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Freqüentemente
sou perguntado sobre os aspectos assim chamados
"mágicos" do budismo tibetano.
Muitas pessoas no Ocidente querem saber se os
livros sobre o Tibet, escritos por pessoas como
Lobsang Rampa e alguns outros, onde se fala
em práticas ocultas, são verdadeiros.
Também me perguntam se Shambhala (um
país legendário referido em certas
escrituras e supostamente oculto nas regiões
desérticas do norte do Tibet) realmente
existe. Há também a carta que
eu recebi de um eminente cientista, no início
dos anos 60, dizendo que ele havia ouvido que
certos lamas são capazes de realizar
certos fenômenos sobrenaturais, e perguntando
se ele mesmo poderia realizar experimentos para
determinar a veracidade disso.
Em
reposta à primeira destas questões,
usualmente digo que a maioria desses livros
são frutos da imaginação
e que Shambhala existe sim, mas não em
um sentido convencional. Ao mesmo tempo, seria
errado negar que algumas práticas tântricas
dão origem a fenômenos misteriosos.
Por essa razão, escrevendo ao cientista,
por um lado disse que o que ele havia ouvido
estava correto, mas, por outro lado, tinha que
lastimar o fato de que tal pessoa, sobre a qual
os experimentos poderiam ser realizados, ainda
não havia nascido! De fato, na época,
várias razões práticas
tornavam impossível colaborar em pesquisas
desse tipo.
Desde então, no entanto, vim a concordar
com a realização de várias
investigações científicas
sobre a natureza de certas práticas específicas.
O primeiro desses trabalhos foi realizado pelo
Dr. Herbert Benson, que é atualmente
o chefe do Departamento de Medicina Comportamental
de Faculdade de Medicina de Universidade de
Harvard, EUA. Quando nos encontramos durante
a minha visita de 1979, ele me disse que estava
trabalhando na análise do que ele chama
de relaxation response, um fenômeno fisiológico
encontrado quando uma pessoa entra em um estado
meditativo. Ele acreditava que poderia ir adiante
em seu estudo se pudesse fazer experimentos
com praticantes muito avançados de meditação.
Como alguém que crê fortemente
no valor da ciência moderna, decidi deixá-lo
ir adiante com a idéia, não sem
alguma hesitação. Eu sabia que
muitos tibetano não gostavam muito dessa
idéia, eles sentiam que o acesso a essas
práticas deveria ser mantido restrito,
uma vez que elas vêm de doutrinas secretas.
Por outro lado, argumentei sobre a possibilidade
de que os resultados de tal estudo poderiam
beneficiar não apenas a ciência,
mas também os praticantes de religião,
e poderiam, portanto, ser de benefício
geral para a humanidade.
No evento, Dr. Benson ficou satisfeito por ter
encontrado algo extraordinário. (Suas
pesquisas foram publicadas em muitos livros
e jornais científicos, entre os quais
Nature.) Ele veio à Índia acompanhado
de dois assistentes e trazendo sofisticado equipamento
científico, tendo conduzido os experimentos
com alguns monges em mosteiros próximos
de Dharamsala, e ao norte, no Ladakh e Sikkim.
Tais
monges eram praticantes de Tum-mo Yoga, excelente
para demostrar a eficiência de certas
disciplinas tântricas particulares. Meditando
com a atenção nos chakras (centros
de energia) e nos nadis (canais de energia),
o praticante é capaz de controlar e suspender
temporariamente a operação dos
níveis mais grosseiros da consciência,
podendo experienciar níveis mais sutis
de consciência. Os mais grosseiros pertencem
à percepção ordinária
— tato, visão, olfato, e assim
por diante — enquanto que os mais sutis
são os experienciados no momento da morte.
Um dos objetos do Tantra é capacitar
o praticante a "experienciar" a morte,
pois é aí, então, que surgem
as experiências espirituais mais poderosas.
Quando são suprimidos os níveis
mais ordinários de consciência,
podem ser observados fenômenos fisiológicos
colaterais. Nos experimentos do Dr. Benson,
esses efeitos incluíram a acentuada elevação
da temperatura do corpo (medida internamente
por uma termômetro retal e externamente
por um termômetro na pele). Esses acréscimos
levaram os monges a secarem lençóis
mergulhados em água fria e enrolados
em vota deles, mesmo em temperaturas externas
abaixo de zero. O Dr. Benzon também testemunhou
e mediu, de forma semelhante, monges sentados
nus sobre a neve. (...)
