| Minha
mãe morreu lenta e suavemente. Era uma tarde
quente. Sentada na poltrona de repouso, respirava mais
leve do que nunca. Eram duas inspirações,
duas expirações e uma pausa. Parecia um
pequeno pássaro. Naquela manhã, estava
quente e a transpiração dela foi diferente.
Algo mudara na química de seu corpo. Minha mãezinha.
Como árvore antiga,
ela se enrugou e a sua pele ficou manchada. Já
não falava, não sorria, não me
via. Será que me escutava? Acho que sim. Havia
dias que não comia nem bebia mais nada O pré-morte
é assim. Li nos textos de pessoas que trabalham
com pacientes terminais e fui orientada pelos geriatras.
Um amigo, seguidor de
Alan Kardec, ao saber de seu estado, congratulou-me,
pois minha mãe se desligava do plano material,
vivia de luz e à luz se reintegraria. Fiquei
mais tranqüila.
Sempre questionamos se
nossa decisão foi a melhor. Quando mais jovem,
mamãe pedira que não a deixasse morrer
em um hospital. Foi feita a sua vontade baseada em critérios
médicos e familiares. Aos poucos, foi se desligando
da vida.
Um período
O mestre Eihei Dôguen
(Japão, 1200-1253) escreveu: "A vida é
um período em si mesma. A morte é um período
em si mesma". A vida de minha mãe terminou
no dia 20 de janeiro, às 14h. Depois de a acariciar
e dizer que todos os anjos e os seres benfazejos a aguardavam.
Um portal lindo se abria de luzes e ternura, lá
estavam parentes e seres iluminados abrindo portas para
acolher Branca Dias Baptista, minha mãe.
Depois de semanas, ela
abriu os olhos e sorriu levemente. Ou seria minha imaginação?
Minha irmã mais velha e uma de suas filhas entraram
no quarto. Saí comentando que mamãe nos
ensinara a viver e agora nos ensinava como morrer.
Poucos minutos depois,
minha irmã veio me chamar. Ela não respirava
mais. Mas, se não mais inspirava, agora me inspira
a escrever com saudades e ternura a gratidão
infinita pela vida, pela educação, pelos
cuidados.
A morte de minha mãe
começou nesse momento, como o inverno depois
do verão ardente. Que perdoe as aflições
e as preocupações que eu possa ter causado.
Nascimento, infância, namoros, profissões,
trabalhos, desempregos, viagens, casamentos, separações,
discussões, reuniões, "filha-neta",
monja "Tantas vidas em uma só vida",
dizia-me.
Respeite
a vida
Hoje, escrevo a vocês,
que me lêem, talvez comovidos, para que cuidem
bem de quem está a seu lado. Respeitem a vida,
a diversidade da vida. Porque nunca sabemos quem deixará
de inspirar primeiro. Aprecie sua vida.
Inspiro verdade sábia,
compaixão ilimitada, e ofereço os méritos
de minha prática, de nossas vidas, para que minha
mãe amada atinja o reino da luz.
Descanse em paz, merecida
senhora, valente abridora dos caminhos, que, livre,
viveu, e livre morreu, retomando à fonte de onde
tudo começou, começa e começará.
Incessante atividade vital.
Que todos o seres se beneficiem
de todas as esferas da existência, e da não-existência,
com o período de vida e o período de morte
de Branca, minha mãe. Que todos possamos nos
tornar o verdadeiro caminho iluminado, fazendo sempre
o bem a todos os seres.
|