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Assim
como o não ferir, a veracidade é
incluída entre as virtudes perenes no
Yoga e outras tradições espirituais.
Assim, no Mahãnirvãna Tantra (4.75-77),
composto há diversos séculos,
encontramos a declaração seguinte:
“Não
há virtude maior do que a verdade; não
há pecado maior do que a falsidade. Portanto,
um ser mortal deve buscar refúgio na
verdade com todo o seu ser.
A
veneração sem verdade é
fútil. A recitação (japa)
sem verdade é inútil. O ascetismo
(tapas) sem verdade é tão infrutífero
quanto a semente no solo estéril.
A
natureza da verdade é o Absoluto supremo.
A verdade é o maior ascetismo. Todas
as ações deveriam ser enraizadas
na verdade. Nada é superior à
verdade.”
O
adepto Patanjali, do século II, incluiu
a veracidade entre as cinco disciplinas morais
que constituem o "grande voto". Como
sugere a palavra sânscrita satya, a veracidade
tem relação com sat, que podemos
traduzir como "Realidade" ou "Ser".
A condição da veracidade produz
a verdade, ao passo que "uma boca mentirosa
mata a alma", como somos informados nos
Provérbios (1:11). Segundo o Yoga-Sutra
(2.36), um praticante de Yoga que tem uma base
firme nessa virtude é capaz de tornar
verdadeiro tudo o que ele diz. Isso não
é mera tautologia. Na verdade, os mestres
de Yoga são conhecidos por terem proferido
afirmações que na hora pareciam
bizarras, mas que não obstante se revelaram
exatamente conforme o previsto.
Como no caso do não ferir, a veracidade
deve ser praticada em relação
ao corpo, à fala e à mente. Assim
ela requer virtudes associadas como honestidade,
retidão, integridade, sinceridade, franqueza,
abertura e inocência que são destinadas
a revogar a mentira, desonestidade, falsidade,
fraudulência, pretensão, duplicidade,
hipocrisia, afetação, posturas
falsas, etc. Sem a veracidade, a sociedade humana
seria praticamente impossível. Podemos
reconhecer com facilidade como os numerosos
lapsos em veracidade que marcam a nossa sociedade
moderna complicam, sem necessidade, a nossa
vida.
Os antigos
alertaram que chegaria uma época em que
as pessoas deixariam de respeitar a verdade
e isso contribuiria para a sua ruína.
Hoje estamos literalmente cercados por mentiras
e simulação, desde a propaganda
e o comércio até a política
e as relações interpessoais. Para
muitos de nós, a verdade é o que
é conveniente no momento. Em termos morais,
nós quase gostamos de estar em situações
duvidosas, onde nem a verdade nem a falsidade
parecem se aplicar. Em certo sentido foi apropriado
abrir mão da moralidade em preto e branco,
às vezes intolerante, de antigamente,
uma vez que a vida é uma teia de muitas
cores. Contudo, tendemos a aplicar nossa nova
maneira de pensar de um modo indiscriminado,
geralmente com a intenção de obter
poder pessoal. Em grande medida, nós
relativizamos o comportamento moral e muitas
vezes ficamos indecisos e amedrontados ante
as escolhas morais à nossa frente.
O relativismo moral se tornou a filosofia predileta.
O argumento é que não existem
valores morais absolutos, pois o que é
considerado moral varia de cultura para cultura.
Isso significa, continuando a história,
que somos livres para fazer nossas próprias
regras morais ou até mesmo para aceitar
o anarquismo moral, se isso nos agradar. O relativismo
moral é baseado em meias verdades e é
inviável enquanto postura filosófica.
As virtudes, do meu ponto de vista (que é
o ponto de vista clássico), são
intrínsecas ao nosso ser. Elas estão
conectadas com os "valores do ser",
de Abraham Maslow. Num certo ponto do desenvolvimento
intelectual, moral e espiritual de uma pessoa,
se pode esperar que o que é sentido como
virtuoso é semelhante entre indivíduos
de maturidade equivalente. Assim, é unânime
entre os virtuoses espirituais, ou pessoas maduras
em termos morais, que a veracidade é
uma virtude altamente desejável, enriquecedora
e até mesmo libertadora, que deveria
ser cultivada a sério.
