|
Revista - A pessoa zen também sente irritação e raiva? Monja Coen - Claro! Raiva faz parte do ser humano. O que muda é a forma de lidar com ela. Ao invés de ter gritar, ter um ataque, passeia perceber o que a raiva provoca no nosso organismo, a taquicardia, a ansiedade. Raiva é humana, não é errado senti-la. Ela possibilita treinar a paciência. Há coisas quem e deixam muito indignada. Veja o que está acontecendo com os monges de Mianmar. A raiva alavanca a transformação do mundo, motiva uma ação, mas essa ação deve ser amorosa, nunca violenta. Justifica-se a raiva daquele que se defende da raiva? Praticamos a meditação para desenvolve a plena atenção, a capacidade de discernimento. Posso compreender a pessoa enlouquecida pela raiva que me insulta, o que não significa que eu a desculpe. Quando você está alerta, percebe a raiva, mas não quer retro-alimentar as energias prejudiciais. Cada erro, se bem trabalhado, leva para mais perto do acerto. Tolerância não é sempre confundida com passividade? Tive um professor que dizia 'quero ser bem bobo'. É isso, não interessa ser o espertinho. Alguém diz: 'olha que bobo, não reage'. Devo reagir de modo amoroso, mas não para provocar. Durante um casamento conturbado, ouvi o conselho: 1 na tensão,junte as palmas das mãos, mas mentalmente!' Não seja tolerante só para provocar mais. Compreenda as verdadeiras razões que motivar n a raiva. Todo mundo ensina, alguns nos mostram como não devemos ser. Com a vida monástica meu coração mudou. Não me importava ser vista como boazinha, mas, sim, fazer o bem. E deixar os rancores do passado. “A alavanca a transformação no mundo, provoca uma ação”. É ruim falando passado? Muitos religiosos não falam dos romances sofridos que viveram, dos trabalhos que tiveram. É como se houvesse um corte a partir da vida religiosa. Digo que quis ser freira aos 13, me casei ao 14, me separei aos 17. Minha mãe dizia que eu era 'o filho homem', me comparava aos primos (Sérgio Diase Arnaldo Antunes da banda Os Mutantes). Fui uma das primeiras mulheres a ter moto aqui, fazia reportagens com ela para o Jornal da Tarde. Você entrevista tanta gente, saído seu mundo, percebe tantas carências. E dói Senti que precisava fazer algo ou não teria paz. Um dia escrevi sobre uma comunidade budista na Califórnia Tempos depois me mudei para os EUA O passado da senhora ficou bem-resolvido? A saudade que senti da minha filha não ficou bem resolvida. Saudades do tempo que não fui mãe e ela não foi filha. A menina tinha 7 anos quando me mudei para a Europa Depois, passei 12 anos no Japão, vim ao Brasil cinco vezes. O chamado era tão forte que tive de ir. Se ficasse, teria sido péssima mãe. Foi preciso passar por tudo isso para minha transformação. Sofreu discriminação por não ter origem oriental? Ao voltar do Japão, ouvi de uma senhora: 'aqui não é templo de uma mulher'. E, além de ser mulher, era vista como 'a estrangeira' por não ser de família oriental. No Japão também foi assim me casei com um monge 18 anos mais novo, um escândalo. Em outros momentos, fui criticada por me expor à mídia Dizem que distorcemos que dizemos - e às vezes é verdade. Por ter sido repórter, acho que muitas vezes a intenção não é má. Por
falar em distorção, li que a senhora já foi presa... E fiquei cinco meses presa. São
Paulo pode ser zen? A Monja Coen – Nasceu Claudia Dias Batista de Souza. Tem 60 anos e foi ordenada em 1983. É missionária oficial da tradição Soto Shu – Zen, onde completou seus estudos. Por Giuliana Reginatto
|