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Osho, o que é
angustia?
É apenas um outro nome para a ansiedade?
       A
angústia tem algo da ansiedade, mas ela não é
apenas ansiedade. É muito mais, muito mais profunda.
       Ansiedade
quer dizer que você está preocupado com um determinado
assunto, num estado de indecisão. Você não
sabe se deve ou não fazer certa coisa, qual será
a forma certa de fazê-la, o que escolher... - há
tantas formas. Você está sempre numa encruzilhada.
Todos as formas parecem similares; certamente, levando a algum
lugar. Mas será que levam à meta que você
está aspirando?
       A
ansiedade é essa condição de fazer ou não
fazer, de escolher isto ou escolher aquilo. Mas o objeto da ansiedade
é claro: você está indeciso sobre as formas
de fazer, indeciso sobre duas pessoas, indeciso sobre dois empregos.
       A
angústia não tem nenhum objeto determinado.
       A
angústia é sentida por pessoas muito raras. A ansiedade
é sentida por todos: tratase de uma experiência comum.
A angústia é sentida somente pelos gênios,
pelos mais altos picos de inteligência. Ela não tem
nenhum objeto determinado: não há nada para você
escolher entre duas alternativas, nenhum "isto ou aquilo".
Não existe nenhuma questão de escolha. Então,
qual é o problema com a angústia?
       Vou
tentar explicar. É um pouco difícil de compreender,
mas não impossível. Nasce uma rocha, nasce uma árvore,
nasce um leão, nasce uma águia... - mas estes diferem
do homem. A diferença é esta: neles, o ser precede
a existência.
       Por
exemplo, uma pedra. Ela é viva, ela cresce. Os Himalaias
ainda estão crescendo - trinta e poucos centímetros
a cada ano. Alguém pode dizer a ele: "Ora, isso não
tem sentido, você já é o mais alto. Não
se dê tanto trabalho!". Deve ser algo perturbador:
milhares de quilômetros, milhares de picos, o trabalho deve
ser enorme. Até mesmo crescer trinta e poucos centímetros
a cada ano, não é nenhuma coisinha para os Himalaias.
"E agora não há mais necessidade. Por maior
que você se torne, você somente permanecerá
a montanha mais alta do mundo. Você já ultrapassou
todas as montanhas, deixou-as muito lá atrás.".
       Mas
os Himalaias continuam crescendo, ele é um ser vivo. As
montanhas não compreendem. O homem não compreende...
- o que dizer das montanhas?!
       Uma
rocha, uma árvore, um leão, uma águia...
- a essência deles precede a existência. O que eles
vão ser, eles já estão programados para ser.
Aquela é a essência deles. Uma rosa vai ser uma rosa.
Mesmo antes das flores surgirem, você sabe que aquelas flores
não vão ser cravos-de-defunto. A árvore é
de rosas; a essência da rosa já está ali -
simplesmente a existência tem que acontecer. O programa
básico já é provido pela natureza, tem apenas
de ser manifesto.
       Será
bom lembrarmos aqui de uma certa descoberta em décadas
passadas, que aconteceu na União Soviética. Um simples
fotógrafo amador, mas um verdadeiro gênio criativo
- usando suas câmeras, seus estúdios, a química
e a fotografia - estava tentando descobrir diferentes modos de
trazer algo novo para a fotografia. E, por acaso, ele fez uma
das maiores descobertas da história humana: a fotografia
Kirlian.
       Ele
pode tirar uma foto de um botão de rosa. Ele refinou seus
instrumentos de tal modo, que a pessoa põe o botão
de rosa em frente de sua câmera, e ele tira a foto da flor
que o botão vai se tornar. Ele capta a essência que
ainda não está manifesta, mas que, de algum modo,
está manifesta, porque a câmera a capta. Nossos olhos
não são capazes de captá-la. E quando a rosa
floresce é estranho, mas ela é exatamente igual
a que a foto mostrou.
       De
algum modo, a energia da rosa que mais tarde se torna visível
para nossos olhos, estava se movendo no mesmo padrão em
que flor iria se tornar. Era uma flor de energia, apenas puros
raios de luz e cor, mas exatamente na mesma forma, preparando
a base para a manifestação. A câmara capta
esses raios e lhe dá uma cópia da futura rosa. Talvez,
amanhã ou depois de amanhã, ela se torne disponível
a seus olhos. Isso quer dizer que a rosa, antes de se tornar existente,
já existe em essência. Desse modo, a afirmação:
a essência precede a existência.