Antes
de discutir com maiores detalhes a virtude da
veracidade, eu gostaria de fazer um inventário
das muitas maneiras em que nossa civilização
ocidental contemporânea, cujos tentáculos
se estendem para o mundo todo, tem infringido
esse valor moral excepcional. Os insucessos
mais óbvios e graves em relação
à virtude da veracidade devem ser vistos
à luz das crenças ideológicas
fundamentais partilhadas, de modo consciente
ou inconsciente, pela maioria das pessoas nos
chamados países desenvolvidos. Essas
crenças, que são de natureza metafísica,
incluem as seguintes ideias:
1.
Existe uma realidade exterior, material, justaposta
a uma mente ou consciência subjetiva.
Além disso, os secularistas afirmam que
a mente ou consciência é um epifenômeno
do cérebro (isto é, a realidade
material). Em contrapartida, as tradições
espirituais dão precedência à
Mente, Atenção Plena ou Si Mesmo
em relação à existência
objetiva, o que leva a uma moralidade que ressalta
a responsabilidade pessoal pelo próprio
destino.
2.
Nós vivemos no mundo material e devemos
dar primazia às suas exigências.
Mesmo as pessoas que se consideram religiosas
aceitam esse ponto de vista, pelo menos na prática,
embora possam, em princípio, saber e
sentir que, nas palavras de Jesus de Nazaré,
deveríamos aspirar, acima de tudo, ao
Reino dos Céus. Se as pessoas realmente
ouvissem o ensinamento do Nazareno, a sua religiosidade
seria convertida em prática espiritual
verdadeira.
3.
As disciplinas espirituais rigorosas, conforme
promovidas pelo Yoga e outras tradições
semelhantes, não são relevantes
porque:
(a)
são totalmente despropositadas já
que, como supõem os secularistas, as
realidades ou dimensões espirituais não
existem; ou
(b)
elas são destinadas apenas a uns poucos
eleitos (isto é, os monges), que têm
a capacidade de contemplação;
ou
(c) a crença pessoal nas doutrinas religiosas
(por ex., "Jesus me salvará")
é suficiente; ou
(d) levar uma vida moralmente íntegra
é suficiente.
4.
Estamos encarnados e por isso nos identificamos,
de modo apropriado, com o corpo-mente, pelo
menos enquanto estamos na Terra, o que, para
os secularistas, é de fato o único
lugar possível de se estar. Em contrapartida,
entre as tradições espirituais
é universal o ensinamento de que o corpo
material não é o que parece e
que a identificação com o corpo
é, de fato, um erro fundamental, porque
implica esquecer da nossa identidade espiritual,
seja qual for nossa concepção
em relação a esta. Por causa da
íntima associação da mente
com o corpo, podemos falar de um corpo-mente.
Em consequência disso, nós também
nos identificamos com os diversos processos
mentais (ou psicossomáticos) que estão
associados com a existência física,
em especial as emoções negativas,
como o medo, o desejo ardente e a raiva. Em
último grau, nós até nos
identificamos com propriedades objetivas, tais
como nossos próprios pertences, nomes,
reputação, e assim por diante.
Muito drama (isto é, "coisas kármicas")
ocorre em torno dessas diversas identificações.
5.
Não temos nenhum controle sobre o processo
real da morte, quando quer que esta aconteça.
A despeito da identificação equivocada
das pessoas com o corpo-mente, elas em geral
não creem que a mente possa ter um controle
pormenorizado sobre as funções
corporais, em especial os processos envolvidos
na morte. As tradições espirituais
mais sofisticadas consideram decisivo o controle
do corpo-mente durante a morte. Elas sustentam
que o modo como saímos da vida encarnada,
seja de maneira consciente ou involuntária,
determina a qualidade do estado da desencarnação.
Uma saída controlada garante um aspecto
positivo do continuum mental na vida futura.
Existem amplas provas de que os grandes adeptos
do Yoga possuem esse domínio.
Há
diversos corolários das premissas acima,
mas relacioná-los iria muito além
do escopo da presente discussão. Se consideradas
de uma perspectiva espiritual, essas cinco hipóteses
correspondem a um modo de iludir a nós
mesmos: uma mentira. Uma vez que essas falsas
crenças constituem os fundamentos desse
modo de pensar, é inevitável que
elas afetem nossa vida inteira e o fazem de
uma maneira negativa. De fato, elas nos enfraquecem
quando nos dão a ilusão de que
estamos à mercê do destino, da
divina providência ou do acidente cósmico,
ilusão que pode ser consolo temporário,
mas que, em última análise, é
frustrante.
Uma vez que vemos a nós mesmos como basicamente
desamparados, temos todas as desculpas de que
precisamos para ceder à fé cega
em dogmas religiosos ou científicos,
bem como à preguiça, indiferença,
tédio, irresponsabilidade, ausência
de resposta, e assim por diante, que são
reconhecidos como vícios no caminho yogue.