Sejam quais forem os mecanismos aqui envolvidos,
o que mais interessa é a clara visão
de que existem coisas que a ciência moderna
pode aprender da cultura tibetana. E mais, eu
acredito que muitas outras áreas de nossa
experiência poderiam ser investigadas
proveitosamente. Por exemplo, eu gostaria de
organizar algum dia uma experiência sobre
os oráculos, que permanecem uma parte
importante da vida tibetana.

Antes de falar disso em detalhe, gostaria de
enfatizar que o propósito dos oráculos
não é, como poderíamos
supor, simplesmente antever o futuro. Isto é
apenas parte do que eles fazem. Além
disso, eles podem ser chamados como protetores
ou, em alguns casos, como agentes de cura. Sua
principal função, no entanto,
é auxiliar os pessoas em sua prática
do Darma. Outro ponto a lembrar é que
a palavra "oráculo", ela própria,
conduz a enganos, uma vez que traz implícito
que existem pessoas que possuem poderes de ser
um oráculo. Isto é errado. Na
tradição tibetana existem apenas
certos homens e mulheres que atuam como médium
entre os mundos natural e espiritual e que são
chamados de kuten, o que significa, literalmente,
"base física". Também
é importante enfatizar que, embora seja
de uso corrente falar do oráculo como
uma pessoa, isso é feito apenas por conveniência.
De modo mais acurado, eles podem ser descritos
como "espíritos" que estão
associados a coisas particulares (por exemplo,
uma estátua), pessoas e lugares. Isso
não deve, no entanto, implicar na crença
da existência de entidade externas independentes.
Em tempos antigos havia muitas centenas de oráculos
por todo o Tibet. Poucos se mantiveram, mas
os mais importantes — os usados pelo governo
tibetano — ainda existem. Desses, o principal
é conhecido como oráculo de Nechung.
Através dele se manifesta Dorje Drakden,
uma das divindades protetoras do Dalai Lama.
Nechung veio originalmente para o Tibet com
um descendente do sábio indiano Dharmapala,
estabelecendo-se em um lugar da Ásia
Central chamado Bata Hor. Durante o reinado
do rei Trisong Dretsen, no oitavo século
a.C., ele foi designado pelo mestre tântrico
indiano Padmasambhava, supremo guardião
espiritual do Tibet, como protetor do mosteiro
de Samye. Subseqüentemente, o segundo Dalai
Lama desenvolveu uma relação muito
próxima com Nechung, que nessa época
havia estabelecida uma relação
muito próxima com o monastério
de Drepung, e após, Dorje Drakden designado
com protetor pessoal dos Dalai Lamas que se
sucederam.
Por centenas de anos até os dias presentes,
tornou-se tradicional, para o Dalai Lama e para
o governo tibetano, consultar Nechung durante
os festivais de ano novo. Mas além dessas
oportunidades, ele poderia ser chamado outras
vezes para responder perguntas específicas.
Eu mesmo o encontro muitas vezes por ano. Isso
pode parecer estranho para os leitores ocidentais
do século XX. Mesmo alguns tibetanos,
que se consideram "progressistas",
não apreciam o meu uso continuado desse
método antigo de buscar a compreensão
das coisas. Faço isso pela razão
simples de que quando olho para trás
e relembro as muitas ocasiões em que
formulei perguntas ao oráculo, em cada
uma delas o tempo mostrou que sua reposta estava
correta. Não que eu me baseie apenas
nas respostas do oráculo. Não
é assim. Busco sua opinião da
mesma forma que busco a opinião do meu
Gabinete (o Kashag), e da mesma forma que busco
a opinião de minha própria consciência.
Considero os deuses como minha "casa de
cima". O Kashag constitui minha "casa
de baixo". Á semelhança de
outro líderes, consulto a ambos quando
devo tomar uma decisão em assuntos de
estado. Além disso, adicionalmente ao
conselho de Nechung, também procuro levar
em consideração certas profecias.