       No
homem, a existência precede a essência.
       Primeiramente,
ele nasce e depois, ele começa a descobrir o que ele pode
ser. Essa é a angustia.
       Ele
não tem nenhum programa, nenhuma diretriz determinada,
dada pela natureza, nenhum mapa a seguir. Ele é deixado
apenas como pura existência. Ele tem de descobrir tudo sobre
si mesmo. A vida é um desafio a cada momento; assim, a
todo momento ele tem de escolher. Sempre que ele tem de escolher,
há ansiedade - mas a ansiedade é particular.
       A
angústia é uma estado geral do ser humano. Ele está
em angústia desde o nascimento até a morte, porque
ele não tem meio de saber qual é o seu destino,
onde ele irá parar.
       É
claro, muito poucas pessoas sentem angústia, porque muito
poucas pessoas são assim tão cônscias de si
mesmas, de suas existências, de para onde estão indo,
do que estão se tornando, do que vai acontecer. Elas vivem
muito interessadas no trivial.
       O
trivial cria ansiedade.
       E
sempre que há escolha, há ansiedade.
       Assim,
todo mundo, a cada passo, a cada momento de sua vida, encara a
ansiedade. A ansiedade é comum, um acontecimento diário.
       A
angústia é muito profunda.
       As
duas palavras vêm da mesma raiz; daí, a questão.
Na angústia, há alguma ansiedade, porque você
está preocupado, interessado. Mas o interesse não
é relativo a qualquer trabalho, a qualquer coisa, a qualquer
coisa em particular - não, é uma vaga sensação
geral de: "O que sou eu?".
       Um
dos maiores visionários indianos desta era, Raman Mahrishi,
tinha somente uma mensagem para todo mundo. Ele era um homem simples,
não era um erudito. Ele saiu de casa quando tinha dezessete
anos de idade - não tinha muita instrução.
Era uma mensagem simples. A quem quer que chegasse até
ele - e as pessoas vinham de todas as partes do mundo - tudo o
que ele dizia era: "Sente-se num canto, em qualquer lugar...".
       Ele
morava numa colina, Arunachal, e ele tinha determinado a seus
discípulos que fizessem cavernas na colina. Havia muitas
cavernas. "Vá e sente-se numa caverna, e apenas medite
nisto: ‘Quem sou eu?'. Tudo o mais são apenas explicações,
experiências, esforços para traduzir essas experiências
em linguagem. A única coisa verdadeira é esta questão:
Quem sou eu?".
       Eu
entrei em contato com muitas pessoas, mas jamais entrei em contato
com Raman Maharishi - ele morreu quando eu era muito novo.
       Eu
não pude ver Raman, mas encontrei muitas pessoas que tinham
sido discípulos dele, mais tarde, quando eu estava viajando.
Quando fui até Arunachal, eu me encontrei com seus discípulos
mais íntimos, que já estavam muito velhos então.
E não encontrei nem um único que tivesse compreendido
a mensagem daquele homem.
       Não
era uma questão da língua, porque eles todos sabiam
o Tamil: era uma questão de uma perspectiva e de uma compreensão
totalmente diferentes. Raman tinha dito: "Olhe para dentro
e descubra quem é você.". E o que faziam aquelas
pessoas quando eu fui lá? Elas transformaram aquilo numa
cantilena! Elas se sentavam e entoavam: "Quem sou eu? Quem
sou eu? Quem sou eu?" - exatamente como qualquer outro mantra.
       Há
pessoas que estão fazendo seus Japas : "Rama, Rama,
Rama", ou "Hari Krishna, Hari Krishna, Hari Krishna"...
Em Arunachal, eles estavam usando essa mesma tecnologia para uma
coisa totalmente diferente, que Raman jamais teria pensado. E
eu disse aos discípulos dele: "O que vocês estão
fazendo não é o que ele pretendia. Repetindo 'Quem
sou eu?', vocês acham que alguém vai responder? Vocês
continuarão a repetir isso por toda a vida e nenhuma resposta
virá.".
       Eles
disseram: "Por um lado estamos fazendo o que compreendemos
que ele pretendia. Por outro lado, não podemos dizer que
você está errado, porque passamos a nossa vida toda
cantando quem sou eu, quem sou eu, quem sou eu?..." - claro
que em Tamil, na língua deles - "mas nada aconteceu.".