O que nos resta, então, é nossa
realidade consensual cotidiana, ou seja, a realidade
surreal dos sonâmbulos.
É a partir dessa realidade consensual
que muitas pessoas permitem que as coisas aconteçam,
não por causa de uma disposição
irresistível de repúdio, mas por
pura apatia: a devastação consumada
do ambiente; as maquinações políticas
que levam à injustiça, a discriminação,
a corrupção, a opressão
e a guerra; a exploração econômica
dos países do Terceiro Mundo no velho
espírito colonial e o consumo desenfreado
em casa; fome mundial e pobreza; índices
galopantes de crimes e delinqüência
juvenil; o vício disseminado nas drogas
e no álcool; negligência e maus-tratos
dos idosos, e assim por diante.
A seguir, eu gostaria de abordar apenas três
áreas públicas nas quais o baixo
nível da virtude da veracidade é
incessante: a política, o mundo das corporações
(incluindo a publicidade e o marketing) e a
mídia. Em primeiro lugar a política,
que exibe um recorde especialmente desastroso
de tendência à não veracidade.
Sem dúvida, são sempre políticos
individuais, e não a política
em termos abstratos, que praticam esse vício
específico.
Em seu livro best-seller, Major Garrett e Timothy
J. Penny identificam quinze grandes mentiras
que os políticos americanos gostam de
contar e que a mídia gosta de anunciar.
Entre elas estão: "religião
e política não se misturam",
"a imigração prejudica a
América", "a receita será
equilibrada" e "a previdência
social é uma responsabilidade sagrada
do governo". Qualquer pessoa que tenha
um mínimo de familiaridade com a política
americana sabe que o fundamentalismo religioso
é um traço importante do cenário
político americano contemporâneo;
os imigrantes são necessários
para manter o andamento da economia; a receita
nunca será equilibrada enquanto os políticos
prometerem cortes nos impostos e ao mesmo tempo
subvencionarem mais de 400 bilhões de
dólares ao exército. Como admitiu
o vice-presidente Dick Cheney, em 2018 a previdência
social começará a pagar mais do
que recebe e, finalmente, o sistema entrará
em colapso. As mentiras acima são rotineiras
para os políticos, e eles costumam escapar
delas sem punição, porque a maioria
das pessoas parece querer ouvi-las. O eleitorado
americano é extremamente desmemoriado
e, de um modo estranho, parece disposto a perdoar
o fato de ser sempre ludibriado.
Quem não se lembra da antiga promessa
infame de George Bush: "Leiam meus lábios:
não haverá novos impostos",
reiterada ad infinitum durante a eleição
presidencial de 1988 e descumprida assim que
ele foi nomeado? O seu sucessor na Casa Branca
parece ter uma aptidão ainda maior para
a desonestidade e prestidigitação
política . Não foram poucos os
comentaristas políticos independentes
que observaram que o atual regime americano
é notório pela profusão
de mentiras ao público. Os ataques injustificados
e ilegais (segundo a lei internacional) ao Afeganistão
e ao Iraque tornaram-se possíveis apenas
por causa de toda uma série de mentiras,
que ainda estão sendo identificadas para
uma avaliação final pública.
Talvez a maior das grandes mentiras políticas
contemporâneas é que a guerra ao
terrorismo pode levar à vitória
e está, no momento, sendo vencida. Os
sacos que transportavam corpos dos soldados
americanos nos voos de retorno às famílias
amarguradas contam uma história diferente
e, por esse motivo, são cuidadosamente
mantidos fora da vista pública.
Os meios de comunicação de massa
mentem, sobretudo por omissão. Para começar,
nunca são muito precisos no relato das
notícias; é evidente que os principais
meios de comunicação foram seduzidos
pelo do mundo corporativo, que tem um interesse
pessoal por política. Naturalmente, as
oligarquias corporativas, como seus companheiros
políticos, não querem que o público
tenha o exato conhecimento das coisas que são
vitais às organizações
capitalistas. Isso foi apresentado de maneira
hábil por Robert W. McChesney e outros
escritores. A Declaração Universal
dos Direitos Humanos garante que "todas
as pessoas têm o direito à liberdade
de opinião e expressão" e
que "esse direito inclui a liberdade de
sustentar opiniões sem interferência
e de procurar, receber e transmitir informações
e ideias por quaisquer meios de comunicação,
a despeito das fronteiras". Contudo, a
noção de "livre imprensa"
se tornou até certo ponto um oximoro,
e críticos começaram a considerar
a mídia como uma divisão do governo.
