SAIA DO CARRO - AGORA VERSUS IMAGINAÇÃO


Arthur Jean
     
 

Colocar o que você gosta contra o que não gosta -
esta é a doença da mente.
SENG-TSAN

      Logo no começo de minha carreira na indústria cinematográfica, trabalhei como assistente de produção de um vídeo musical, em Pasadena, na Califórnia. Eu tinha acabado de me formar, estava duro, e não conhecia o ensinamento do dharma. Parte do meu trabalho era chegar até a locação e destrancar o portão, para que a equipe entrasse às 5 horas da manhã.

       Bem, a pilha do meu despertador acabou e eu dormi demais. Acordei de um pulo e saí de casa às 4h45 para enfrentar um trajeto de 45 minutos a toda velocidade, ou seja, dirigindo a cerca de uns 150 quilômetros por hora. Foi o que o guarda disse quando me parou. Por mais que explicasse a situação, não houve jeito. Ele escreveu a multa bem devagar: 148 dólares e eu ganhava exatamente 150 dólares por jornada de trabalho.

       O dia estava claro e quente. Filmamos num lindo jardim de rosas. Minhas obrigações eram leves e interessantes, e o diretor, organizado e educado. Não podia haver trabalho de produção melhor. Até a música era bonita.

       Mas eu estava vivendo no inferno.

      Só pensava na multa por excesso de velocidade. Com aqueles pensamentos recorrentes: devia ter trocado a pilha do despertador, não devia ter excedido a velocidade permitida na estrada. Trabalhei aquele dia todo em troca de 2 dólares, embora precisasse do restante para coisas básicas. A pontuação adicional iria para minha ficha, com risco de perda da carteira de habilitação. Minha cabeça não parava. Eu estava ali no paraíso, aprendendo uma profissão, cercado de pessoas criativas, mas sentia-me miserável. Estraguei meu tempo pensando nas perdas do futuro.

       Trinta dias mais tarde fui a julgamento pela multa, mas me dispensaram, porque o policial não apareceu.

       Essa foi uma importante lição para mim. Toda a preocupação e a ansiedade - tanto com o que podia ter feito antes, como com o futuro - me fizeram perder um dia lindo. O que realmente aconteceu, quando o guarda me multou? Naquele momento, ele só me deu um pedaço de papel amarelo. Esta foi a realidade da minha experiência direta. O dinheiro não saiu da minha conta. O julgamento sequer aconteceu. Nada mudou na realidade.

       Outros veriam o mesmo evento de outra forma. Quem sabe o guarda tenha me parado logo antes de um horrível acidente acontecer. Ele talvez tenha me salvado de um futuro funesto, com o qual nem estava preocupado. O jogo do "se" funciona para os dois lados, positivo e negativo. Nos dois casos tudo está na cabeça.

       Ver claramente é esquecer o nome das coisas que vemos. Se não rotularmos imediatamente o mundo que processamos, temos uma experiência mais direta, vemos com maior clareza e sofremos menos. Veja o que é realidade. Veja o que é imaginação. Esqueça de rotular o que você "gosta" e "não gosta" o que é "ruim" e o que é "bom". Veja a realidade despida de projeções sobre o passado e o futuro. Veja com tal cons­ciência que você vivencie movimento, cor, forma, som e gosto, sem rotular nada.

       Apenas agora.

       Somente a experiência da forma amarela que o guarda me deu.

       Todo o resto é acessório.

       Todo o meu estresse foi por causa de um futuro que nunca aconteceu, uma total perda de vida. No presente tudo estava perfeito. O pesadelo residia na minha imaginação sobre o futuro.

 
 
 

Autor:
Arthur Jean
Fonte:
Livro – O inferno são os outros