       Eu
disse: "Vocês podem continuar cantando isso durante
muitas vidas mais - nada vai acontecer. Não é uma
questão de cantar 'quem sou eu?'. Vocês não
têm de pronunciar nem uma única palavra, têm
simplesmente de ficar silenciosos e ouvir. No começo, vocês
descobrirão, como moscas voando ao seu redor, milhares
de pensamentos, desejos, sonhos - sem nenhuma relação,
irrelevantes, insignificantes. Vocês estão no meio
da multidão, num zumbido. Simplesmente fiquem quietos e
sentem-se nesse bazar que é a sua mente.".
       'Bazar'
é uma linda palavra. O inglês tomou-a emprestado
do Oriente, mas talvez eles não saibam que ela vem de 'zumbir':
um bazar é um lugar que está continuamente fazendo
barulho. E sua mente é o maior bazar que existe. Na mente
de cada um, num crânio tão pequeno, cada um de vocês
está carregando um enorme bazar. E vocês ficarão
surpresos de saber que muitas pessoas residem dentro de você
- tantas idéias, tantos pensamentos, tantos desejos, tantos
sonhos! Vá observando e sente-se silenciosamente no meio
do bazar.
       Se
você começar a dizer "quem sou eu?", você
se torna parte do bazar - você começou a zumbir.
Não seja um zumbidor: simplesmente fique em silêncio.
Deixe continuar aquele bazar todo: você permanece o centro
do ciclone.
       Sim,
é preciso ter um pouco de paciência. Não é
previsível a que horas vai parar o burburinho dentro de
você. Mas uma coisa pode ser dita com certeza: ele vai parar
numa hora ou noutra. Depende de você, quanto de bazar você
tem, por quantos anos você o tem carregado, por quantas
vidas você o carregou, quanto nutrimento você lhe
deu, e quanto de paciência você tem para se sentar
silenciosamente no meio dessa multidão louca ao seu redor
- enlouquecendo-o, puxando-o de todos os lados.
       Você
está ciente da ansiedade. Mas você não está
ciente da angústia ainda.
       Em
primeiro lugar, quando você sentir angústia, você
sentirá em tremendo tormento, uma profunda depressão...
- um abismo insondável se abrindo diante de você,
e você caindo nele. É terrível no começo,
mas somente no começo.
       Se
você puder ser paciente, só um pouquinho paciente,
e permitir o que quer que aconteça, logo, logo, você
ficará ciente de uma nova qualidade em seu ser: tudo o
que está acontecendo está ao seu redor, não
está acontecendo em você. É algo externo,
não interno. Até mesmo sua própria mente
é algo do exterior.
       No
centro mais recôndito, há somente uma coisa. Esta
coisa é: o testemunhar, a observação, a atenção,
a consciência.
       E
é a isso que eu chamo de meditação.
       Sem
a angústia você não pode meditar.
       Você
tem de passar através do fogo da angústia. Ele queimará
o lixo e o deixará mais limpo e rejuvenescido.
       E
o seu ser não está muito distante. Ele está
aí, muito perto, mas simplesmente o zumbido de todos os
pensamentos não lhe permite ouvi-lo, vê-lo, senti-lo.
       A
angústia é a indagação dentro da própria
pessoa, pondo a interrogação nela mesma.
       Vocês
têm perguntado coisas como "quem é Deus?"
e "quem criou o mundo?". Todas essas perguntas são
apenas para mentes retardadas. Uma mente madura tem somente uma
questão. Nem mesmo duas, apenas uma única questão:
"Quem sou eu?".
       E
isso também você não tem de perguntar verbalmente,
você tem apenas de estar no estado de questionamento. Você
não tem de repetir "quem sou eu?", você
tem apenas de estar presente, atento, olhando... não perguntando
verbalmente, mas perguntando existencialmente.
       E
essa questão existencial é terrível no começo,
dolorosa no começo, mas traz todas as bênçãos
no final.
       Gautama,
O Buda, disse: "Meu caminho no começo é amargo,
mas no fim é muito doce.".
       Que
caminho? Ele não está falando sobre a religião
budista - embora seja dessa forma que os monges budistas irão
interpretar. Ele está falando sobre o caminho do qual eu
estou falando - o caminho que o leva para dentro.
       Sim,
ele é amargo no começo, mas doce no fim. Ele é
como a morte no começo e é a vida eterna no fim.
       E
todas as bênçãos da existência são
suas.
       Você
fica tão abençoado que pode abençoar toda
a existência.
       Esse
é o significado da palavra ‘Bhagwan’; O Abençoado.
       O
Abençoado nasce da angustia.
Osho, From
Personality to Individuality, #6
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