Dez imagens do caminho Espiritual


Otávio Leal
     
 

A busca pelo Si-Mesmo

No campo a Busca

     Aqui inicia-se a busca pelo Boi. O Boi aqui representa seu Purusha, alma ou Self, o ser.

     É o começo da busca espiritual, a sua busca pelo Si-mesmo, pela natureza da iluminação dentro e fora de si.

     No Sansara (mundo exterior) somos tão perturbados por desejos, medos, ansiedade, stress diário, confusão, ilusões e principalmente perdas. O Lama Super Das aponta que “precisamos aprender que o universo nos matriculou na universidade da vida, que se chama perda”

     O buscador percebe que perdeu algo, que está distante de si. É como se algo estivesse faltando em sua vida. Em verdade, o Boi nunca se perdeu, isso é uma ilusão e o mestre zen Kakuan disse a respeito da figura:

     “O Boi nunca se extraviou realmente e, então, por que procurá-lo? Tendo voltado as costas para sua Verdadeira natureza, o homem não pode vê-lo. Por causa de sua corrupção, perdeu de vista o Boi. Repentinamente, ele se defronta com um labirinto de caminhos encruzados. A ambição de ganho terreno e o pavor da perda surgem como chamas extintas, idéias de certo e de errado projetam-se como adagas”

Encontrando as pistas

     Aqui o buscador abandona sua vida mundana e parte, ainda não sabendo o que esperar, em busca do boi (do essencial da sua vida). Ele observa algumas pistas em pegadas. Em nossa vida, essas pegadas podem ser vistas em práticas de meditação, yoga, Tai Chi Chuan ou o contato com o mestre. O místico e filosofo Sócrates ensinou que uma vida não examinada, não vale a pena ser vivida. O mestre Kakuan aponta:

      “Ele é incapaz de distinguir o bem do mal, a verdade da mentira. Não passou realmente pelo portão, mas tenta ver os rastros do Boi”

Vislumbre o Boi

     O Buscador tem um vislumbre do Boi, do Si-Mesmo que lhe dá a confiança que esta no caminho certo. É necessário alguns passos para tocá-lo. Para isso deve-se abandonar velhos padrões do passado, romper conceitos limitantes, reconhecer nossas sombras e instintos, reconhecer a Si-Mesmo como o Buda, o iluminado.

     O monge budista Bojo Guksa apontou:

     “Exibindo seus chifres, o búfalo berra audivelmente, Correndo ao largo do caminho da montanha na distância. Uma mancha de nuvens negras paira sobre o vale, O Búfalo esmaga as mudas de trigo por onde passa.”

Agarrando o Boi

     O Buscador se dá conta da grandiosidade do que está procurando e através de sua força e disciplina nas buscas pelo Si-Mesmo tenta controlar o Boi. Ensina Bojo Guksa:

     “Hoje ele encontrou o Boi, que tinha estado longamente corcoveando nos campos agrestes, e, realmente, o agarrou. Por tanto ele esteve vagando pelos arredores que não era fácil romper com os velhos hábitos. Continua a ansiar por pastagens cheirosas, é ainda obstinado e indomável. Se o homem quiser domá-lo inteiramente, tem de usar seu chicote.”

     Poucos são os buscadores de verdade que através da disciplina prossegui no caminho. O chicote aqui representa essa disciplina espiritual.

Controle Inicial

     Através de práticas e treinamentos adiantados de medição ou contemplação (entrega) ou dos ensinamentos dos Mestres é reconhecido a força interna que permite-se agarrar o Boi. Esse é o poder dos Budas.

     O buscador teve aqui sua 1º experiência mística que aponta o retorno ao nosso “lar”.

     Ainda há desequilíbrios na vida e deve-se seguir com persistência segurando a corda não permitindo que o Boi se extravie.

     “Controlado por uma corda através do seu nariz, O búfalo corre velozmente sob o chicote. Não é coisa fácil superar um temperamento teimoso. Conforme o garoto luta muito para conduzir o búfalo”

Bojo Guksa

     Após a força inicial para domá-lo, o Boi obedece a seu mestre. É a libertação tão apontada por todos os Budas.

