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Há pouco menos de um ano, fiquei devastada quando meu gatinho querido morreu atropelado. Passei uma semana chorando à toa, pensando no tempo que eu imaginava que ia viver com ele (anos e anos), no que ele estaria fazendo naquela hora se estivesse vivo, no que eu podia ter feito e não fiz. Fiquei perplexa também com minha própria tristeza: oras, eu sou budista, contemplo a impermanência todos os dias, faço treinamentos em meditação para o momento da minha morte, lembro de perdas e do fim "de tudo que nasce" o tempo todo. E sofro uma barbaridade porque meu gato morreu? Ué... Cadê o desapego, a meditação, a consciência de que nada nos pertence propriamente, nada dura para sempre, tudo tem fim?
Tratei da minha dor falando sobre ela - e ouvindo. Várias pessoas repartiram comigo o amor por seus bichos e o sofrimento de perdê-los. Aliás, obrigada aos que escreveram! Hoje eu tenho um gato novo. Um não, dois. Uma amiga diz que o Taz - o gato que morreu, que foi o primeiro gato que eu tive -"abriu as portas" para os outros (antes dele, eu só pensava em ter cachorro). Quero ter vários. Essa amiga também diz que vou acabar sendo uma "velha louca dos gatos":
Um dos gatos foi presente da Lúcia, que se compadeceu da minha perda. Presenteada com um lindo Maine Coon - raça de gatos muito grandes, muito peludos e muito dengosos -, pensou logo em mim. Mandou e-mail, se apresentou, ofereceu o filhote. Aceitei. Era estranho "substituir" o Taz, mas eu queria muito oferecer minha casa a outro bicho.
Cadê o desapego, a meditação, a consciência de
que nada nos pertence e de que tudo tem fim?
Depois dele, a Sandra, amiga da minha filha, mandou por e-mail a foto de uma gatinha recém-nascida. Pretinha, com ar ressabiado, era a cara do Taz - que tinha sido achado em um terreno baldio. E assim a família aumentou outra vez, com um detalhe bizarro: quando os primeiros dois gatos vieram para casa, pensávamos que eram gatas. O Taz se chamava Betty, Tom se chamava Agata. Depois descobrimos que eram meninos. Quando a Nika chegou, eu já estava escaldada (engraçado, o ditado diz que são os gatos...) e perguntei para um veterinário, logo no primeiro dia. Ele olhou, apertou, apalpou e disse: "É gato" "Sabia!", pensei, satisfeita. E dei-lhe o nome de Minhoco.
Eis que, três meses depois, outro veterinário examinou: "É gata”: Seu nome ganhou uma versão em japonês: Minhoko. O fato é que de novo vi como é fácil me apegar às coisas. Tive de me acostumar à novidade esquisita. Sendo que, o tempo todo, fui eu que acreditei no que nunca foi verdade. Percebo o quanto me apego a uma ideia, pensamento, conceito, ilusão! Portanto, continuo contemplando, meditando, treinando desapego. Se estou pronta para lidar com a próxima perda? Claro que sim. Claro que não.
Soninha Francine não quer se apegar, mas também não quer deixar de curtir seus bichos, filhos. |