Apesar de nossas funções serem
similares, minha relação com Nechung
é a do comandante com o ajudante: nunca
me inclino a ele, ele é que se inclina
ao Dalai Lama. Ainda assim somos muito próximos,
quase amigos.
Ainda que possa parecer surpreendente, as respostas
do oráculo raramente são vagas.
Como no caso de minha fuga de Lhasa, ele é
freqüentemente muito específico.
Ainda assim, creio que seria difícil
que algum tipo de investigação
científica pudesse provar conclusivamente
a validade de seus pronunciamentos. O mesmo
se dá com outras áreas da experiência
tibetana, por exemplo, a questão dos
tulkus. Ainda assim, espero que, algum dia,
possa ser realizado algum tipo de experimento
com respeito a esses dois fenômenos.
Na realidade, a tarefa de identificar os tulkus
é mais lógica do que pode parecer
á primeira vista. Dada a crença
budista no renascimento, e considerando que
todo o propósito da reencarnação
é possibilitar ao ser continuar seus
esforços em benefício de todos
os seres vivos, é uma conclusão
clara que deveria ser possível identificar
casos individuais. Isso habilita-os a serem
educados e colocados no mundo de tal forma que
continuem seu trabalho o mais rápido
possível.
Certamente podem ocorrer eventuais erros nesse
processo de identificação, mas
as vidas da grande maioria dos tulkus (atualmente
existem algumas centenas deles reconhecido,
sendo que antes da invasão chinesa eram
provavelmente milhares os tulkus reconhecidos)
são um testemunho de sua eficácia.

Como disse, todo o propósito de reencarnação
é facilitar a continuidade do trabalho
de um ser. Esse fato tem grandes implicações
quando se busca pelo sucessor de uma pessoa
em particular. Por exemplo, ainda que meus esforços
sejam geralmente dirigidos a auxiliar todos
os seres, em particular eles se dirigem a auxiliar
os tibetanos. Portanto, se eu morrer antes dos
tibetanos readquirirem sua liberdade, seria
lógico admitir que eu renasceria fora
do Tibet. Naturalmente, poderia ocorrer que
meu povo, nessa ocasião, não visse
mais utilidade para um Dalai Lama, e nesse caso
não se ocuparia de procurar-me. Assim,
eu poderia renascer como um inseto, ou como
um animal, de tal forma que pudesse ser de maior
utilidade ao maior número de seres secientes.
O modo pelo qual o processo de identificação
é procedido é também menos
misterioso do que se pode parecer. Começa
com um simples processo de eliminação.
Digamos, por exemplo, que estamos buscando a
reencarnação de um certo monge.
Primeiro, devemos estabelecer quando e onde
o monge morreu. Então, considerando que
a nova reencarnação será
concebida usualmente em torno de um ano após
a morte de seu predecessor — esta duração
sabemos por experiência —, fica
já estabelecido um referencial temporal.
Então, se um lama X morre no ano Y, sua
nova encarnação provavelmente
nascerá dezoito meses a dois anos após.
No ano Y mais cinco, a criança deverá
estar com uma idade entre três e quatro
anos: o campo de busca já se estreitou
consideravelmente.
A seguir, tenta-se estabelecer o lugar da reencarnação.
Usualmente isso é muito fácil.
Primeiro, ocorrerá dentro do Tibet? Se
fora, há um número muito limitado
de lugares onde seria provável: as comunidades
tibetanas da Índia, Nepal, Suíça,
por exemplo. Após, precisaria se decidido
em que cidade a criança seria mais provavelmente
encontrada. Geralmente isso é feito buscando-se
referências na vida prévia.
Tendo reduzido as opções e estabelecido
os parâmetros do modo descrito, o próximo
passo, usualmente, é organizar o grupo
de busca. Isso não significa necessariamente
que um grupo de pessoas deverá ser enviado
como se estivessem buscando um tesouro. De modo
geral, basta perguntar a várias pessoas
da comunidade para procurar pelas crianças
entre três e quatro anos que poderiam
ser candidatos. De modo geral, existem algumas
indicações que auxiliam, como
fenômenos incomuns ocorridos quando do
nascimento, ou a criança pode exibir
características peculiares.
