Fale a Verdade


Georg Feuerstein
 
 

     Assim como o não ferir, a veracidade é incluída entre as virtudes perenes no Yoga e outras tradições espirituais. Assim, no Mahãnirvãna Tantra (4.75-77), composto há diversos séculos, encontramos a declaração seguinte:

     “Não há virtude maior do que a verdade; não há pecado maior do que a falsidade. Portanto, um ser mortal deve buscar refúgio na verdade com todo o seu ser.

     A veneração sem verdade é fútil. A recitação (japa) sem verdade é inútil. O ascetismo (tapas) sem verdade é tão infrutífero quanto a semente no solo estéril.

     A natureza da verdade é o Absoluto supremo. A verdade é o maior ascetismo. Todas as ações deveriam ser enraizadas na verdade. Nada é superior à verdade.”

     O adepto Patanjali, do século II, incluiu a veracidade entre as cinco disciplinas morais que constituem o "grande voto". Como sugere a palavra sânscrita satya, a veracidade tem relação com sat, que podemos traduzir como "Realidade" ou "Ser". A condição da veracidade produz a verdade, ao passo que "uma boca mentirosa mata a alma", como somos informados nos Provérbios (1:11). Segundo o Yoga-Sutra (2.36), um praticante de Yoga que tem uma base firme nessa virtude é capaz de tornar verdadeiro tudo o que ele diz. Isso não é mera tautologia. Na verdade, os mestres de Yoga são conhecidos por terem proferido afirmações que na hora pareciam bizarras, mas que não obstante se revelaram exatamente conforme o previsto.

      Como no caso do não ferir, a veracidade deve ser praticada em relação ao corpo, à fala e à mente. Assim ela requer virtudes associadas como honestidade, retidão, integridade, sinceridade, franqueza, abertura e inocência que são destinadas a revogar a mentira, desonestidade, falsidade, fraudulência, pretensão, duplicidade, hipocrisia, afetação, posturas falsas, etc. Sem a veracidade, a sociedade humana seria praticamente impossível. Podemos reconhecer com facilidade como os numerosos lapsos em veracidade que marcam a nossa sociedade moderna complicam, sem necessidade, a nossa vida.

     Os antigos alertaram que chegaria uma época em que as pessoas deixariam de respeitar a verdade e isso contribuiria para a sua ruína. Hoje estamos literalmente cercados por mentiras e simulação, desde a propaganda e o comércio até a política e as relações interpessoais. Para muitos de nós, a verdade é o que é conveniente no momento. Em termos morais, nós quase gostamos de estar em situações duvidosas, onde nem a verdade nem a falsidade parecem se aplicar. Em certo sentido foi apropriado abrir mão da moralidade em preto e branco, às vezes intolerante, de antigamente, uma vez que a vida é uma teia de muitas cores. Contudo, tendemos a aplicar nossa nova maneira de pensar de um modo indiscriminado, geralmente com a intenção de obter poder pessoal. Em grande medida, nós relativizamos o comportamento moral e muitas vezes ficamos indecisos e amedrontados ante as escolhas morais à nossa frente.

      O relativismo moral se tornou a filosofia predileta. O argumento é que não existem valores morais absolutos, pois o que é considerado moral varia de cultura para cultura. Isso significa, continuando a história, que somos livres para fazer nossas próprias regras morais ou até mesmo para aceitar o anarquismo moral, se isso nos agradar. O relativismo moral é baseado em meias verdades e é inviável enquanto postura filosófica. As virtudes, do meu ponto de vista (que é o ponto de vista clássico), são intrínsecas ao nosso ser. Elas estão conectadas com os "valores do ser", de Abraham Maslow. Num certo ponto do desenvolvimento intelectual, moral e espiritual de uma pessoa, se pode esperar que o que é sentido como virtuoso é semelhante entre indivíduos de maturidade equivalente. Assim, é unânime entre os virtuoses espirituais, ou pessoas maduras em termos morais, que a veracidade é uma virtude altamente desejável, enriquecedora e até mesmo libertadora, que deveria ser cultivada a sério.

