Cansaço

É muito trânsito, muito
barulho, muito trabalho, muita comida, muita gente, muita fadiga. O fim
do dia parece o fim da vida.
Arrebentada, cai na cama e procura
um livro, uma linha para inspirar o sono, o sonho. Há quem escolha
o que vai sonhar? Alguns dizem que sim. Alguns dizem que estamos em um
sonho. Como será o despertar?
Há pessoas despertando agora.
Há algumas que se recusam a despertar. Querem dormir e dormir,
sonhar e sonhar.
Há as que querem despertar
e não conseguem. O sono as embala, e o sonho as encanta.
Havia um monge que queria muito conhecer
o quarto estágio da iluminação. Ele era uma pessoa
muito simples e alguns dos outros monges achavam que ele era tolo. Resolveram
pregar uma peça. Disseram a ele que se sentasse em um canto da
sala e ficasse bem quietinho. Então, jogaram uma bola com toda
força e ele levou um baita susto. "Esse é o primeiro
estágio iluminado", disseram escondendo o riso.
Disseram a ele que, se sentasse no
outro canto da sala e ficasse bem quietinho, alcançaria outros
estágios. E novamente o assustaram. Da terceira e da quarta vez,
fizeram a mesma coisa. No final, estavam às gargalhadas, achando
que haviam pregado uma boa peça no monge quando perceberam que
ele, tendo acreditado, havia atingido o estágio superior de iluminação
e sorria.
Mas nem sempre é assim. Não
basta apenas acreditar. É preciso praticar o caminho, entregar-se
a ele. A história é para alertar os que se acham sabidos
a não fazer pouco das pessoas que consideram tolas.
Quando estudávamos a discriminação
social no Japão, fomos percebendo que aqueles que discriminam devem
ser apiedados e orientados, pois estão fechados em universos pequenos,
restritos e apertados. Têm medo de perder suas poucas conquistas,
temem pela preservação de seus mundinhos e querem destruir
a fantasia das ameaças.
Muitas das ameaças são
fantasiosas. O medo faz com que todos se tornem inimigos. E como dizer
que não há inimigos?
Cansaço. No regaço da
mãe poder descansar. Chorar e rir. O abraço que entende,
acolhe, protege e deixa dormir.
Encontrar-se nos braços de
Buda, mãe e pai amorosos e ternos. Ser esse braço, essa
mão, esse colo que não discrimina.
Hoje é o dia. Relaxando os
músculos depois de retesá-los. Pedaço por pedaço,
dos pés à cabeça. Respirar fundo, expirar mais longo
e profundo que inspirar. Limpar os pulmões, abrir corações,
artérias e veias.
Há tanto sofrimento, há
tantos lamentos. O pequeno altar do templo está atormentado de
pedidos de saúde,de emprego, de bons relacionamentos, de paz, de
tranqüilidade, amizade, amor, ternura, saudade.
Nas preces diárias vou me lembrando
de quem reza e não pede, nunca quer nada, apenas agradece. Se a
gente pudesse entender esta vida, estes encontros e desencontros, essas
doenças, essas feridas.
Se a gente pudesse entender o cansaço
de tentar e tentar e jamais alcançar um estado perfeito. Se a gente
pudesse entender que a imperfeição é perfeita em
si mesma.
Que a beleza mais bela de todas é
simples, singela. Que não mentir faz bem. Que ser feliz é
possível, sim. Que a escolha é nossa.
Silêncio que é hora de
o sonho acabar.
Desperta. Acorda. Vem trabalhar. Pela
janela do ônibus que arranca, segura para não cair e vê
reluzindo, no sol da manhã, a moeda caída, no chão
perdida. Procura mostrar para o cobrador, que no celular fala com seu
amor. Sem chance, sangrando, o peito arfando, não tem mais tostão.
Lá vem desconto, bronca do patrão. Assim é a vida
de um dos lados, muitos amores, muitos cansaços e já nem
ouve o barulho dos carros, nem vê a sujeira das ruas, nem reclama
do buraco nas calçadas, não chora, não ri. Alerta,
desperta. A vida passando. E você, onde fica?
Monja Coen
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