Precisamente porque os meios de comunicação
de massa agem em parceria com os políticos,
é difícil obter notícias
confiáveis e detalhadas sobre acontecimentos
de importância vital, como a guerra no
Iraque, a devastação da Iugoslávia
pelas forças da OTAN, o uso continuado
de urânio empobrecido nas armas, ou os
maus-tratos abusivos dos prisioneiros de guerra
do Iraque. Não fosse pela coragem e determinação
de alguns jornalistas, o público em geral
permaneceria ignorante de todos esses embustes
políticos e militares, bem como os seus
equivalentes no setor corporativo.
Pelo fato de os meios de comunicação
de massa clamarem pela receita do setor corporativo,
eles se tornam veículos das mentiras
inveteradas das relações públicas,
geradas pelas corporações. Todos
os anos, as corporações gastam
bilhões de dólares para fazer
com que as Relações Públicas
(RP) projetem uma imagem tão angélica
quanto as circunstâncias permitirem, enquanto
elas continuam a extorquir o povo, enganar o
governo e poluir o ambiente. Na vida privada,
esse traço detestável é
conhecido por hipocrisia. Conforme expressa
o sociólogo australiano Alex Carey: "O
século XX foi caracterizado por três
fatos de grande importância política:
o crescimento da democracia, o crescimento do
poder corporativo e o crescimento da propaganda
corporativa como um meio de proteger o poder
corporativo contra a democracia."
Que
nem mesmo as organizações religiosas
sejam imunes à mentira, especialmente
quando estão associadas com a política,
foi amplamente demonstrado no caso de televangelismo
americano. Os escândalos vergonhosos dos
evangélicos da TV americana da laia de
Jim Bakker, Fred Price, W. V. Grant, Bob Larson
e Peter Popoff deixou clara a lição
de que os líderes religiosos não
são imunes à corrupção,
fraude de impostos, mentiras, roubo, lavagem
de dinheiro e apropriação indébita.
Os homens do clero de outras tradições
religiosas também não estão
livres daquilo que seria chamado, por suas congregações,
de pecado capital da mentira, para não
mencionar o da concupiscência. 20 O império
religioso de Jim Baker valia mais de 170 milhões
de dólares quando ele foi mandado para
a prisão em 1987.
Em 2004, nada menos do que a augusta instituição
religiosa do Vaticano foi pega em uma mentira
enorme, quando o Cardeal Alfonso López
Trujillo, o porta-voz do Vaticano em assuntos
da família, declarou que "confiar
em preservativos é como apostar na sua
própria morte". A postura rígida
do Vaticano acerca do controle de natalidade
é bem conhecida, mas dessa vez o World
Health Organization (WHO) imediatamente tomou
a atitude de condenar a propaganda enganosa
do cardeal. A WHO lembrou ao cardeal que à
luz da epidemia da AIDS, que está devastando
a África, até mesmo um método
que não é plenamente seguro é
melhor do que método nenhum.
Sem dúvida, as pessoas e as organizações
mentem por vários motivos, mas em geral
é por interesse próprio e muito
raramente para proteger ou beneficiar alguém,
como no caso daquelas "pequenas mentiras
inofensivas". Enquanto Aristóteles
mantinha que mentir é sempre imperdoável,
Platão adota uma visão um tanto
diferente em sua República, ao permitir
que estadistas e médicos mintam desde
que isso não prejudique, mas, de fato,
beneficie os outros. O Tiru-Kural (Aforismos
Religiosos) de Tamilnadu, que é atribuído
ao santo indiano do sul da índia do século
III, Tiruvalluvar, expressa um sentimento semelhante:
"Mesmo a falsidade tem a natureza da verdade,
caso produza resultados impecáveis"
(verso 292). No pântano moral da civilização
contemporânea, esse tipo de leniência
em relação aos políticos
é uma receita para o desastre. Mesmo
em situações particulares, quando
aprovamos o ponto de vista de que o fim justifica
os meios, mentir para o "bem" dos
outros pode, de muitas maneiras, ser um tiro
que sai pela culatra. É sem dúvida
preferível tomar um rumo de honestidade
em todas as questões, a menos que um
senso irresistível de compaixão
nos inspire a ocultar a verdade para alguém
que, de outra maneira, seria prejudicado. Santo
Agostinho pensava que até a mentira compassiva
representa um desvio injustificado da verdade
e que é melhor permanecer em silêncio
do que sucumbir a qualquer tipo de mentira.
