Mestres mequetrefes e gurus de verdade


Pedro Kupfer

     
 

      É impossível negar a influência que o Yoga tem hoje em dia sobre centenas de milhares de ocidentais. Estrelas de Hollywood, pop stars e atletas famosos estão voltando seus interesses para esta prática que surgiu em tempos neolíticos na Índia. A descoberta de si próprio está na moda!

      Podemos ver que uma nova consciência está surgindo, ao menos em algumas partes do planeta. Esse movimento, que acarreta o nascimento de inúmeras entidades encarregadas de divulgá-lo, responde a uma demanda real da sociedade. Estamos com sede de nos conhecer. Queremos saber quem somos. Queremos tirar o véu.

      Entretanto, em meio ao verdadeiro labirinto configurado pelo conjunto das entidades que se ocupam do ser, existem duas vertentes: por um lado, grupos ou pessoas realmente interessados e empenhados em achar um sentido verdadeiro para suas vidas. Por outro, aquilo que o professor Hermógenes definiu como "o mercado de falcatruas do Yoga", a tal da fast food espiritual de que falava o lama Trungpa Rinpoche.

      A sociedade ocidental oferece um caldo de cultivo muito propício para que isto aconteça: o ritmo de vida que impõe a cidade acaba nos impondo a necessidade de achar um refúgio seguro dentro de nós mesmos. Ou perdemos a razão ou perdemos a felicidade. Ou fazemos alguma coisa para tentar ficar com ambas.

      Dentro desse labiríntico mercado há pessoas muito bem intencionadas, mas que são as menos visíveis, já que, não estando movidas pela sede de enriquecimento ou promoção pessoal, acabam sendo sepultadas pela publicidade enganosa dos falsos mestres e gurus, impostores, oportunistas e atravessadores de conhecimento de segunda mão.

      É preciso andar com muita atenção neste labirinto para não se perder. É preciso perseverar, mesmo que por momentos seja difícil. A mente fica o tempo todo inventando desculpas para ficar pulando de galho em galho, de técnica em técnica. Enraizar-se firmemente no chão é importante na hora do vendaval da moda espiritual. O ditado sufi diz que não se podem cavalgar dois cavalos ao mesmo tempo. Escolher uma disciplina e perseverar nela é fundamental.

      Algumas partes do labirinto são um pântano onde os crocodilos canibais, prestes devorar o buscador desavisado são: os falsos mestres e suas lavagens cerebrais, os instrutores despreparados, os livros sem conteúdo, os ensinamentos adulterados, o marketing vazio e a mentira institucionalizada.

      O falso mestre se apresenta em todos os casos como a única solução possível à charada da existência. O mestre verdadeiro não precisa ficar dizendo que ele é um mestre verdadeiro. O mestre verdadeiro ensina que o verdadeiro mestre é o próprio coração do praticante.

      Para não se perder no pântano, é importante ter como referência a imagem de um mestre de verdade, um guia que nos ajude e oriente na busca. Algumas pessoas, por falta de humildade ou pelo tamanho dos músculos do ego, têm dificuldades para aceitar a idéia de ter um mestre. Porém, se tivemos mestres durante os estudos, porque não tê-los na busca interior?

      Considerando a sociedade de consumo, e a filosofia pegue e pague, pode parecer fácil achar um mestre. Porém, esta porca tem mais uma volta. Se diz que, quando o discípulo está preparado, o mestre aparece. Isto acontece porque, num dado ponto do caminho o estudante acaba por entrar na sintonia vibratória do mestre.

      Um mestre verdadeiro não é necessariamente alguém muito visível, muito rico ou de muita relevância social, mas apenas uma pessoa que transcendeu o ego, simples e respeitosa em suas atitudes, que não busca a autopromoção e a publicidade nem cobra taxas absurdas em troca de iluminação.

      Mais um esclarecimento importante: é necessário separar os mestres dos professores. Ao contrário do mestre, o professor é uma pessoa normal, que está em processo de transcender o ego e que faz isso ajudado pelos seus próprios estudantes.

      Inaceitável é a atitude do professor que toma o lugar do mestre. Esta troca de papéis se percebe na distância, pois as atitudes de tal pessoa acabam sendo falsas, artificiais e patéticas, e não convencendo. Cabe ao praticante separar ensinamentos verdadeiros de fast food espiritual usando o bom senso e a intuição, pesquisando e indagando sobre com quem o professor aprendeu e a que tradição ele pertence. É importante saber quem é o mestre e qual o sampradaya, a linhagem tradicional.

      Ao tirar o Yoga do seu contexto tradicional para adaptá-la ao gosto ocidental, se corre o perigo de acabar reduzindo a busca da própria essência a um artigo de consumo, um "produto". Surgem assim adaptações, versões diluídas, para tornar o produto mais palatável e, conseqüentemente, mais vendável. Assim, descarta-se a transcendência do ego para, paradoxalmente, transformar a meditação numa técnica de "crescimento pessoal", que visa ao fortalecimento da individualidade.

      O Yoga constatou que nós, indivíduos, esquecemos que a nossa verdadeira natureza é divinal. Vivemos identificados com as experiências e os mecanismos do nosso corpo e da nossa mente. O Yoga nos ensina o caminho de volta a casa, de volta à essência.

      O verdadeiro conhecimento já está dentro de nós. É inútil procurá-lo fora. A cenoura da iluminação continua enfeitiçando o ser humano, sempre como uma promessa futura. Chame-se samádhi, nirvana, paraíso ou o que for, só muda o tamanho da vara. Alguns a prometem para daqui a pouco, outros para uma existência futura. Ninguém dá a cenoura já: o caminho leva tempo para ser percorrido.

      Mas a verdade e o presente estão aqui: nem no passado nem no futuro. Para retornar ao estado da plenitude original é necessário aniquilar as marcas das experiências passadas e as projeções no futuro. Somente quando conseguirmos desintegrar essas projeções poderemos finalmente alcançar a recompensa.

      O Yoga é para seres humanos. E está ao alcance de todos. O que se precisa para praticá-lo? Um bom par de pulmões e a cabeça no lugar. Todos temos mente e pulmões. O resto é acessório. Há algo que é comum a todos os homens, e que por isso nos une, para além das diferenças raciais, religiosas, culturais, ou das características anatômicas dos indivíduos. Esse algo é a potencialidade de nos conhecer, de mergulhar no oceano da consciência.

      O Yoga é o instrumento que usamos para dar esse mergulho: ao mesmo tempo o ato de mergulhar e o lugar aonde chegamos. Mas fazer Yoga não é mentalizar pensando em ganhar alguma coisa. Não é exercitar-se pensando em obter um corpo bonito. Pelo simples motivo que, para fazer Yoga, você nem sequer precisa ter braços ou pernas. Só pulmões e cabeça. E não é para uma elite de "iluminados" vivendo de costas para a realidade, mas para todos os humanos!

 
 
 

Autor:
Pedro Kupfer
Fonte: www.yoga.pro.br