     Antes de discutir com maiores detalhes a virtude da veracidade, eu gostaria de fazer um inventário das muitas maneiras em que nossa civilização ocidental contemporânea, cujos tentáculos se estendem para o mundo todo, tem infringido esse valor moral excepcional. Os insucessos mais óbvios e graves em relação à virtude da veracidade devem ser vistos à luz das crenças ideológicas fundamentais partilhadas, de modo consciente ou inconsciente, pela maioria das pessoas nos chamados países desenvolvidos. Essas crenças, que são de natureza metafísica, incluem as seguintes ideias:

     1. Existe uma realidade exterior, material, justaposta a uma mente ou consciência subjetiva. Além disso, os secularistas afirmam que a mente ou consciência é um epifenômeno do cérebro (isto é, a realidade material). Em contrapartida, as tradições espirituais dão precedência à Mente, Atenção Plena ou Si Mesmo em relação à existência objetiva, o que leva a uma moralidade que ressalta a responsabilidade pessoal pelo próprio destino.

     2. Nós vivemos no mundo material e devemos dar primazia às suas exigências. Mesmo as pessoas que se consideram religiosas aceitam esse ponto de vista, pelo menos na prática, embora possam, em princípio, saber e sentir que, nas palavras de Jesus de Nazaré, deveríamos aspirar, acima de tudo, ao Reino dos Céus. Se as pessoas realmente ouvissem o ensinamento do Nazareno, a sua religiosidade seria convertida em prática espiritual verdadeira.

     3. As disciplinas espirituais rigorosas, conforme promovidas pelo Yoga e outras tradições semelhantes, não são relevantes porque:

     (a) são totalmente despropositadas já que, como supõem os secularistas, as realidades ou dimensões espirituais não existem; ou

     (b) elas são destinadas apenas a uns poucos eleitos (isto é, os monges), que têm a capacidade de contemplação; ou

      (c) a crença pessoal nas doutrinas religiosas (por ex., "Jesus me salvará") é suficiente; ou

      (d) levar uma vida moralmente íntegra é suficiente.

     4. Estamos encarnados e por isso nos identificamos, de modo apropriado, com o corpo-mente, pelo menos enquanto estamos na Terra, o que, para os secularistas, é de fato o único lugar possível de se estar. Em contrapartida, entre as tradições espirituais é universal o ensinamento de que o corpo material não é o que parece e que a identificação com o corpo é, de fato, um erro fundamental, porque implica esquecer da nossa identidade espiritual, seja qual for nossa concepção em relação a esta. Por causa da íntima associação da mente com o corpo, podemos falar de um corpo-mente. Em consequência disso, nós também nos identificamos com os diversos processos mentais (ou psicossomáticos) que estão associados com a existência física, em especial as emoções negativas, como o medo, o desejo ardente e a raiva. Em último grau, nós até nos identificamos com propriedades objetivas, tais como nossos próprios pertences, nomes, reputação, e assim por diante. Muito drama (isto é, "coisas kármicas") ocorre em torno dessas diversas identificações.

     5. Não temos nenhum controle sobre o processo real da morte, quando quer que esta aconteça. A despeito da identificação equivocada das pessoas com o corpo-mente, elas em geral não creem que a mente possa ter um controle pormenorizado sobre as funções corporais, em especial os processos envolvidos na morte. As tradições espirituais mais sofisticadas consideram decisivo o controle do corpo-mente durante a morte. Elas sustentam que o modo como saímos da vida encarnada, seja de maneira consciente ou involuntária, determina a qualidade do estado da desencarnação. Uma saída controlada garante um aspecto positivo do continuum mental na vida futura. Existem amplas provas de que os grandes adeptos do Yoga possuem esse domínio.

     Há diversos corolários das premissas acima, mas relacioná-los iria muito além do escopo da presente discussão. Se consideradas de uma perspectiva espiritual, essas cinco hipóteses correspondem a um modo de iludir a nós mesmos: uma mentira. Uma vez que essas falsas crenças constituem os fundamentos desse modo de pensar, é inevitável que elas afetem nossa vida inteira e o fazem de uma maneira negativa. De fato, elas nos enfraquecem quando nos dão a ilusão de que estamos à mercê do destino, da divina providência ou do acidente cósmico, ilusão que pode ser consolo temporário, mas que, em última análise, é frustrante.

