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A felicidade já foi assunto apenas de filósofos. Agora, está virando produto com lugar garantido em laboratórios, prateleiras de livrarias e bulas de remédio.
Se lhe fosse dada a chance de nascer de novo em qualquer ou o lugar do mundo que não fosse o Brasil, que país você escolheria? Bem, se você privilegia os aspectos financeiros da vida, é provável que escolhesse os Estados Unidos, por ser o país mais rico do mundo. Caso você se interesse mais por conhecimento e cultura, talvez preferisse algum país europeu, como a França ou Itália. Se dá mais valor à qualidade de vida, talvez optasse por nascer canadense ou dinamarquês. Se o que você gosta mesmo é de sombra e água fresca, a melhor escolha poderia ser uma sossegada ilha da Polinésia, Mas se o que você desejaria na sua outra vida é ter a maior possibilidade de ser feliz, então se prepare para nascer de novo na Nigéria. Isto mesmo: nesse pobre país africano, assolado pela miséria e pela epidemia da Aids, marcada pelo analfabetismo e pela corrupção, vive o povo mais feliz do mundo.
A surpreendente pesquisa foi realizada em 65 países pelo World Value Survey - um instituto sediado na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que há 20 anos investiga mudanças socioculturais no mundo. Esse estudo, cujos resultados completos ainda não foram publicados, mostra que felicidade não é assunto fácil. Quanto mais pesquisamos sobre ela, mais temos que admitir que se trata de um sentimento complexo, que envolve genes, cultura e personalidade individual de uma maneira que só agora começa a ser destrinchada.
Por ser tão complexa quanto desejável, a felicidade vem despertando a atenção de todos nas últimas décadas - e não apenas de filósofos, terapeutas e gurus religiosos, como era antigamente. Não é à toa que uma avalanche de livros de auto-ajuda tomou as gôndolas das livrarias e super-mercados. Os títulos vão desde o já clássico A Arte da Felicidade, de 1998, escrito numa parceria entre o líder espiritual budista Dalai Lama e o psiquiatra americano Howard Cutler, até pequenos guias produzidos por psicólogos, filósofos, poetas e até resignadas donas de casa, que pretendem resolver todos os problemas humanos com alguns preceitos simplórios do tipo: "Sorria ao acordar".
MAIS DE 3 MIL ESTUDOS. Os cientistas entraram na onda também, empreendendo estudos em disciplinas tão distintas quanto sociologia, psiquiatria, neurociência, economia e genética. Nos últimos 30 anos, foram realizadas mais de 3 300 pesquisas sobre a felicidade em todo o mundo. Essa profusão de dados estimulou a criação, em 2000, do Journal of Happiness Studies (Jornal de Estudos da Felicidade) e do World Database of Happiness (Arquivo Mundial sobre a Felicidade), ambos sediados na Holanda. Nesse mesmo período, a medicina e a indústria farmacêutica investiram pesadamente na pesquisa de fármacos que permitissem aliviar os sintomas da infelicidade, dos quais o Prozac é o principal exemplo.
Para os psicólogos, °a felicidade é, simplesmente, o grau de avaliação positiva que uma pessoa faz de sua vida", afirma Ruut Veenhoven, professor de Condições Sociais para a Felicidade Humanada Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, e editor do Jornal de Estudos da Felicidade. Ele defende que a felicidade geral de uma pessoa deve ser avaliada em três níveis. No primeiro, que ele chama macro, estão as características da sociedade onde a pessoa vive, tais como riqueza, justiça e liberdade. No segundo nível, que Veenhoven chama de médio, estar feliz depende do grau de autonomia e respeito que a pessoa desfruta diante das instituições com as quais lida diretamente, como a empresa onde ela trabalha. No micronível, tudo depende de capacidades pessoais: habilidades técnicas e intelectuais e independência emocional e financeira. Por isso, Ruut Veenhoven diz que a felicidade pode ser implementada, no mundo inteiro, com reformas sociais e organizacionais que garantam maior participação das pessoas nas decisões, bem como acesso à educação e, se necessário, um pouco de terapia.

Os métodos dessas pesquisas são variados: vão desde perguntas simples sobre o estado geral de felicidade de uma pessoa num momento qualquer até o acompanhamento sistemático de suas atividades durante várias semanas: o pesquisado indica de hora em hora, por meio de dispositivos eletrônicos conectados on line, como está a sensação de felicidade e satisfação pessoal. Dessa maneira identificam-se os comportamentos de risco para esse sentimento no seu dia-a-dia.
