O que os olhos não vêem


Marcelo Palma
     
 

     São Paulo, 18 de Janeiro de 1921.

     Uma cidade repleta de fazendas, que cultiva plantações, entrelaçada por suas formosas ruas de terra e cortada por um enorme, sinuoso e límpido rio. E foi nas margens desse rio, após um renovador banho, que Inácio - no auge dos seus 16 anos - confrontou-se com um ser iluminado que podia ser nitidamente visto, porém, também era possível enxergar através dele.

      Aquele buda olhou nos olhos de Inácio e disse:

      - Sabia que esse rio em poucos anos estará totalmente sujo?

      - Sujo de que? – Indagou Inácio.

     - De cocô, xixi, resíduos oleosos, produtos químicos, pneus, sofás, geladeiras, cavalos, entre muitas outras coisas.

      - Quer dizer que em poucos anos ninguém mais poderá tomar um banho nessas águas?

      - Pior que isso Inácio. Se alguém cair acidentalmente no rio, poderá morrer de infecção.

      - Por que vai acontecer isso com esse rio maravilhoso? –  Perguntou Inácio mais uma vez, com ar de espanto.

      - Porque a cidade de São Paulo vai receber um grande projeto de geração de energia elétrica. E a energia será gerada pelas obras que serão feitas exatamente nesse rio. O ser humano irá retificar o rio, ou seja, esses charcos que se formam nesse sinuoso rio irão acabar; serão instaladas duas usinas para mudar o curso natural do rio, que fortalecerá a queda d´água para gerar energia elétrica em abundância.

     - Espera ai. Não estou entendendo. O que tem a ver uma grande quantidade de energia elétrica com a destruição do rio?

      - Você ainda estará vivo para ver com os próprios olhos! Com bastante disponibilidade de energia elétrica, muitas indústrias se instalarão nessa região, e por consequência, muitas pessoas também virão atrás de emprego. Essas indústrias fabricarão principalmente produtos cheios de embalagens que não são essenciais para o bem estar da humanidade. Entretanto, o sistema será tendencioso para que as pessoas sintam necessidade de consumir, consumir e consumir. Só que para essa produção atender uma população, que será de mais de 18 milhões de habitantes daqui a 60 anos, muitos produtos químicos, lixos de todos os tipos, e excreções humanas serão despejados sem dó dentro do rio. Além disso, os únicos acessos terrestres para entrar e sair da cidade serão justamente em vias expressas  construídas em suas margens, onde milhares de carros, motos, caminhões e ônibus circularão 24 horas por dia. Inclusive estas vias serão conhecidas como vias marginais.

      - Mas, as fazendas do meu pai, do meu tio, do Genaro, do Bernabão, da Maria Sofia, do Zé Teodoro e do Tião Viana são justamente nas margens do rio. Quer dizer que passarão caminhões bem onde estão as fazendas?

      - É uma coisa difícil de imaginar, não é Inácio?

      - Sim, praticamente impossível.

      - Faça o seguinte – orientou o buda – diga para todo mundo que conhecer o que eu te disse que vai acontecer com a cidade e com o rio. Amanhã, depois do seu banho, aparecerei por aqui novamente.

      Inácio voltou para casa, a princípio intrigado com a visão de um ser vivente que aparecera de repente, juntamente com a mensagem que lhe trouxe. Passou pelas fazendas de todos os conhecidos, conversou com os lavradores e com todos os familiares em sua casa. Todos ouviram, desacreditaram e ainda o tacharam como louco.

      O dia seguinte amanheceu e clareou de forma esplêndida, refletindo a luz do sol nos charcos sinuosos com a paisagem exuberante de uma vida simples abençoada pela sincronia da natureza. Inácio caminhou calmamente para o mesmo local em que encontrou o ser iluminado. Parou um pouco antes de se banhar, imaginou o cenário que para ele foi descrito. Achou que aquilo seria impossível de acontecer e concordou mentalmente com todos que conversou.
Respirou profundamente e deu um gostoso mergulho sentindo a água acariciar seu corpo, daqueles que o líquido escorre um pouquinho bem suavemente para dentro das narinas, passando pela garganta com um gosto doce. Inácio pensou alto:

      - É impossível conseguirem poluir essa quantidade enorme de água. Tudo aquilo foi mesmo uma alucinação. Todos estavam certos.

      Quando Inácio saiu da água, o buda já estava flutuando sobre um arbusto da mata ciliar. Olhando para ele, perguntou:

      - E ai Inácio? O que as pessoas acharam da profecia?
      - Isso tudo é uma loucura, impossível de se acontecer! É uma alucinação tão grande quanto você! Saia da minha vista, por favor!

      O buda simplesmente desapareceu e retornou para a sua dimensão. Se encontrou com outro ser iluminado e contou-lhe a seu diálogo com Inácio.

      Chegaram à conclusão de que o ser humano, enquanto acreditar somente no que consegue ver e dimensionar, a destruição generalizada da natureza aumentará até se extinguir. O outro ser iluminado disse ao buda:

     - Experimente descer na Terra em 2009 e dizer para as pessoas que em pouquíssimo tempo não teremos mais recursos naturais. Poucos vão realmente acreditar e mudarão hábitos pessoais a favor disso. Posso dizer que só acreditarão aqueles que já não tem água limpa e nem alimento. Enquanto as pessoas tiverem água saindo de suas torneiras, enquanto conseguirem comprar seus alimentos e respirar sem máscaras, poucos se importarão.

      - Pois é. Os espíritos que viverem na situação do caos, no período próximo ao fim desse ciclo, terão uma grande oportunidade de evoluir ao oferecerem apoio e compreensão, inclusive aos que só enxergam o que os olhos físicos os permitem ver. 

      - Bom – Disse o segundo iluminado – Vamos dar uma passeada pelo planeta Zuankonitsava, da galáxia Nakária. Quem sabe aquelas espécies estão aproveitando melhor a oportunidade.

      E assim, os dois saíram juntos, volitando (volitar é um termo espírita usado para definir o vôo, o deslocamento espiritual) em direção à Nakária.

 
 
 

Autor:
Marcelo Palma
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