Sob controle

     O buscador relaxa em cima do Boi de forma celebrativa tocando uma flauta. Ele sente-se livre e reconhece sua verdadeira natureza. É o Moksha ou libertação (vazio).

     “Sob o choupo verde, pelo caminho antigo, o búfalo move-se em harmonia com a natureza, Retornando ao pôr-do-sol sobre a campina fragrante, o búfalo segue o garoto, que soltou a corda.”

     O monge Bojo Aponta:
     “Dormindo muito satisfeito sob o céu, O búfalo nunca mais precisará do chicote. O garoto, sentado sob o pinheiro, Começa a tocar uma musica tranqüila, alegre.”

     “cessou a luta, ‘ganho’ e ‘perda’ não mais o afetam. Ele cantarola as melodias rústicas dos lenhadores e toca os cantos simples das crianças da aldeia. Montado no Boi contempla serenamente as nuvens no alto. Não volta a cabeça na direção das tentações. Embora alguém possa tentar perturbá-lo, permanece impassível”

Relaxamento

     O Buscador chega em “casa”. Ele está livre. O touro desapareceu, foi esquecido e isso mostra o “fim das Buscas”. Tudo é reconhecido como a “Natureza do Buda”

     O mestre Zen Kakuan aponta:
    “No Dharma não há dualidade. O Boi é a Natureza primitiva: Ele o reconhece agora. Uma armadilha não é mais necessária quando se apanhou um coelho, uma rede torna-se inútil quando se pegou um peixe. Como o ouro separado da escória, como a lua que atravessa as nuvens, um raio de Luz irradiante brilha eternamente”

Vazio

    Estado de Pureza e consciência pura e límpida. Os iluminados reconhecem o vazio ou a alma/Espírito de tudo o que está em nossa volta. Não existe julgamentos. Aonde há fumaça.... há fogo.

    Bojo ensina:
    “Tanto garoto como o búfalo não se encontram em parte alguma, A lua ilumina o vazio imenso. Se em busca do significado de tudo isso. Olhe para as flores silvestres e para a grama fragrante”

    “Eu sou um buda e supera rapidamente o estagio de ‘Agora me purifiquei do orgulhoso sentimento de que não sou Buda’. Mesmo os mil olhos [dos quinhentos Budas e Patriarcas] não podem discernir nele uma qualidade especifica. Se centenas de pássaros fossem agora juncar de flores o seu quarto, ele não poderia envergonhar-se de si mesmo”

Kakuan em Kapleau

Dissolução

    Tudo é exatamente como se é...
    O relaxamento é total. A brincadeira divina (Leela) é plena.
    Não existe boi nem buscador. Não existe diferença entre o interior e o exterior.

    “Ele observa o crescer e o decrescer da vida no mundo enquanto permanece imparcial, num estado de imperturbável serenidade. Esse [crescer e decrescer] não é fantasma ou ilusão, porém, uma manifestação da Fonte. Por que então há necessidade de lutar por alguma coisa? As águas são azuis, as montanhas verdes. Só consigo mesmo ele observa a mudança incessante das coisas”

Kakuan em Kapleau

O Retorno

    O Buscador volta ao mundo e reconhece sua iluminação e a de todos os seres.

    O mestre Osho dizia: “estamos no mundo, mas não somos o mundo”

    Jesus apontava: “O meu reino não é daqui”

Relaxe.

    “O portão de sua casinha está fechado e mesmo os mais sábios não podem encontrá-lo. Seu panorama mental desapareceu por fim. Segue seu próprio caminho não tentando seguir os passos de antigos sábios. Carregando uma cabaça [de vinho], passeia pelo mercado; apoiado em seu bordão, volta para casa. Ele guia os estalajadeiros e peixeiros no caminho de Buda”

Kakuan em Kapleau

    O Mestre Zen, que “sabe” que tudo é Buda, pode agora voltar às atividade dos estágios iniciais com uma perspectiva diferente.

 
 
 

Autor:
Otavio Leal