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Será
que conseguimos ficar em silêncio até
que nossa mente esteja tranqüila? Podemos
aguardar até que as palavras corretas
venham, aquelas que não magoam e são
honestas? O que são palavras honestas?
"Enquanto
tivermos a menor intenção de ter
razão, de mostrar ou ensinar algo ao
outro, precisamos nos acautelar. Enquanto nossas
palavras tiverem ligação com o
ego, serão desonestas. As palavras verdadeiras
saberão se dizer na nossa aquietação."
Joko Sensei,
minha primeira mestra zen, falava calmamente,
mas era enfática. Tinha grandes olhos
azuis, cabeça raspada. Tinha mais de
60 anos, acredito. Interessante.
Eu não
poderia catalogá-la ou encaixá-la
nos padrões comuns. Vestia-se de negro,
com o manto monástico, e usava um anel
no terceiro dedo de sua mão esquerda.
Ou seria a direita? O tempo nos faz esquecer.
Procurando
na memória, a primeira imagem é
o nosso encontro individual. Estava em Los Angeles,
na Califórnia.
Eu trabalhava
no Banco do Brasil como recepcionista e, mais
tarde, secretária. Depois de descobrir
o zen, todas as manhãs, antes do trabalho,
participava da meditação das 5h20.
Eram dois períodos de 35 minutos, intercalados
por cerca de cinco a dez minutos, durante os
quais caminhávamos lentamente. Voltávamos
a sentar, de frente para a parede. Havia 30
ou mais pessoas na sala. Não nos olhávamos,
não nos falávamos.
Depois, éramos
convidados a ter uma entrevista com um dos professores.
Havia vários, mas Joko Sensei era minha
orientadora.
Eram agradáveis
esses encontros. Muitas vezes, bastava olhar
em seus olhos e toda a minha fantasia sobre
mim desaparecia.
Um raio de
luz entrava pela janela. Janela da sala. Janela
da mente. Quantas vezes entrei nessa sala de
entrevistas. Essa sala poderia ser qualquer
espaço. Nenhum valor poderia descrevê-la.
Em qualquer lugar que fosse, bastava que Joko
Sensei estivesse ali, silenciosa e calma, para
que a sala se tornasse o local do encontro com
a verdade, a honestidade, a simplicidade, o
conhecimento.
E como é
difícil sermos honestos conosco mesmos.
Um antigo mestre zen, Sawaki Kodo Roshi, que
havia servido o Exército japonês
durante a guerra e depois se dedicara a ensinar
a meditação por todo o país,
dizia que meditar era apenas o eu com o eu.
Estamos mais
acostumados a conversar com outras pessoas,
a nos distrairmos com televisão, cinema,
teatro, música, literatura e Internet.
Os intelectuais gostam de intelectualizar. Os
professores gostam de ensinar. Mas, ser capaz
de ganhar alguns momentos todos os dias, de
estar apenas o eu com o eu é a proposta
instigadora do zen.
Algumas pessoas
têm medo da solidão. Correm para
festas, centros movimentados de compras, danceterias,
sem perceber que muitas vezes estão mais
sozinhas.
Outras têm
medo de gente. Querem se esconder e se assustam
com a quantidade de seres que habitam cada um
de nós.
Sentar-se
com a coluna ereta, uma parede lisa. Respirar
e deixar que tudo se assente naturalmente, como
um copo de água e terra. Se o copo for
deixado quieto, em alguns minutos a terra fica
no fundo, e a água, em cima. Assim acontece
com a nossa mente.
A mestra Zen
Joko me dizia: "Aquietando-se a mente,
a palavra verdadeira surge. A verdade se torna
clara e límpida. Não aquilo que
chamamos de verdade. O verdadeiro que nem sempre
é o que pensávamos ou queríamos
que fosse. Mas o que é, como é".
Joko Sensei
me ensinava a entrar em contato com minhas emoções
e sentimentos. Perceber o medo, a raiva, sem
mascarar. Não é fácil.
É um processo contínuo e ininterrupto.
Falar sem magoar ou ofender, sem mentir e enganar.
Pensar de maneira a compreender o que está
acontecendo, sem absolver, perdoar ou condenar.
Agir percebendo em cada ser o sagrado.
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