      Uma vez que vemos a nós mesmos como basicamente desamparados, temos todas as desculpas de que precisamos para ceder à fé cega em dogmas religiosos ou científicos, bem como à preguiça, indiferença, tédio, irresponsabilidade, ausência de resposta, e assim por diante, que são reconhecidos como vícios no caminho yogue. O que nos resta, então, é nossa realidade consensual cotidiana, ou seja, a realidade surreal dos sonâmbulos.

      É a partir dessa realidade consensual que muitas pessoas permitem que as coisas aconteçam, não por causa de uma disposição irresistível de repúdio, mas por pura apatia: a devastação consumada do ambiente; as maquinações políticas que levam à injustiça, a discriminação, a corrupção, a opressão e a guerra; a exploração econômica dos países do Terceiro Mundo no velho espírito colonial e o consumo desenfreado em casa; fome mundial e pobreza; índices galopantes de crimes e delinqüência juvenil; o vício disseminado nas drogas e no álcool; negligência e maus-tratos dos idosos, e assim por diante.

      A seguir, eu gostaria de abordar apenas três áreas públicas nas quais o baixo nível da virtude da veracidade é incessante: a política, o mundo das corporações (incluindo a publicidade e o marketing) e a mídia. Em primeiro lugar a política, que exibe um recorde especialmente desastroso de tendência à não veracidade. Sem dúvida, são sempre políticos individuais, e não a política em termos abstratos, que praticam esse vício específico.

      Em seu livro best-seller, Major Garrett e Timothy J. Penny identificam quinze grandes mentiras que os políticos americanos gostam de contar e que a mídia gosta de anunciar. Entre elas estão: "religião e política não se misturam", "a imigração prejudica a América", "a receita será equilibrada" e "a previdência social é uma responsabilidade sagrada do governo". Qualquer pessoa que tenha um mínimo de familiaridade com a política americana sabe que o fundamentalismo religioso é um traço importante do cenário político americano contemporâneo; os imigrantes são necessários para manter o andamento da economia; a receita nunca será equilibrada enquanto os políticos prometerem cortes nos impostos e ao mesmo tempo subvencionarem mais de 400 bilhões de dólares ao exército. Como admitiu o vice-presidente Dick Cheney, em 2018 a previdência social começará a pagar mais do que recebe e, finalmente, o sistema entrará em colapso. As mentiras acima são rotineiras para os políticos, e eles costumam escapar delas sem punição, porque a maioria das pessoas parece querer ouvi-las. O eleitorado americano é extremamente desmemoriado e, de um modo estranho, parece disposto a perdoar o fato de ser sempre ludibriado.

      Quem não se lembra da antiga promessa infame de George Bush: "Leiam meus lábios: não haverá novos impostos", reiterada ad infinitum durante a eleição presidencial de 1988 e descumprida assim que ele foi nomeado? O seu sucessor na Casa Branca parece ter uma aptidão ainda maior para a desonestidade e prestidigitação política . Não foram poucos os comentaristas políticos independentes que observaram que o atual regime americano é notório pela profusão de mentiras ao público. Os ataques injustificados e ilegais (segundo a lei internacional) ao Afeganistão e ao Iraque tornaram-se possíveis apenas por causa de toda uma série de mentiras, que ainda estão sendo identificadas para uma avaliação final pública. Talvez a maior das grandes mentiras políticas contemporâneas é que a guerra ao terrorismo pode levar à vitória e está, no momento, sendo vencida. Os sacos que transportavam corpos dos soldados americanos nos voos de retorno às famílias amarguradas contam uma história diferente e, por esse motivo, são cuidadosamente mantidos fora da vista pública.

      Os meios de comunicação de massa mentem, sobretudo por omissão. Para começar, nunca são muito precisos no relato das notícias; é evidente que os principais meios de comunicação foram seduzidos pelo do mundo corporativo, que tem um interesse pessoal por política. Naturalmente, as oligarquias corporativas, como seus companheiros políticos, não querem que o público tenha o exato conhecimento das coisas que são vitais às organizações capitalistas. Isso foi apresentado de maneira hábil por Robert W. McChesney e outros escritores. A Declaração Universal dos Direitos Humanos garante que "todas as pessoas têm o direito à liberdade de opinião e expressão" e que "esse direito inclui a liberdade de sustentar opiniões sem interferência e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios de comunicação, a despeito das fronteiras". Contudo, a noção de "livre imprensa" se tornou até certo ponto um oximoro, e críticos começaram a considerar a mídia como uma divisão do governo.