Apenas
o que os teólogos católicos chamam
de "mentira jocosa" (uma mentira que
tem um caráter inequívoco de brincadeira)
não é uma violação
da verdade.
Hipocrisia é quando fingimos ter boas
qualidades que sabemos que não possuímos.
É, em definitivo, um tipo de mentira.
Em outubro de 2005, o papa Bento XVI sentiu
a necessidade de chamar a atenção
da hipocrisia de políticos que professam
a fé cristã mas que muitas vezes
votam contra o poder do Vaticano. No seu sermão
de abertura, o papa observou que: "o tipo
de tolerância que permite Deus como uma
opinião privada, mas se recusa a permiti-lo
na arena pública não é,
na realidade do mundo e de nossa vida, uma tolerância,
mas uma hipocrisia." Os 250 bispos presentes
ao sínodo estavam deliberando se aos
hipócritas políticos deveria ser
recusada a comunhão. Um exemplo típico
é fornecido pelo primeiro-ministro canadense
Paul Martin, que votou a favor do casamento
entre pessoas do mesmo sexo, apesar de considerar
a si próprio um católico devoto.
Ele protestou que, na condição
de legislador, que respeita a separação
entre Igreja e Estado, ele não deve permitir
que sua consciência pessoal interfira
com o negócio da política. Tanto
as preocupações do papa quanto
a resposta de Martin realçam as margens
indistintas entre as crenças privadas
e os deveres e lealdades políticas, bem
como entre a consciência pessoal e a doutrina
religiosa absolutista.
Durante décadas, a Sé Papal fez
vista cega em relação a políticos
abertamente católicos que transgrediam
o sexto mandamento: "Tu não matarás."
Sem dúvida, há muito existe uma
controvérsia sobre a correta tradução
desse mandamento, e os judeus insistem que essa
lei divina se refere ao assassinato e não
a matar em geral. Não obstante, a constante
violação dessa lei bíblica
pelos políticos católicos, como
quando eles instigam ou aprovam a guerra, parece
muito mais significativa do que a legislatura
de Martin sobre uniões homossexuais,
que é condenada, de uma perspectiva católica.
A fragilidade moral da hipocrisia às
vezes assedia até mesmo aqueles de quem
esperaríamos mais, como os filósofos.
Assim, o filósofo e educador do século
XVIII, Jean Jacques Rousseau, colocou os seus
cinco filhos num orfanato de Paris, assim que
eles foram desmamados. Ele justificou a sua
ação dizendo que, se não
fosse isso, eles cresceriam na pobreza. François
Marie Arouet, que adquiriu fama sob o pseudônimo
de "Voltaire", desprezava Rousseau
por esse lapso de julgamento moral; contudo,
ele próprio era dado a seus próprios
vícios, em especial uma pronunciada vaidade
e as mentiras, quando isso servia aos seus propósitos.
Em nossa própria época, uma hipocrisia
singular e uma falta de integridade foram reveladas
pelo renomado filósofo alemão
Martin Heidegger, que aderiu ao partido nazista
enquanto mantinha, ao mesmo tempo, um caso extraconjugal
com a filósofa judia Hannah Arendt, que
era aluna sua na época.
Que a hipocrisia não tenha sido desconhecida
no mundo do Yoga tradicional é evidente,
a partir do fato de que, por exemplo, o Kulãrnava
Tantra (13.107) se refere a professores embusteiros,
que não têm realização
espiritual e meramente enganam o aluno incauto.
Essa tendência infeliz também está
presente no Yoga contemporâneo, no qual
encontramos instrutoras bulímicas de
"Yoga" e instrutores que assediam
sexualmente suas alunas. Em 2004, a revista
Vogue exibiu um artigo sobre uma ex-modelo que,
durante uma aula de yoga, sentiu muita dor de
cabeça (exames posteriores revelaram
que era um sintoma de tumor cerebral). Sua famosa
instrutora de Yoga, no entanto, disse-lhe com
animação que a dor era um despertar
da kundalini, fingindo, assim, um conhecimento
que certamente não possuía. Outro
instrutor de Yoga, famoso no mundo todo, alega
de modo descarado, à maneira de um vendedor
de poções mágicas milagrosas
do Velho Oeste, que o seu sistema cura todas
as doenças.