As vantagens ultrapassam a simples alegria. Os mesmos estudos mostram que pessoas felizes adoecem menos, são mais produtivas no trabalho, participam mais da vida pública e se tornam líderes naturais.
Mas nem todos demonstram tanta confiança nessas pesquisas. Os antropólogos são os primeiros a levantar objeções sobre as tentativas de tabular e quantificar algo tão etéreo. "A felicidade é uma construção cultural e não uma coisa objetiva que possa ser avaliada com fita métrica. O interessante da antropologia é aprofundar-se nos aspectos mais sutis da cultura dos povos, coisa que os estudos quantitativos raramente conseguem fazer", diz o antropólogo Guilhermo Raul Ruben, da Universidade de Campinas (Unicamp).
O olhar pelo prisma da cultura poderia, então, ajudar a entender a posição privilegiada dos nigerianos na lista dos povos felizes? A resposta é positiva, segundo o economista e filósofo brasileiro Eduardo Giannetti, autor do livro Felicidade, lançado em 2002. Ele viveu alguns meses na Nigéria na década de 80 e pôde constatar a natural inclinação dos nigerianos para aproveitar a vida com alegria. "Eu não esperava encontrara vitalidade afetiva, o calor humano e a pura alegria instintiva de viver que os nigerianos exibiam nas mais corriqueiras ações do dia-a-dia. Era uma espécie de felicidade involuntária, um estado de ânimo que parecia emanar espontaneamente das pessoas e que tornava o simples existir uma bênção, independentemente de qualquer razão ou justificativa lógica", afirma Giannetti.
Tão surpreendente quanto isso é o que a pesquisa diz do Brasil. O estudo jogou por terra a idéia de que somos o povo mais feliz do mundo. Menos de 30% das pessoas daqui se consideram plenamente felizes. Entre as explicações, Eduardo Giannetti cita a perda das raízes culturais provocada pela urbanização recente - diferente do caso nigeriano. Em segundo lugar, o contraste social, com ricos e miseráveis disputando espaço, criando insatisfações e ansiedades para ambos.

Armadilhas da mente:
A ausência de felicidade pode ser resultado de diversos transtornos psíquicos já conhecidos dos pesquisadores. Quando diagnosticados, eles podem ser curados ou pelo menos amenizados, com tratamentos terapêuticos e drogas especificas. Confira os chamados “ladrões da felicidade”, de acordo com os médicos e cientistas:
Depressão
É o ultimo estágio da dor emocional. Inclui perda do prazer de viver, ansiedade, desmotivação, alteração do apetite, do sono e,às vezes, ideias de suicídio.
Ansiedade
Sensação de apreensão, de que algo “nocivo” está prestes a acontecer, embora não se saiba o quê. Envolve experiências físicas, como opressão no peito, falta de ar, palpitação, tensão muscular, tremores, boca seca e tonturas.
Ataques de pânico
Forma súbita, estrema e imprevisível de ansiedade. De um momento para outro, o individuo é tomado por um intenso desespero, acompanhado de sensação de morte, descontrole ou loucura. Os sintomas físicos são variados. Vão desde palpitações e falta de ar até tremores, ondas de frio ou calor e sensação de desmaio. Muitas vezes, tem-se a impressão de que a pessoa afetada está tendo um doença aguda grave ou um ataque do coração.
Transtornos obsessivos
Marcados por ideias fixas que fomentam ansiedade, como mania de limpeza, preocupações com doenças, acidentes e perdas.
Distima
Depressão que acompanha a formação da personalidade desde a infância ou adolescência. È aquele paciente que sempre foi triste, insatisfeito, isolado e tachado de mal-humorado. Conhecida também como doença do humor.
Transtorno Bipolar
Caracteriza-se pela presença de pólos totalmente opostos de humor no indivíduo afetado. Alternam-se vários períodos de depressão, desmotivação e recolhimento com outros de euforia exagerada, excesso de auto-estima, falta de sono e um sentimento de poder irrestrito. Em muitos casos, o paciente com transtorno bipolar acaba perdendo os parâmetros da realidade e fica mentalmente confuso e desorientado.
Síndrome do pensamento acelerado
Descoberta pelo psiquiatra brasileiro Augusto Cury, essa síndrome caracteriza-se pela mente bastante agitada, devido a uma produção excessiva de pensamentos. Isso acaba gerando sofrimento por preocupações antecipatórias, fadiga excessiva, falta de memória, deficiências importantes de concentração, irritabilidade freqüente e dificuldade de ter prazer na rotina diária.