      Precisamente porque os meios de comunicação de massa agem em parceria com os políticos, é difícil obter notícias confiáveis e detalhadas sobre acontecimentos de importância vital, como a guerra no Iraque, a devastação da Iugoslávia pelas forças da OTAN, o uso continuado de urânio empobrecido nas armas, ou os maus-tratos abusivos dos prisioneiros de guerra do Iraque. Não fosse pela coragem e determinação de alguns jornalistas, o público em geral permaneceria ignorante de todos esses embustes políticos e militares, bem como os seus equivalentes no setor corporativo.

      Pelo fato de os meios de comunicação de massa clamarem pela receita do setor corporativo, eles se tornam veículos das mentiras inveteradas das relações públicas, geradas pelas corporações. Todos os anos, as corporações gastam bilhões de dólares para fazer com que as Relações Públicas (RP) projetem uma imagem tão angélica quanto as circunstâncias permitirem, enquanto elas continuam a extorquir o povo, enganar o governo e poluir o ambiente. Na vida privada, esse traço detestável é conhecido por hipocrisia. Conforme expressa o sociólogo australiano Alex Carey: "O século XX foi caracterizado por três fatos de grande importância política: o crescimento da democracia, o crescimento do poder corporativo e o crescimento da propaganda corporativa como um meio de proteger o poder corporativo contra a democracia."

     Que nem mesmo as organizações religiosas sejam imunes à mentira, especialmente quando estão associadas com a política, foi amplamente demonstrado no caso de televangelismo americano. Os escândalos vergonhosos dos evangélicos da TV americana da laia de Jim Bakker, Fred Price, W. V. Grant, Bob Larson e Peter Popoff deixou clara a lição de que os líderes religiosos não são imunes à corrupção, fraude de impostos, mentiras, roubo, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Os homens do clero de outras tradições religiosas também não estão livres daquilo que seria chamado, por suas congregações, de pecado capital da mentira, para não mencionar o da concupiscência. 20 O império religioso de Jim Baker valia mais de 170 milhões de dólares quando ele foi mandado para a prisão em 1987.

      Em 2004, nada menos do que a augusta instituição religiosa do Vaticano foi pega em uma mentira enorme, quando o Cardeal Alfonso López Trujillo, o porta-voz do Vaticano em assuntos da família, declarou que "confiar em preservativos é como apostar na sua própria morte". A postura rígida do Vaticano acerca do controle de natalidade é bem conhecida, mas dessa vez o World Health Organization (WHO) imediatamente tomou a atitude de condenar a propaganda enganosa do cardeal. A WHO lembrou ao cardeal que à luz da epidemia da AIDS, que está devastando a África, até mesmo um método que não é plenamente seguro é melhor do que método nenhum.

      Sem dúvida, as pessoas e as organizações mentem por vários motivos, mas em geral é por interesse próprio e muito raramente para proteger ou beneficiar alguém, como no caso daquelas "pequenas mentiras inofensivas". Enquanto Aristóteles mantinha que mentir é sempre imperdoável, Platão adota uma visão um tanto diferente em sua República, ao permitir que estadistas e médicos mintam desde que isso não prejudique, mas, de fato, beneficie os outros. O Tiru-Kural (Aforismos Religiosos) de Tamilnadu, que é atribuído ao santo indiano do sul da índia do século III, Tiruvalluvar, expressa um sentimento semelhante: "Mesmo a falsidade tem a natureza da verdade, caso produza resultados impecáveis" (verso 292). No pântano moral da civilização contemporânea, esse tipo de leniência em relação aos políticos é uma receita para o desastre. Mesmo em situações particulares, quando aprovamos o ponto de vista de que o fim justifica os meios, mentir para o "bem" dos outros pode, de muitas maneiras, ser um tiro que sai pela culatra. É sem dúvida preferível tomar um rumo de honestidade em todas as questões, a menos que um senso irresistível de compaixão nos inspire a ocultar a verdade para alguém que, de outra maneira, seria prejudicado. Santo Agostinho pensava que até a mentira compassiva representa um desvio injustificado da verdade e que é melhor permanecer em silêncio do que sucumbir a qualquer tipo de mentira.

