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Entender os movimentos
da vida e aproveitar seu fluxo
é a lição zen-budista de sabedoria da monja Coen
ÉPOCA
- Da perspectiva do zen-budismo, qual é a importância
do pensamento positivo?
Monja
Coen - Não sei se chamaria de pensamento positivo. Uma
das virtudes é o contentamento. Tudo o que pode acontecer faz parte
da experiência da vida. Não há nada a se apegar ou
pelo que sentir aversão. Não há sentido em excluir
ou rejeitar fatos, pessoas, sentimentos. Contudo, podemos transformar
em compreensão superior, em compaixão, aquilo que a princípio
seria considerado prejudicial, negativo, deprimente. No início
do ano, os zen-budistas tocam 108 badaladas, o que significa que há
108 obstáculos à iluminação. No entanto, cada
obstáculo é um portal. Quando vem um problema na vida, vêm
também novos caminhos, uma chance de se aprofundar, de compreender
algo. O que parece um bloqueio não precisa ser visto dessa forma.
O ser iluminado vive sem obstáculos e sem medo. Não sei
se isso se chama pensamento positivo.
ÉPOCA
- Como se chamaria então?
Monja
Coen - De aceitação
da realidade. Saber que se trata de um processo e é nossa responsabilidade
transformá-lo. Há três princípios para buscar
a paz verdadeira. O primeiro é o não-saber, manter a mente
aberta, não ser como os especialistas que acreditam que sabem tudo.
Não sabemos nem o que vai acontecer daqui a um minuto. A realidade
não se adapta a nossos desejos.
ÉPOCA
- Essa postura não é passiva?
Monja
Coen - É pura atividade.
Temos uma postura de não-violência ativa. O segundo princípio
para a paz é ver a realidade, ouvir e se manter sensível
às dores e alegrias do mundo. Buda quer dizer "o ser iluminado,
aquele que desperta". Cada um deve acordar para a essência
da vida e de si mesmo. O terceiro princípio é a ação
transformadora amorosa. Mesmo a meditação não é
passividade. É a mente estudando a mente.
ÉPOCA
- Há fatos difíceis
de aceitar, como a perda de um ente querido...
Monja
Coen - Que oportunidade para
a reflexão! Quando perdem alguém de que gostam, as pessoas
percebem que vão morrer, que tudo que conhecem tem um começo,
um meio e um fim, que o Universo está em contínua transformação.
É dolorido, mas nos tira um pouquinho do eu. Passamos a dar valor
aos instantes presentes, que são tudo o que realmente temos. Todos
os nossos dramas estão no passado ou no futuro. Está tudo
morrendo e renascendo a cada instante. O Universo não pára,
está tudo se movendo, tudo fluindo. Sofremos porque tentamos segurar
aquilo de que gostamos. Não podemos segurar nada. A única
coisa que podemos fazer é fluir junto.
ÉPOCA
- Sorrir faz diferença?
Monja
Coen - A minha superiora
no Japão sempre dizia: "Um rosto sorridente pode transformar
o mundo". Eu brigava com ela. Não estava muito feliz, e ela
queria que eu ficasse rindo! Hoje sei o que quis dizer. Quando cria harmonia
em si próprio, o ser humano provoca harmonia nas coisas a sua volta.
A questão é perceber que estamos em rede, que tudo está
conectado e que uma atitude benéfica transforma o entorno.
ÉPOCA
- Como acolher o bandido
que põe fogo num ônibus, o terrorista que explode escolas,
o presidente que defende a tortura?
Monja
Coen - Percebendo que somos
todos capazes de fazer qualquer coisa. Cada um é tão mau
quanto o pior dos seres humanos ou tão bom quanto o melhor. Quando
Gandhi foi falar com os ingleses acompanhado de companheiros que tinham
raiva, não conseguiu um acordo. Na segunda vez, disse: "Só
vai comigo quem for capaz de amar os ingleses". Aí teve acerto.
Se você não for capaz de amar e entender as pessoas que pensam
diferente, nunca vai haver acordo. Quem mata e rouba o faz por ignorância,
porque se acha separado do todo, crê que suas necessidades têm
mais urgência. Não sabe que o mal que solta no mundo volta
para si.
ÉPOCA
- Mesmo que se arrependa
não há como consertar?
Monja
Coen - Há como atenuar.
Mas o mal feito já foi lançado no Universo e não
há como mudar isso. É um bumerangue: o que você joga
neste mundo volta para você.
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