 a.C.)
e estiveram sempre presentes ao longo do continente
eurasiano.
O
Tantra assimilou e organizou os rituais da Magna
Mater, transformando-os num método de
emancipação que busca na psique
humana a manifestação da própria
força da Shakti. Esse movimento teve
uma forte influência sobre a religião,
a ética, a arte e a literatura indianas,
havendo ressurgido com inusitada força
entre 400 e 600 d.C., quando chegou a transformar-se
numa moda que acabou por influenciar nos modos
de pensar e agir da sociedade indiana medieval.
Aqui ela se afirma, populariza e estende ainda
mais, dando origem a um grande número
de correntes e manifestações filosóficas,
religiosas, mágicas e artísticas,
algumas antagônicas.
Não
se trata de uma religião nova, senão
de uma nova caracterização de
fatos que pertencem ao hinduísmo comum,
mas que, às vezes, só se apresentam
precisamente em suas formas tântricas.
Percebe-se o selo do tantrismo na mitologia
e na cosmogonia, mas, principalmente, no ritual.
O gérmen se remonta com freqüência
aos Vedas, especialmente ao Atharva Veda, que
pode considerar-se um hinário pré-tântrico.
Jean Renou, El Hinduismo, p. 89.
O
Tantra não pertence à tradição
ortodoxa hindu, já que não existe
um darshana com esse nome. Sua visão
do mundo é herança e síntese
da Índia aborígene e da Índia
vêdica, muito mais antigas do que imaginaram
os estudiosos ocidentais do século XIX.
É uma forma de ver a vida e cada um de
seus aspectos.
Há
diferentes linhas do tantrismo: o Dakshinachara,
linha da ‘mão direita’, ou
de tantrismo branco, se justapõe, através
dos “rituais de compensação”,
ao Vámachara, corrente da ‘mão
esquerda’, do tantrismo negro, corrente
na qual se destaca a escola Kaula, fundada por
Matsyedranatha por volta de 900 d.C.
O
tantrismo negro se caracteriza pelos rituais
de transgressão, como o pañchamakara
(os cinco m), no qual o praticante utiliza a
ingestão de bebidas embriagantes, carnes
e o coito ritual como meios de chegar à
sacralidade. Podemos identificar alguns desses
rasgos no Rig Veda, nas libações
ceremoniais do soma e nos rituais sexuais. No
ritual de compensação do Dakshinachara,
o vinho é substituído por água,
a carne por coco seco, o coito pelo culto da
Shakti, etc.
O
Yogini Tantra (V:14) diz:
Madya,
o vinho, é o conhecimento intoxicante
do Parabrahman adquirido através do Yoga,
que isola o praticante do mundo exterior. Mamsa
não é a carne, mas o gesto em
que o sadhaka consagra todos seus atos à
Shaktí. Matsya, o peixe, é o conhecimento
sáttvico pelo qual o adorador sente compaixão
pelo prazer e a dor de todos os seres. Mudra,
o cereal tostado, simboliza a renúncia
a todas as formas do mal, que conduzem a novos
condicionamentos. Maithuna é a união
da kundalini shakti com Shiva no corpo do adorador.
Um
dos artigos de fé do povo vêdico
era, portanto, que a união sexual conduzia
à bem-aventurança do além
e devia cumprir-se com verdadeiro espírito
religioso para assegurar o bem-estar espiritual,
censurando-se severamente a lascívia.
(S. B. Lal Mukherjí, ensaio em Shakti
y Shakta, de Sir John Woodroffe, p. 83)
A
visão cosmogônica do Tantra, com
suas perguntas essenciais, evidencia uma atitude
especulativa sobre a antropogênese que
a vincula ao Samkhya. A cosmogonia se caracteriza
pela união dos opostos: isto é,
se trata de uma coincidentia oppositorum, conjunção
dos opostos que se complementam. Essa idéia
não é original do Tantra: existiu
em outras cosmovisões ao longo da história
da Humanidade; mas o tantrismo recupera para
si esse princípio, muito mais antigo
que ele próprio.
Esses
dois princípios em coincidentia oppositorum
são Shiva e Shakti. Os rishis, sábios
ascetas do alvorecer do pensamento hindu, chamaram
Brahman ou Shiva o princípio primordial.
Tudo existe em função dele, tudo
é reflexo e evidência da sua realidade.