ALEGRIA É DÁDIVA OU CONQUISTA?
Características culturais de cada povo também indicam por que países como Índia e China aparecem atrás no ranking da felicidade. Nessas regiões, onde as sociedades são mais coletivistas e privilegiam a família e os grupos, a felicidade é vista como bênção divina, e não conquista pessoal. Como exemplo, o psicólogo americano Edward Diener, da Universidade de Illinois, cita o caso de uma mulher indiana na província de Kerala que, quando questionada se era feliz, respondeu: "Não sei, tenho de perguntar ao meu marido".
Edward Diener mudou a maneira como a psicologia encara esse sentimento ao expor, em estudos publicados durante a década de 90, o estranho paradoxo que parece governar esse sentimento. Parece óbvio que, quanto mais felicidade sentirmos, menos infelizes seremos. Óbvio, mas errado. "Na verdade, felicidade e infelicidade são sentimentos que não se anulam e podem até coexistir", afirma Diener. Na prática, isso significa que evitar coisas que nos fazem tristes não garante aumento da felicidade. O outro lado da moeda é que podemos melhorar nossa sensação de felicidade na vida independentemente de nossa propensão à melancolia. Para tanto, comprovam os estudos experimentais, basta identificarmos as atividades que nos deixam felizes e dedicarmos mais tempo a elas.
A descoberta indica que a propensão para ser infeliz pode ser um traço genético hereditário. Foi isso que provou a dupla de psicólogos americanos David Lykken e Auke Tellegen, da Universidade de Minnesota. Eles pesquisaram a sensação de felicidade em 732 pares de gêmeos idênticos adultos, com resultados surpreendentes: todos os pares, não importando se tivessem crescidos juntos ou separados, apresentaram o mesmo nível de infelicidade. No entanto, variações importantes na sensação de felicidade ocorreram nos casos de gêmeos idênticos que cresceram separadamente e, por isso, tiveram oportunidades muito diferentes de educação, trabalho e relacionamento.

VERDADES E MENTIRAS.
Se os estudos psicológicos não definiram o caminho com a precisão desejada, ao menos serviram para esclarecer sobre o que não é felicidade. Uma das conclusões mais inesperadas das pesquisas recentes de psicologia é que o sentimento tem pouca relação com os índices de qualidade de vida de uma pessoa. O que vale não é como ela realmente vive, mas sim como ela acha que vive
Outra idéia poética que desmorona: encontrar um grande amor e se casar não implica ser mais feliz do que nos tempos de solteirice. De fato, um estudo de 15 anos realizado com 12 mil casais, publicado em março de 2003 no Jornal de Personalidade e Psicologia Social, mostrou que, após um primeiro ano de lua-de-mel, a quase totalidade das pessoas voltava a ter os mesmos índices de satisfação com a vida que tinha antes do casamento.
Por outro lado, o velho adágio popular de que dinheiro não compra felicidade parece comprovado, Basta notar, por exemplo, que o vertiginoso crescimento econômico e o aumento de renda per capita vividos pelos Estados Unidos, após a segunda Guerra Mundial, não produziram acréscimo na sensação de felicidade, segundo estudos recentes. Isso não significa, porém, que o ser humano possa ser feliz passando fome. Na verdade, ganhos de felicidade acontecem proporcionalmente ao aumento da renda até o ponto em que a pessoa vê atendidas suas necessidades básicas de alimentação, moradia e liberdade de movimento. Após esse patamar, que corresponde a cerca de 10 mil dólares anuais - ou a renda per capita de países como Portugal e Irlanda -, ganhos extras na renda não significam mais alegria.
A mesma desconexão entre felicidade e riqueza aparece na escala pessoal: um levantamento com os 100 maiores milionários americanos, listados pela revista Forbes, provou que a felicidade deles não é maior do que a das pessoas de classe média. Embora ganhar um aumento de salário possa nos deixar felizes por algum tempo, essa é uma sensação passageira. Mesmo ganhadores de prêmios milionários na loteria demonstram ter uma alegria com data de validade predeterminada e que raramente ultrapassa ao primeiro ano de fausto.
Os estudos indicam que nos adaptamos tão rapidamente às novas circunstâncias, que "riqueza é como saúde física. Embora sua ausência possa ser grande tristeza, sua presença jamais garante felicidade", diz o psicólogo Edward Diener.
ALEGRIA DE RICO DURA POUCO.