Algumas vezes, duas, três ou mais possibilidades
emergirão neste estágio. Ocasionalmente
tal grupo será inteiramente desnecessário,
porque a encarnação anterior deixou
informação detalhada, inclusive
com o nome de seu sucessor e de seus pais. Mas
isso é rara. Outras vezes, os que buscam
o monge reencarnado podem ter sonhos claros
ou visões sobre onde encontrar seu sucessor.
De outro lado, um elevado lama recentemente
deu ordens de que sua reencarnação
não deveria ser procurada. Ele disse
que melhor seria instalar como seu sucessor
a quem quer que pareça capaz de servir
ao Darma do Buda e a sua comunidade, em lugar
de preocupar-se com uma identificação
precisa. Não existem regras duras, rígidas.
Se ocorre que muitas crianças surgem
como candidatos, é usual que alguém
muito próximo à encarnação
anterior venha a fazer o exame final. Freqüentemente
essa pessoa será reconhecida por uma
das crianças, o que é uma forte
evidência de prova; outras vezes marcas
especiais no corpo são também
levadas em consideração.
Algumas vezes o processo de identificação
envolve a consulta a oráculos ou a alguém
que tenha o poder de ngon shé (clarividência).
Um dos métodos que essas pessoas usam
é o Ta, através do qual o praticante
fixa o olhar em um espelho, no qual ele ou ela
podem ver a própria criança, ou
uma construção, ou uma palavra
escrita. Eu chamo isso de "televisão
antiga". Isto corresponde às visões
que as pessoas tiveram no lago Lhamoi Lhatso,
onde Reting Rinpoche viu as letras Ah, Ka, e
Ma e teve a visão de um mosteiro e de
uma casa onde começou a buscar por mim.
Algumas vezes eu mesmo sou chamado para dirigir
a busca por uma reencarnação.
Nessas circunstâncias, é de minha
responsabilidade tomar a decisão final
sobre o candidato que deve ser corretamente
escolhido. É importante que diga que
eu não tenho poderes de clarividência.
Não tive nem tempo nem oportunidade de
desenvolvê-los, apesar de ter elementos
para acreditar que o Décimo Terceiro
Dalai Lama tenha tido alguma habilidade nessa
esfera.

Como um exemplo de como faço isso, vou
relatar a história de Ling Rinpoche,
meu antigo tutor. Eu sempre tive o maior respeito
por Ling Rinpoche; mesmo quando eu era uma criança,
bastava apenas ver seu ajudante para ficar com
medo, e tão pronto ouvia seus passos,
meu coração paralisava. Com o
tempo, vim a valorizá-lo como um de meus
maiores e mais próximos amigos. Quando
ele morreu, não faz muito tempo, senti
que a vida sem ele ao meu lado seria muito difícil.
Ele havia se tornado uma rocha sobre a qual
eu podia me apoiar.
Estava na Suíça, no verão
de 1983, quando pela primeira vez ouvi sobre
sua doença: ele havia sofrido um derrame
cerebral e ficara paralisado. Essas notícias
me perturbaram muito, ainda que, como budista,
soubesse que de nada adiantaria a preocupação.
Tão pronto pude, retornei a Dharamsala,
onde encontrei-o ainda com vida, mas em más
condições físicas. Ainda
assim, sua mente continuava aguda como sempre,
graças a uma vida de constante treinamento
mental. Sua condição permaneceu
estável por muitos meses antes de subitamente
deteriorar. Ele entrou em coma, de onde nunca
saiu e morreu em 25 de dezembro de 1983. Mas,
como se alguma evidência de ter sido uma
pessoa extraordinária ainda fosse necessária,
seu corpo não começou a se decompor
antes de trinta dias após ter sido declarado
morto, apesar do clima quente. Era como se ele
ainda habitasse seu corpo, mesmo que clinicamente
estivesse sem vida.
Quando olho para trás e vejo o modo pelo
qual as coisas ocorreram, fico certo de que
a doença de Ling Rinpoche, com sua duração
prolongada, foi inteiramente deliberada, para
ajudar a que me acostumasse com sua ausência.
