Mulheres no budismo


Monja Coen
     
 

     "Qual é a dificuldade em ser mulher quando a mente está concentrada e a compreensão é clara e brilhante?". Essa frase é de Soma, uma das discípulas de Buda.

      No princípio, Xaquiamuni Buda se recusou a atender o pedido de Mahaprajapati e das 500 mulheres que a seguiam. Ele dizia que as mulheres não poderiam abandonar suas famílias para seguir a vida de mendicantes, como os monges faziam. Elas não desistiram. Cansadas, sujas, maltrapilhas, com os pés sangrando, elas o seguiram e imploraram para serem aceitas. Finalmente, Ananda, assistente de Buda, intercedeu por elas.

      - Senhor, se todos os seres pedem obter o mesmo estado de Buda, por que não ordenar as mulheres?

      Xaquiamuni Buda cedeu. Afinal, Mahaprajapati era sua tia, irmã de sua falecida mãe. Ela o criara como filho. Não tomou a decisão só por essa intimidade, mas pela coerência de seu próprio ensinamento: "Todos os seres, sem exceção, são capazes de obter a mais elevada iluminação, a sabedoria e a compaixão superiores. Basta que pratiquem o caminho de Buda".

      Assim, desde o início do budismo, as mulheres puderam entrar na ordem monástica. Embora houvesse algumas regras especiais, hoje consideradas decorrentes da posição das mulheres nas sociedades antigas, elas foram respeitadas como verdadeiras praticantes do caminho. Isso aconteceu na Índia, há cerca de 2.600 anos.

      Atualmente, as monjas, no Japão, podem realizar casamentos, enterros e ordenações, da mesma maneira que os homens. Há, entretanto, algumas ordens em países do sul da Ásia nas quais a posição das mulheres ainda não é de igualdade.

      Somos todos diferentes, com certeza. Homens e mulheres. Homens e homens. Mulheres e mulheres. Crianças, adolescentes e idosos. Homossexuais, heterossexuais e bissexuais. Não há duas impressões digitais iguais. Não há dois seres iguais. Mas todos devem ser igualmente respeitados como manifestações da vida no universo.

      O legado das primeiras mulheres budistas é o de que qualquer pessoa pode e deve ser a sua própria luz. Isso significa questionar todos os níveis de materialismo, consumismo e agressões violentas.

      Cada um de nós pode atingir a compreensão superior e brilhante, a verdade mais elevada. Podemos ser uma clara e límpida manifestação dessa verdade, mantendo a coerência em nossos atos, em nossas palavras e em nossos pensamentos. Essa compreensão nos leva ao "interser", à percepção da teia de relacionamentos de que é feita a própria vida, e, assim, leva-nos também a respeitar a vida em suas diversas formas.

      Podemos transformar o mundo. Não pela violência ou pelas guerras, mas por meio da não-violência ativa, do diálogo, da compreensão. Podemos transformar por meio do feminino em cada ser, do cuidado amoroso e terno.

      Também no budismo, a história das mulheres é fragmentada. Foi, como toda a história da humanidade, escrita e recontada por homens, sob um prisma de guerras e conquistas. Mesmo assim, podemos reconstituir a importância que muitas mulheres tiveram ao participarem de grandes transformações sociais, políticas e econômicas, sem violência.

      A história da humanidade não foi apenas de violência. Muito mais do que se escreveu foi vivido. Muitos conflitos foram resolvidos de forma diplomática. Assim é a história das mulheres. Quantas ficaram anônimas e esquecidas nos anais masculinos?

      O que se reverencia no budismo não é o gênero, masculino ou feminino, mas a mente iluminada, anterior às discriminações, capaz de incluir todos os seres na grande ternura da acolhida suprema.

 
 
 

Autor:
Monja Coen
Fonte:
Revista da Hora, 7 de março de 2004