Não há noção de
criação do mundo nem há
Deus: no plano macrocósmico, Shiva é,
parafraseando Aristóteles, o motor imóvel
do mundo. É o Princípio Imutável
e Eterno, nem ativo nem criador. Ele não
faz nada: apenas é. Sua manifestação
é Shakti, palavra que significa energia
e, por extensão, esposa. Shakti é
a Prakriti, a Natureza do Samkhya, a energia
criadora que provoca a manifestação
do Universo.
Shiva
é inabalável: a ele pertencem
o Ser e a Consciência; à Shakti
correspondem o movimento, a mutabilidade e a
geração. Esses dois princípios
se representam na iconografia do tantrismo unidos
no viparíta maithuna: Shiva aparece deitado
ou sentado, imóvel, enquanto Shakti está
sempre sobre ele, ativa no ato da manifestação.
Esse
modo de pensamento não é religioso,
dogmático ou doutrinário, mas
estritamente especulativo. Dessa maneira, o
Tantra, assim como o Samkhya, se aparta de outras
visões que incluem os conceitos de criação,
divindade, origem do mundo, et coetera.
Contudo,
o Tantra possui uma certa semelhança
com algumas formas de panteísmo: O que
está aqui, está em toda parte;
o que não está aqui, não
está em parte alguma (2). Daí
provém o culto à Natureza e à
feminilidade. Para o Tantra, o mundo tangível
é bem real: ilusório é
pensar que o Ser (Shiva) intervenha ativamente
no Universo manifestado.
Agora,
vamos falar um pouco sobre a parte do Tantra
que se ocupa do sexo ritual. A incompreensão
do Tantra e o simbolismo que o transmite colaborou
para considerá-lo repulsivo, vergonhoso
e digno de escárnio. A preocupação
daquele que condena o Tantra é fruto
da sua própria obsessão com a
questão sexual, que o leva a querer coartar
a liberdade dos demais. Nesse sentido, o tantrismo
é totalmente natural, e a sua abordagem
do sexo não é patológica,
mas absolutamente sadia, de uma espontaneidade
difícil de aceitar para os padrões
da ‘decência’ cristã.
Maithuna,
o ritual sexual, não tem nada a ver com
pornografia ou licenciosidade, muito pelo contrário,
é um instrumento que revela a dimensão
divinal da natureza humana. Entretanto, nos
últimos tempos, têm surgido mestres
inescrupulosos que vendem sexo como se fosse
superconsciência, o que acaba por divulgar
e tornar conhecidas no Ocidente unicamente as
formas mais vulgares e degradadas do Tantra.
O
maithuna é a técnica tântrica
que mais fascina os ocidentais, que com demasiada
freqüência confundem-na com uma indulgência
para com os apetites sexuais, em vez de vê-la
como meio para dominá-los.
(Daniel Goleman, A Mente Meditativa, p. 98)
Enquanto
alguns buscam a elevação através
da repressão ou da eliminação
do desejo sexual e suas raízes (samskaras),
para o tantrismo a sua utilização
é condição básica.
O homem deve evoluir executando as mesmas ações
que causam a sua perdição. Assim,
afirma o Kularnava Tantra:
Quando
caímos no chão, é com o
auxílio do chão que nos levantamos.
Pelo
próprio fato de não se tratar
de um ato profano, mas de um rito, no qual os
participantes não são mais seres
humanos senão que estão ‘desprendidos’,
como deuses, a união sexual não
participa mais do nível kármico.
Os textos tântricos repetem com freqüência
o adágio: ‘pelos mesmos atos que
fazem com que muitos homens se queimem no inferno
durante milhões de anos, o yogin obtém
a salvação eterna’. (...)
O jogo erótico se realiza num plano transfisiológico,
porque nunca tem fim. Durante o maithuna, o
yogin e sua náyiká (4) incorporam
uma ‘condição divina’,
no sentido de que não somente experimentam
a beatitude, senão que podem contemplar
diretamente a realidade última.
(Mircéa Éliade, El Yoga. Inmortalidad
y Libertad, pp. 194, 197)
(1) Recomendo
a tradução de Alain Daniélou,
The Complete Kama Sutra, Park Street Press,
Rochester, Vermont.
(2) Vishwasara
Tantra (citado por Sir John Wodroffe, Shakti
y Shakta, p. 216).
(3) Indrabhuti,
Jñanasiddhi, 15.
(4) Nayika: heroína,
mulher nobre, shakti. Uma das formas de Durga.
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