Os psicólogos estão convencidos também de que a pressão pelo sucesso financeiro está se tornando uma das principais fontes de infelicidade nos países ricos. Num polêmico artigo publicado em 2002 na revista Socia/Science and Medicine, os psicólogos Richard Eckersley e Keith Dearafirmam que as taxas de suicídio juvenil vêm subindo dramaticamente nos países desenvolvidos devido a essa pressão. "É a ponta de um iceberg de sofrimento que reflete a falência das sociedades ocidentais em prover fontes de identidade e laços sociais", dizem num de seus artigos. Eles advogam que os governos ocidentais devem implementar políticas públicas para proteger as novas gerações da ideologia do consumismo e do individualismo controlando, inclusive, a propaganda comercial.
Trilhando um caminho praticamente oposto ao da psicologia e da antropologia, a neurociência também vem encontrando indícios cada vez maiores de que a felicidade tem estreita ligação com a fisiologia. Essa ciência estuda as correlações entre as emoções e alterações químicas e elétricas no cérebro. Na prática. os cientistas analisam na tela de computadores imagens que revelam quais regiões do cérebro se ativam quando sentimos uma emoção. As pesquisas já revelaram duas áreas importantes. A primeira é a amígdala, que tem esse nome por sua forma arredondada e fica bem no meio do cérebro. A segunda é o lobo frontal (a "massa cinzenta"), localizado logo atrás da testa.
A amígdala se mostra ativa principalmente quando temos sensações ruins, como o medo e a raiva. É uma região de emoções primitivas agressivas. Já o lobo frontal divide-se em dois hemisférios: o direito, onde parecem se formar sentimentos ligados ao estresse, como a ansiedade e a depressão; e o esquerdo, onde, inversamente, surgem as sensações positivas, como o entusiasmo pela vida, o otimismo, a tranqüilidade e - claro - a tão perseguida felicidade.

Caminhos do bem-estar
Auto-ajuda: é a moda em livrarias, bancas de jornais e até supermercados. Tem eficácia apenas se o motivo da felicidade depender de mudanças de hábitos.
Remedios: Importantes para controlar crises agudas dos transtornos psíquicos. Mas raramente resolvem de vez o problema. Há risco de vicio se não houver acompanhamento psiquiátrico.
Psicanálise: Apesar de questionada recentemente, ainda é considerada por muitos um poderoso instrumento para “desatar” nós psíquicos, frutos de traumas, e permitir o autoconhecimento.
Manipulação Genética: É um caminho tão futurista quanto perigoso. A homogeneidade de sentimentos destruiria a riqueza das relações humanas. Seriamos “bobos alegres” da nascença.
Religiosidade: Tem poder de aquietar o espírito, sobretudo em quem sofre de depressão e ansiedade. Acreditar em alguma divindade – não importa qual – pode gerar felicidade.
Riqueza Material: é importante ter dinheiro para fazer as necessidades básicas, como moradia e alimentação. Garantida a subsistência, porém, o dinheiro tem um poder pequeno de aumentar a sensação de felicidade das pessoas.
Meditação: Funciona. Estudo recentes em neurociência provam que a meditação é capaz de acionar regiões do cérebro relacionadas com a sensação de tranqüilidade, além de intimidar a ação das ragiões onde são produzidas as sensações de medo e raiva.
SOLUÇÃO QUÍMICA. A neurociência também mostrou que a ativação dessas regiões é regulada por substâncias chamadas neurotransmissoras. São moléculas responsáveis pela transmissão de mensagens de um neurônio a outro. O primeiro transmissor estudado foi a serotonina, que é produzida dentro dos próprios neurônios, Os neurocientistas descobriram que sua deficiência no cérebro está estreitamente ligada a formas de transtornos psíquicos graves, como a depressão e a dependência química.
Isso permitiu desenvolveras chamadas "pílulas da felicidade", tais como o Oblivon, o Zoloft e o Prozac. A mais recente fronteira é um neurotransmissor chamado dopamina. Produzida numa região do cérebro conhecida como "substância negra", ela migra para outras regiões, principalmente para o lobo frontal esquerdo, e parece determinar o surgimento das emoções positivas. A dopamina promete ser a base da nova geração de pílulas da felicidade.
Passada a euforia dos primeiros anos, porém, tantos psiquiatras quanto pacientes admitem que essas pílulas podem até ser importantes no tratamento de patologias psíquicas ou no controle de crises agudas, mas ajudam pouco para a busca da verdadeira felicidade, Ao contrário, podem ter efeitos colaterais, como a obesidade, que costuma adicionar mais infelicidade ainda nos indivíduos tratados.