     Apenas o que os teólogos católicos chamam de "mentira jocosa" (uma mentira que tem um caráter inequívoco de brincadeira) não é uma violação da verdade.

      Hipocrisia é quando fingimos ter boas qualidades que sabemos que não possuímos. É, em definitivo, um tipo de mentira. Em outubro de 2005, o papa Bento XVI sentiu a necessidade de chamar a atenção da hipocrisia de políticos que professam a fé cristã mas que muitas vezes votam contra o poder do Vaticano. No seu sermão de abertura, o papa observou que: "o tipo de tolerância que permite Deus como uma opinião privada, mas se recusa a permiti-lo na arena pública não é, na realidade do mundo e de nossa vida, uma tolerância, mas uma hipocrisia." Os 250 bispos presentes ao sínodo estavam deliberando se aos hipócritas políticos deveria ser recusada a comunhão. Um exemplo típico é fornecido pelo primeiro-ministro canadense Paul Martin, que votou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, apesar de considerar a si próprio um católico devoto. Ele protestou que, na condição de legislador, que respeita a separação entre Igreja e Estado, ele não deve permitir que sua consciência pessoal interfira com o negócio da política. Tanto as preocupações do papa quanto a resposta de Martin realçam as margens indistintas entre as crenças privadas e os deveres e lealdades políticas, bem como entre a consciência pessoal e a doutrina religiosa absolutista.

      Durante décadas, a Sé Papal fez vista cega em relação a políticos abertamente católicos que transgrediam o sexto mandamento: "Tu não matarás." Sem dúvida, há muito existe uma controvérsia sobre a correta tradução desse mandamento, e os judeus insistem que essa lei divina se refere ao assassinato e não a matar em geral. Não obstante, a constante violação dessa lei bíblica pelos políticos católicos, como quando eles instigam ou aprovam a guerra, parece muito mais significativa do que a legislatura de Martin sobre uniões homossexuais, que é condenada, de uma perspectiva católica.

      A fragilidade moral da hipocrisia às vezes assedia até mesmo aqueles de quem esperaríamos mais, como os filósofos. Assim, o filósofo e educador do século XVIII, Jean Jacques Rousseau, colocou os seus cinco filhos num orfanato de Paris, assim que eles foram desmamados. Ele justificou a sua ação dizendo que, se não fosse isso, eles cresceriam na pobreza. François Marie Arouet, que adquiriu fama sob o pseudônimo de "Voltaire", desprezava Rousseau por esse lapso de julgamento moral; contudo, ele próprio era dado a seus próprios vícios, em especial uma pronunciada vaidade e as mentiras, quando isso servia aos seus propósitos. Em nossa própria época, uma hipocrisia singular e uma falta de integridade foram reveladas pelo renomado filósofo alemão Martin Heidegger, que aderiu ao partido nazista enquanto mantinha, ao mesmo tempo, um caso extraconjugal com a filósofa judia Hannah Arendt, que era aluna sua na época.

      Que a hipocrisia não tenha sido desconhecida no mundo do Yoga tradicional é evidente, a partir do fato de que, por exemplo, o Kulãrnava Tantra (13.107) se refere a professores embusteiros, que não têm realização espiritual e meramente enganam o aluno incauto. Essa tendência infeliz também está presente no Yoga contemporâneo, no qual encontramos instrutoras bulímicas de "Yoga" e instrutores que assediam sexualmente suas alunas. Em 2004, a revista Vogue exibiu um artigo sobre uma ex-modelo que, durante uma aula de yoga, sentiu muita dor de cabeça (exames posteriores revelaram que era um sintoma de tumor cerebral). Sua famosa instrutora de Yoga, no entanto, disse-lhe com animação que a dor era um despertar da kundalini, fingindo, assim, um conhecimento que certamente não possuía. Outro instrutor de Yoga, famoso no mundo todo, alega de modo descarado, à maneira de um vendedor de poções mágicas milagrosas do Velho Oeste, que o seu sistema cura todas as doenças.