Isso, no entanto, é apenas a metade da
história. Como estamos falando de tibetanos,
tudo continua de forma feliz. A reencarnação
de Ling Rinpoche já foi encontrada, e
ele é atualmente um garoto muito vivo
e espontâneo de três anos de idade.
Sua descoberta foi um exemplo de quando a criança
reconhece claramente um membro do grupo de busca.
Apesar de estar com apenas 18 meses de idade,
ele chamou pelo nome e se dirigiu sorrindo para
esta pessoa. Subseqüentemente ele identificou
corretamente muitos dos pertences de seu antecessor.
Quando encontrei o menino pela primeiro vez,
não tive dúvida sobre sua identidade.
Ele comportou-se de um modo que ficou óbvio
que havia me reconhecido. Nessa ocasião
eu dei ao pequeno Ling Rinpoche uma grande barra
de chocolate. Ele permaneceu impassível
segurando-a, braço estendido e cabeça
inclinada durante todo o tempo em que esteve
na minha presença. Não consigo
lembrar de qualquer criança que tenha
ficado com algo doce guardado sem abrir e provar,
e tenha ficado parado, em pé, tão
formalmente. Então, quando recebi o menino
em minha residência e ele foi trazido
até a porta, comportou-se exatamente
como seu predecessor. Era evidente que ele lembrava
do caminho. Após, quando entrou na minha
sala de trabalho, imediatamente mostrou familiaridade
com um dos meus auxiliares que, nessa época,
se recuperava de uma perna quebrada. Em primeiro
lugar, essa pequenina figura solenemente presenteou-o
com um kata, e então, cheio de risadas
e brincadeiras de criança, apanhou uma
das muletas de Lobsang Gawa e coreu em volta,
sem parar, como se aquilo fosse um pau de bandeira.
Outra história muito impressionante sobre
o menino refere-se ao tempo em que ele foi levado,
na idade de dois anos, a Bodh Gaya, onde eu
deveria dar ensinamentos. Sem que ninguém
indicasse a ele e tendo subido uma escada com
suas mãos e joelhos, encontrou minha
cama e colocou um kata sobre ela. Hoje Ling
Rinpoche já está recitando as
escrituras, ainda que esteja para ser visto
se ele, após aprender a ler, será
como alguns dos jovens Tulkus que memorizam
textos com uma velocidade estonteante, como
se estivessem apenas pegando novamente o que
haviam deixado. Eu conheço muitas crianças
que podem declamar, com facilidade, várias
páginas de texto.
Há,
certamente, um elemento de mistério nesse
processo de identificação dos
reencarnados. Mas é suficiente dizer
que, como budista, não acredito que pessoas
como Mao ou Churchill apenas "acontecem".
Uma
outra área da experiência tibetana
que eu gostaria muito que fosse examinada cientificamente
é o sistema de medicina tibetana. Além
de datar de mais de dois mil anos, derivou de
várias diferentes fontes, incluindo a
antiga Pérsia; hoje os princípios
são inteiramente budistas. Ela tem uma
abordagem inteiramente diferente da medicina
ocidental. Por exemplo, ela afirma que as causas-raiz
da doença são a ignorância,
o desejo ou o rancor.
De acordo com a medicina tibetana, o corpo é
dominado pelos três principais nopa, literalmente
"venenos", mas freqüentemente
traduzidos como "humores". Considera-se
que esses nopa estão sempre presentes
no organismo. Isto significa que nunca se pode
estar completamente livre das doenças,
pelo menos de seu potencial, mas contanto que
esteja em equilíbrio, o corpo mantém-se
saudável. Entretanto, um desbalanço
causado por uma das três causas-raiz se
manifestará como doença, o que
é diagnosticado pelo pulso do paciente
ou pelo exame de sua urina. Também existem
doze principais lugares nas mãos e punhos
onde o pulso é examinado. A urina é
similarmente examinada de diferentes maneiras
(como cor, cheiro, etc.). Com respeito ao tratamento,
o primeiro aspecto é a dieta; os remédios
formam a segunda linha; a acupuntura e moxabustão,
a terceira; a cirurgia, a quarta. Os próprios
medicamentos são feitos de materiais
orgânicos, algumas vezes combinados com
óxidos de metais e certos minerais (incluindo,
por exemplo, diamantes moídos)
Até agora tem havido pouca pesquisa clínica
com respeito ao valor do sistema médico
tibetano, ainda que o meu médico pessoal
anterior, Dr. Yeshe Dhonden, tenha participado
de uma série de experimentos de laboratório
na Universidade de Virgínea, EUA. Ele
teve resultados surpreendentemente bons em curar
o câncer em ratos brancos, mas muito mais
trabalho será necessário até
que se possa chegar a conclusões definitivas.