Alguns futurólogos preocupam-se com o avanço na direção do controle químico da sensação da felicidade, somado ao fato de que ela tem um componente genético. No livro The Next 50 Years (Os Próximos 50 Anos), o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago, afirma que, num futuro não muito distante, "os pais poderão escolher, pela seleção genética, se querem ter filhos felizes". Ele afirma que essa possibilidade pode trazer uma perigosa uniformidade de humor às futuras gerações, já que as relações humanas são pautadas pela diversidade.
Quem não pretende se entregar ao engodo de uma felicidade química, tem outras opções. Um dos caminhos clássicos é a psicanálise, uma forma de terapia desenvolvida a partir dos estudos de Freud sobre a mente humana. "Ser feliz depende muito mais de fatores psíquicos ou sociais do que de neurotransmissores", afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury, autor de obras como Treinando a Emoção para Ser Feliz e Dez Leis para Ser Feliz, Por isso, os livros de auto-ajuda multiplicam-se nas prateleiras das livrarias. "Não é uma invenção moderna. A auto-ajuda existe desde os tempos dos filósofos gregos. Afinal, o que são os livros dos neoplatônicos, dos epicuristas ou estóicos senão manuais para se alcançar a felicidade pessoal?", pergunta Eduardo Giannetti.

O que não é felicidade – Mitos que a ciência derrubou:
- Encontrar um grande amor não implica ser mais feliz para sempre, mas apenas por um curto período.
- O que vale não é a “realidade”, mas sim a avaliação que a pessoa faz de sua vida. Uma pessoa que não tem tempo para o lazer, proximidade da família, muitas horas de sono ou entretenimento disponível pode ser infeliz.
- O aumento da conta bancaria só eleva a felicidade até um certo ponto. Depois, o sentimento cessa de crescer e pode até diminuir.
- Um levantamento com os 100 maiores milionários americanos provou que a felicidade deles não é maior do que a das pessoas de classe média.
- Ganhadores de prêmios milionários na loteria demonstram ter uma felicidade com data de validade predeterminada e que raramente ultrapassa o primeiro ano de riqueza.
A VEZ DA AUTO-AJUDA. Isso criou um mercado cada vez mais vigoroso, que movimenta milhões de reais por ano e que deixa muita gente feliz - principalmente seus autores e editores -, mas que não convence a todos sobre sua verdadeira eficácia, "A maioria dos livros de auto-ajuda é como calmantes. Funcionam por algum tempo, mas só até o momento em que a pessoa acorda. Aí ela precisa ler mais um desses livros até, quem sabe, entender que na busca da felicidade vale mais uma boa dúvida do que uma resposta pronta", afirma Jorge Forbes.
Existe ainda a opção da religiosidade para quem não se sente seduzido pela auto-ajuda ou pela psicanálise. Há indícios de que a sensação de estar protegido por um ser superior ou em comunhão com a natureza induz à felicidade. Isso se acentua no caso da meditação. Estudos realizados na Universidade de
Wisconsin, coordenados por Richard Davidson, mostram que os budistas são mais felizes, em média, do
que aqueles que não seguem essa religião. Enquanto meditam, eles demonstram maior atividade no lobo frontal esquerdo - justamente aquele que os neurocientistas afirmam ser responsável por emoções como a tranquilidade, o relaxamento e o autocontrole diante de situações adversas.
E agora, para onde vamos ? - poderia se perguntar o desalentado leitor diante de tantos caminhos. Talvez o ensinamento mais importante é que a felicidade não é o único objetivo da vida. Ao contrário, uma certa dose de infelicidade - espreitando-nos desde nossos genes - parece ser útil para que possamos seguir vivendo na busca de um ideal de satisfação completa, ainda que inefável e inatingível. "Quem sabe a banalização da felicidade não leve os homens a se darem conta de que, nesta vida, nada é tudo, nem mesmo a própria felicidade?", questiona Eduardo Giannetti. "Foi graças ao sentimento e à dor que o animal humano adquiriu a autoconsciência. A dor e o mistério de existir são prerrogativas das quais a humanidade jamais consentirá em abrir mão.".
PARA IR MAIS LONGE
FELICIDADE. Eduardo Giannetti. Companhia das Letras, 2002
THE NEXT50YEARS. Mihaly Csikszentmihalyi. John Brockman Ed., 2002.
DEZ LEIS PARA SER FELIZ. Augusto Cury. Editora Sextante, 2003.
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