      O foco exclusivo na aptidão física e na aparência de muitos pretensos professores de Yoga, que de maneira deliberada ignoram a ancoragem espiritual dessa antiquíssima disciplina, pode ser classificado como um tipo de fingimento e, por essa razão, de mentira. Eu levei a público essa questão controvertida em diversas ocasiões, e em todas as vezes fiquei surpreso pelo número de alunos que encontrou desculpas para os lapsos morais de seus professores. Minhas observações sobre a hipocrisia no movimento contemporâneo de Yoga raramente foram reconhecidas, embora ninguém contestasse meus exemplos. Tudo indica que o relativismo moral circula tão livremente nos círculos contemporâneos de Yoga como nas outras partes da nossa sociedade atual.

      O propósito desse lamentável catálogo de transgressões morais em nível pessoal, governamental e corporativo é simplesmente de refrescar a memória do leitor e salientar a seriedade do colapso atual da moralidade. Quando vemos a manifestação consistente do fracasso moral por meio da história da civilização humana e, especialmente, em nossa idade moderna, podemos nos sentir justificados por pensar que a imperfeição dos seres humanos é inerente. Como argumentou Jeremy Campbell em seu livro estimulante The Liar's Tale, os seres humanos têm circuitos neuronais para a falsidade e a própria natureza, como afirma Charles Darwin, é mentirosa. Para vencer o ritual de conquista ou conseguir sucesso no jogo da caça, não são poucas as espécies animais ou mesmo de plantas que mostram uma notável capacidade de fingimento. Pensemos na planta carnívora Cobra Lily, no cuco fraudulento ou na camuflagem do inseto bicho-pau. O homo sapiens, especialmente na variedade moderna, é computado entre os grandes fingidores.

      Vivemos num mundo de fingimento ou, como diriam os sábios vogues, de ilusão. Mas nós mesmos somos, em grande medida, responsáveis pelo mundo tal como o experimentamos. Isso não é mero papo-furado de Nova Era. Como já insistia Immanuel Kant, toda percepção é falsificada pelos conceitos que portamos na nossa mente. A mente é co-criadora do universo que ela considera exterior a ela, e independente dela. Por um lado, temos a Realidade; por outro, temos as aparências. Mas se o mundo empírico é essencialmente uma mentira, nós somos os mentirosos. Quando acrescentamos, a este ponto de vista filosófico, as percepções psicológicas de Sigmund Freud, quanto ao papel do inconsciente na vida cotidiana, a nossa realidade humana parece ainda mais ilusória. Entretanto, a partir de tudo isso, chegar à conclusão, como algumas pessoas estão acostumadas a fazer, de que a moralidade genuína é impossível para a nossa espécie seria um ponto de vista míope e impróprio.

      Pois, conforme as grandes representantes das tradições espirituais do mundo demonstraram repetidas vezes, os seres humanos também são plenamente capazes de clareza e virtude. A sua própria conduta moral exemplar foi aperfeiçoada por urna vida inteira de disciplina mental. O vício é simplesmente um hábito que surge de uma mente não disciplinada e não inspecionada. Como coloca o Yoga-Bhãshya (1.12), o comentário remanescente mais antigo em sânscrito sobre o Yoga-Sutra de Patanjali:

     A corrente mental flui em duas [direções]. Ela flui em direção ao bem e em direção ao mal. [A direção] que começa com o discernimento e termina na liberação flui em direção ao bem. A que começa com falta de discernimento e termina na existência condicionada flui em direção ao mal. Por meio da imparcialidade, o fluxo em direção a objetos [transitórios] dos sentidos é inspecionado, enquanto por meio da prática da visão do discernimento, a corrente do discernimento é exposta.

     A passagem acima articula um princípio que é fundamental para todas as tradições espirituais, que buscam transcender nosso condicionamento mental. Ele mostra que a mente auto transcendente é, em última análise, sempre uma mente virtuosa. E indispensável para a tarefa fundamental de criar uma mente virtuosa, que tenda de modo natural para a transcendência do ego, o cultivo da veracidade. Para citar novamente o Tiru-Kural (verso 298): "A água é usada para limpar o corpo, mas somente a veracidade purifica a mente." Uma mente purificada é uma mente em que não há programas inconscientes funcionando, que poderiam causar danos aos outros ou a nós mesmos, e que repousa de maneira espontânea na Realidade ou Verdade.

 
 
 

Autor:
Georg Feuerstein
Fonte:
Livro, As virtudes do Yoga
Editora:
Pensamento