O foco exclusivo na aptidão física
e na aparência de muitos pretensos professores
de Yoga, que de maneira deliberada ignoram a
ancoragem espiritual dessa antiquíssima
disciplina, pode ser classificado como um tipo
de fingimento e, por essa razão, de mentira.
Eu levei a público essa questão
controvertida em diversas ocasiões, e
em todas as vezes fiquei surpreso pelo número
de alunos que encontrou desculpas para os lapsos
morais de seus professores. Minhas observações
sobre a hipocrisia no movimento contemporâneo
de Yoga raramente foram reconhecidas, embora
ninguém contestasse meus exemplos. Tudo
indica que o relativismo moral circula tão
livremente nos círculos contemporâneos
de Yoga como nas outras partes da nossa sociedade
atual.
O propósito desse lamentável catálogo
de transgressões morais em nível
pessoal, governamental e corporativo é
simplesmente de refrescar a memória do
leitor e salientar a seriedade do colapso atual
da moralidade. Quando vemos a manifestação
consistente do fracasso moral por meio da história
da civilização humana e, especialmente,
em nossa idade moderna, podemos nos sentir justificados
por pensar que a imperfeição dos
seres humanos é inerente. Como argumentou
Jeremy Campbell em seu livro estimulante The
Liar's Tale, os seres humanos têm circuitos
neuronais para a falsidade e a própria
natureza, como afirma Charles Darwin, é
mentirosa. Para vencer o ritual de conquista
ou conseguir sucesso no jogo da caça,
não são poucas as espécies
animais ou mesmo de plantas que mostram uma
notável capacidade de fingimento. Pensemos
na planta carnívora Cobra Lily, no cuco
fraudulento ou na camuflagem do inseto bicho-pau.
O homo sapiens, especialmente na variedade moderna,
é computado entre os grandes fingidores.
Vivemos num mundo de fingimento ou, como diriam
os sábios vogues, de ilusão. Mas
nós mesmos somos, em grande medida, responsáveis
pelo mundo tal como o experimentamos. Isso não
é mero papo-furado de Nova Era. Como
já insistia Immanuel Kant, toda percepção
é falsificada pelos conceitos que portamos
na nossa mente. A mente é co-criadora
do universo que ela considera exterior a ela,
e independente dela. Por um lado, temos a Realidade;
por outro, temos as aparências. Mas se
o mundo empírico é essencialmente
uma mentira, nós somos os mentirosos.
Quando acrescentamos, a este ponto de vista
filosófico, as percepções
psicológicas de Sigmund Freud, quanto
ao papel do inconsciente na vida cotidiana,
a nossa realidade humana parece ainda mais ilusória.
Entretanto, a partir de tudo isso, chegar à
conclusão, como algumas pessoas estão
acostumadas a fazer, de que a moralidade genuína
é impossível para a nossa espécie
seria um ponto de vista míope e impróprio.
Pois, conforme as grandes representantes das
tradições espirituais do mundo
demonstraram repetidas vezes, os seres humanos
também são plenamente capazes
de clareza e virtude. A sua própria conduta
moral exemplar foi aperfeiçoada por urna
vida inteira de disciplina mental. O vício
é simplesmente um hábito que surge
de uma mente não disciplinada e não
inspecionada. Como coloca o Yoga-Bhãshya
(1.12), o comentário remanescente mais
antigo em sânscrito sobre o Yoga-Sutra
de Patanjali:
A
corrente mental flui em duas [direções].
Ela flui em direção ao bem e em
direção ao mal. [A direção]
que começa com o discernimento e termina
na liberação flui em direção
ao bem. A que começa com falta de discernimento
e termina na existência condicionada flui
em direção ao mal. Por meio da
imparcialidade, o fluxo em direção
a objetos [transitórios] dos sentidos
é inspecionado, enquanto por meio da
prática da visão do discernimento,
a corrente do discernimento é exposta.
A
passagem acima articula um princípio
que é fundamental para todas as tradições
espirituais, que buscam transcender nosso condicionamento
mental. Ele mostra que a mente auto transcendente
é, em última análise, sempre
uma mente virtuosa. E indispensável para
a tarefa fundamental de criar uma mente virtuosa,
que tenda de modo natural para a transcendência
do ego, o cultivo da veracidade. Para citar
novamente o Tiru-Kural (verso 298): "A
água é usada para limpar o corpo,
mas somente a veracidade purifica a mente."
Uma mente purificada é uma mente em que
não há programas inconscientes
funcionando, que poderiam causar danos aos outros
ou a nós mesmos, e que repousa de maneira
espontânea na Realidade ou Verdade.
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