SER MONJA

 

Monja Coen
     
 

     O que é ser uma monja? É ser. É servir. É meditar. É orar. É aprender. É ensinar. É praticar o Darma. É transmitir o Darma. O que é o Darma? A lei verdadeira. Ensinamentos de Buda. Quem é Buda? Onde está o ser iluminado? Onde está a mente iluminada?

     Ser monja é questionar. E questionar. E questionar. Até se tornar a questão e romper as barreiras entre o eu e o outro.

      Ser monja é fazer parte de uma tradição hierárquica patriarcal antiga. É modificar essa tradição com nossa prática de vida.

      Ser monja é seguir o caminho de Buda. É usar roupas antigas, de muitos panos. Vestir o manto de Buda. E sua pele se tornar o manto, o próprio Buda.
Fazer o que Buda fez. Falar o que Buda falou. Permitir que Buda se manifeste. É percepção consciente. Inspirar e expirar. É entregar sua vida ao Darma de Buda.

      É descobrir o contentamento irremovível, a alegria indes­critível de poder fazer o bem a todos os seres. É passar anos em um mosteiro japonês, sem entender e sem ser entendida, para descobrir que ser água é ser macia, ser bambu é ser flexível.

      Ser monja não é exigir. É servir, é andar descalça na neve pedindo esmolas. É ter os dedos queimados pelo frio, é dor. É ser incompreendida e compreender. É ser só e nunca estar só.

      É comer o que é dado, sem pegar mais do que gosta e menos do que desgosta. É dormir pouco. É ser discriminada e excluída. É ser amada e incluída. É acender incensos e velas. Oficiar casamen­tos e bodas. Oficiar enterros e missas. É fazer zazen. Dar palestras. Ler. Limpar banheiros e varrer ruas. É caminhar zen nos parques.

      Ser monja é acreditar na transformação mental. Acreditar que outro mundo é possível. É tornar possível outro mundo neste mundo. Nirvana, paz, tranqüilidade nesta vida - em vida.

      Ser monja é raspar a cabeça, cortar as unhas, não usar perfumes.

      Ser monja é não discriminar. É falar contra o racismo, o exclusivismo. E participar de encontros inter-religiosos. Dar as mãos. Formar redes. Entregar-se à coerência dos valores em que acredita. É satisfazer-se com pouco. É não ter rancores nem ódios. É pedir o fim da violência, das injustiças.

      Ser monja é morrer no caminho. É entregar-se ao sagrado. E cuidar, ouvir e enxugar lágrimas. Encorajar. Jamais desistir. É ter fé em Buda, na iluminação. É ter fé no Darma, a verdade, e em suas leis corretas.

      É ter fé na Sanga, a comunidade dos praticantes - irmãos e irmãs de vida consagrada. É manter os preceitos: não matar, dar vida; não roubar, compartilhar; não abusar da sexualidade, respeitar; não mentir, manifestar a verdade; não negociar intoxicantes, desintoxicar-se de idéias e de tudo o que afasta do verdadeiro; não se elevar nem rebaixar os outros, ter humildade; não falar dos erros alheios, mas falar das causas benéficas; não ser movida pela ganância, mas cuidar; não ser movida pela raiva, mas compreender; não falar mal de Buda nem do Darma ou da Sanga, mas tornar-se essas "três jóias".

      Ser monja é não fazer o mal. É fazer o bem a todos. Poder dizer e acreditar: "Eu e todos os seres da grande Terra, simultaneamente, nos tornamos o caminho".

     Ser monja é ser monja. Coragem, dedicação, entrega, alegria, contentamento, fé, deslumbramento, ternura, compreensão, sabedoria, compaixão, cuidado terno e amoroso com toda a criação. Manter a mente de não-saber, sem preconceitos, aberta ao novo. Testemunhar e entregar-se à realidade. Agir para transformar, sem jamais ferir ou violentar.

      Ser monja é ser. Ser monja é interser. Ser monja é perceber que não sabemos nada e ainda assim o Darma é.

     Mãos em prece.


 
 
 

Autor:
Monja Coen
Fonte:
Livro - Sempre Zen
Editora:
Publifolha