Com respeito a minha experiência própria,
vejo os medicamentos tibetanos como muito eficientes.
Tomo-os regularmente, não apenas para
curar, mas para prevenir-me de adoecer. Percebi
que esses remédios promovem um reforço
da constituição física
do corpo e têm efeitos colaterais desprezíveis.
O resultado é que, apesar de meus longos
dias e períodos intensivos de meditação,
eu quase nunca experimento a sensação
de cansaço.

Ainda, uma outra área onde acredito que
há uma região de diálogo
entre a ciência moderna e a cultura tibetana
concerne ao conhecimento teórico e não
experiencial. Alguma das mais recentes descobertas
da física de partículas parecem
apontar para a não-dualidade entre mente
e matéria. Por exemplo, foi encontrado
que se um vácuo (o que significa o espaço
vazio) é comprimido, aparecem partículas
onde nada havia antes, o que seria matéria,
de alguma maneira, aparentemente inerente. Essas
descobertas parecem oferecer uma área
de convergência entre a ciência
e a teoria budista Madhyamika do vazio. Essencialmente,
essa teoria afirma que a mente e a matéria
existem separadamente, mas de forma interdependente.
Estou bem consciente, no entanto, do perigo
de ligar as crenças espirituais a qualquer
sistema científico. Pois, enquanto o
budismo continua sendo relevante dois e meio
milênios após seu início,
os fundamentos absolutos da ciência têm
uma vida relativamente muito mais curta. Isto
não é para poder afirmar que eu
considero que coisas como os oráculos
ou a capacidade dos monges de ficarem ao relento
durante noites, em condições de
congelamento, seja uma evidência de poderes
mágicos. Ainda assim não posso
concordar com nossos irmãos e irmãs
chineses, que sustentam que a aceitação
desses fenômenos é uma evidência
de nosso atraso e barbárie. Mesmo do
mais rigorosos ponto de vista científico,
esta não é uma atitude objetiva.
Ao mesmo tempo, mesmo que um princípio
seja aceito, isso não significa que tudo
que esteja conectado com ele seja válido.
Por analogia, seria burlesco seguir escravizadamente
e sem qualquer discriminação todas
as afirmações de Marx e Lênin,
mesmo em face da evidência clara de que
o comunismo é um sistema imperfeito.
É preciso manter grande vigilância
em áreas onde não temos grande
experiência. Isso, naturalmente, é
onde a ciência pode auxiliar. Enfim, só
vemos as coisas como misteriosas quando não
as entendemos.
Até agora os resultados das pesquisas
que descrevi têm sido benéficos
para todas as partes. Compreendo, no entanto,
que esses resultados são tão acurados
quanto os experimentos que conduziram a eles.
Além do mais, estou consciente que se
algo não é encontrado isso não
significa sua inexistência, isso apenas
prova que o experimento foi incapaz de encontrá-lo.
Esta é a razão pela qual precisamos
ser cuidadosos em nossas pesquisas, especialmente
quando lidando em uma área onde a pesquisa
científica é pequena. É
também importante manter em mente as
limitações impostas pela própria
natureza. Por exemplo, enquanto a investigação
cientifica não pode apreender meus pensamentos,
isso não significa que eles sejam inexistentes,
nem que algum outro método de pesquisa
não possa descobrir algo a respeito deles,
e aí é que entra a experiência
tibelana. Através do treinamento mental,
desenvolvemos técnicas que a ciência
atual não pode ainda explicar adequadamente.
Isto, então, é a base da suposto
"magia e mistério" do budismo
tibetano.
(Tradução e resumo da revista
Bodisatva a partir do livro Freedom in Exile,
editado em português pela Editora Siciliano.)
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