SÃO PAULO FASHION ZEN


     
 

     Nem Federico Fellini teria pensado numa imagem tão surreal: uma Monja zen budista na primeira fila do desfile de Lino Villaventura.

     A causadora de tanta “estranheza” é a Monja Coen, a primeira mulher e pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, que veio ao evento à convite do SPFW Journal. Sentada com os pés juntinhos, mãos descansadas sobre os joelhos, cabeça raspada e uma roupa muito simples de algodão branco, a Monja iluminada (sem a necessidade dos holofotes) chamou a atenção da imprensa e dos convidados.

     “Achei muito interessante participar desse grande evento. Em minha vida inteira eu nunca tinha pensado em como seria algo assim. É muito diferente do meu meio, mas me senti muito honrada por poder observar a coleção, as modelos, as pessoas que entraram com convites, as que ficaram do lado de fora e que dariam tudo para entrar, esse fantástico cenário de papelão reciclável… Vendo o desfile me veio à mente o conceito de “interdependência”, muito usado no budismo. A interdependência pode ser compreendida como a ligação que existe entre todas as pessoas e coisas no mundo, ou seja: para criar esses lindos vestidos foi preciso que um agricultor plantasse o algodão, que outro colhesse, que alguém transportasse, que mais um fabricasse o tecido que uma costureira transformaria baseada no desenho feito pelo estilista, que uma moça desfilasse, que os fotógrafos o clicassem… Enfim, somos todos parte de uma cadeia, da maravilhosa rede da vida. Do moço que carrega o balde para limpar a passarela ao idealizador do evento, todos somos o São Paulo Fashion Week. Não há separaração e todos estão se beneficiando, até os catadores de papel ao final. Há um texto muito bonito no budismo (Mestre Eihei Dogen) que diz: “Quando a velha ameixeira desabrocha, o mundo inteiro desabrocha. Quando o mundo desabrocha, a primavera chega e incontáveis flores desabrocham”. Que ameixeira antiga é essa? O universo inteiro contido em uma pétala suave, delicada, branca, macia, perfumada. Cada pétala um universo completo.

     A moda tem muito significado, não a vejo como superficial. Ela revela o que estamos sentindo, nosso interior. Acho que os estilistas têm uma grande responsabilidade quando criam a moda, porque centenas, milhares de pessoas vão aderir a ela, muitas vezes até as crianças.

     Existe um provérbio que diz: “o hábito não faz o Monge”. Será? Ninguém imagina, mas um Monge budista também tem sua moda. Nós também temos que escolher os tecidos para nossas roupas, geralmente muito simples e baratos, mas às vezes até sofisticados dependendo do ritual a fazer, assim como os Papas, os Franciscanos, os Rabinos, os Padres, o Dalai Lama (budismo tibetano) etc.

     O mundo precisa de mais beleza. Acho que as pessoas deveriam fazer mais arte-viva, como os estilitas, para alegrar mais a vida. O belo faz bem. Nós gostamos e apreciamos as árvores, o pôr do sol, o céu azul com suas nuvens… Acho fantástico trazer esse sentimento também para as roupas. Temos que estar sempre revendo o nosso conceito de beleza para que o maior número de pessoas tenha acesso a ela. Mas é preciso tomar cuidado com a vaidade. Quando não podemos viver sem elogios e ficamos arrasados quando alguém nos critica, significa que a vaidade nos aprisionou, quando o sentido da vida justamente é a libertação.

      Quanto ao desfile que assisti, gostaria de usar uma expressão muito usada no Japão. Quando os japoneses gostam muito de uma coisa eles fazem círculos com a mão. Então, vou dizer que achei o desfile do estilista Lino Vilaventura… redondinho!”.

 
 
 
Fonte: http://www.monjacoen.com.br/