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Felicidade
sem grana
As idéias
(e os exemplos pessoais) da futurista mais antenada do mundo
Por Otávio
Rodrigues e Maria Cláudia Baima
Hazel Henderson é
uma das principais vozes do que se pode chamar "economia
sustentável”, ou "economia solidária",
na qual pessoas e países deixam o dinheiro de lado e par
tem para a troca, sem intermediários - assim como se fazia
antigamente. "O sistema econômico se baseia na idéia
de vender mais e mais coisas de que as pessoas não precisam",
diz ela.
Autodidata, Hazel tornou-se uma futurista e consultora muitíssimo
antenada, querida por economistas, grandes estadistas e organizações
internacionais, notadamente os que se empenham em fazer do mundo
um lugar melhor para se viver.
Para ela, o sistema financeiro tem invadido as outras esferas
da vida humana, a ponto de começar a causar rupturas na
família e na sociedade. "Tem-se perdido o que eu chamo
de ‘cultura do DNA’, que é a cultura da solidariedade
e da economia fraternal, que vai desde a importância de
ajudar a comunidade até o modo como alimentamos as crianças
e tratamos os mais velhos".
Nesta entrevista, Hazel Henderson conta como é possível
escapar dessa teia, sem recorrer a palavras difíceis ou
teorias complicadas. E o que recomenda, ela garante que pratica:
usa roupa de brechó beneficente, tem um carro híbrido
que faz 25 quilômetros por litro e só investe em
empresas com preocupações sociais, ecológicas
e espirituais. Faca como os grandes estadistas e veja o que ela
tem a dizer.
Como humanizar a economia?
Vivemos num momento
em que o dinheiro tem dominado, de maneira inapropriada, partes
fundamentais da vida das pessoas. Então, a reintrodução
do escambo, da troca de produtos e serviços, é um
dos caminhos para se tentar colocar a economia e o planeta em
equilíbrio. E podemos seguir esse plano com a ajuda da
Internet, porque agora temos ótimas plataformas eletrônicas
para realizar esse tipo de comercio.
Isso funciona na pratica?
Conheço duas
companhias que adotaram esse sistema de maneira bemsucedida -
uma na Califórnia, outra em Londres. O interessado paga
uma pequena taxa para ser sócio de uma rede e então
envia uma mensagem com o que ele tem para oferecer e o que ele
quer em troca, tipo "tenho um carro usado e quero trocá-lo
por serviços de manutenção de casa”
Um tanto difícil imaginar um mundo sem dinheiro...
O célebre
economista escocês Adam Smith destacou bem esse ponto no
livro A Riqueza das Nações [bíblia da economia,
de 1776]. O dinheiro, inegavelmente, foi uma idéia bastante
útil, mas de acordo com Smith todas as pessoas tem propensão
para o escambo, para a troca de mercadorias, e isso já
se via desde há muito tempo nas culturas indígenas
ao redor do mundo.
Não
seria solução apenas para comunidades ou grupos
de amigos?
Não, não
apenas. Na Argentina, por exemplo, com a crise econômica,
mais de 6 milhões de pessoas tem ido aos mercados de pulgas
para trocar produtos. E, além de produtos, podemos trocar
boas idéias, conhecimento, tecnologia. Metaforicamente
falando, não precisamos mandar bolos e doces para os outros
paises, precisamos mandar a receita!
De que maneira
isso beneficia o equilíbrio do planeta?
O sistema de trocas
permite que usemos e reusemos tudo. Reciclar é uma ótima
idéia, mas deveria ser a ultima opção, pois
e um processo que demanda custo e energia. Reutilizar estende
a vida das matérias-primas e preserva os recursos naturais.
Nossa recompensa é um ambiente mais limpo, água
mais saudável e também mais tempo para aproveitar
com as pessoas de que gostamos.
Sua vida
incorpora esses valores?
Sim, claro. As
montadoras Toyota e Honda produzem carros híbridos que
usam eletricidade e reduzem muito o consumo de gasolina. Eu tenho
um desses e, em dois anos, nunca tive problemas. Também
compro roupas em brechós beneficentes, que oferecem uma
compensação dupla: além do benefício
psicológico de saber que se esta ajudando alguém,
paga-se uma verdadeira pechincha!
Pequenos
mercados são viáveis em cidades com milhões
de pessoas?
Sim, com certeza,
mas a ideologia da era industrial está calcada na baixa
qualidade de vida. Vivemos numa era industrial e a grande metáfora
para esse período e que tudo que e maior e melhor e mais
eficiente. Então temos corporações gigantescas,
lojas imensas que acabam com as chances do pequeno empresário.
Todos vamos
aos supermercados.
Particularmente,
prefiro ir à feira. Lá, encontro os produtores,
compro alimentos frescos e orgânicos. É muito mais
divertido do que it a um supermercado: não pego fila, encontro
os vizinhos e compro flores.
Há
cura para o consumismo?
Outro dia eu assistia
ao canal de noticias Bloomberg e um autor americano estava sendo
entrevistado. Ele tinha acabado de lançar um livro ensinando
como proteger as crianças da televisão e da propaganda,
e dizia que os pais deveriam ensinar a diferença entre
"precisar”, "querer" e "preciso ter":
Precisar diz respeito a necessidades básicas, como comida
e roupa. Já "querer" e "preciso ter"
são desejos e, portanto, coisas bem diferentes.
Se não
sabemos, como ensinar?
Sem duvida! Eu
diria que, atualmente, educação e o investimento
mais importante que qualquer país, ou qualquer pai ou mãe,
pode fazer.
Como dar
o primeiro passo rumo a essas mudanças?
Um amigo lançou
um livro nos Estados Unidos, há uns dez anos, Chamado The
Money or your Life -um best seller - no qual pede que as pessoas
organizem um pequeno diário e anotem todas as maneiras
de se economizar dinheiro e investi-lo em autodesenvolvimento.
A pergunta que fica no ar é: "O dinheiro ou a minha
vida?".
Seria essa
a chave para uma vida mais simples?
Acho que quando
as pessoas compreenderem os tipos de auto-realização
que não envolvem dinheiro ou produtos, conscientes de que
as necessidades materiais podem ser mais simples, estará
criada a sintonia ideal para uma existência satisfatória,
para cada um e para todos. Porque dessa maneira a possível
direcionar energia para o desenvolvimento pessoal, como aprender
uma nova língua ou viajar para outro país. Esse
e o caminho para uma evolução.
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